RS tem proporção maior de trabalhadores com dupla ocupação
Nos últimos anos, o crescimento e o desenvolvimento das tecnologias digitais mudaram o panorama do trabalho no mundo. Hoje, com acesso à internet e equipamentos básicos, é possível, sem grandes entraves, vender a força de trabalho a uma empresa nacional ou estrangeira. É a chamada "plataformização".
Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil somava 2 milhões de pessoas trabalhando por meio de plataformas digitais em 2025, considerando tanto o trabalho principal como o secundário. A maioria dessa parcela atuava no transporte de passageiros: mais de 1,2 milhão de pessoas.
Esse formato ainda recente tem repaginado uma prática nada nova no mercado de trabalho: a segunda ocupação. No segundo trimestre de 2026, só no Rio Grande do Sul, o número de pessoas ocupadas com dois ou mais trabalhos era de 279 mil pessoas, de acordo com os números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE.
Para Thays Mossi, professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), é importante entender qual é o conceito desse "segundo trabalho", ou seja, se inclui apenas dois vínculos formais ou também contabiliza trabalhos informais e temporários. Nesse caso, entraria na conta o que chamam de Gig Economy. "Basicamente a 'economia do bico', que para o brasileiro não é uma novidade, é algo corriqueiro da vida cotidiana, dependendo da sua classe social", explica.
No caso da PNAD Contínua, o conceito utilizado não é o de "emprego", mas o de "ocupação": "são classificadas como ocupadas na semana de referência as pessoas que, nesse período, trabalharam pelo menos uma hora completa em trabalho remunerado em dinheiro, produtos, mercadorias ou benefícios (moradia, alimentação, roupas, treinamento etc.), ou em trabalho sem remuneração direta em ajuda à atividade econômica de membro do domicílio ou parente que reside em outro domicílio, ou, ainda, as que tinham trabalho remunerado do qual estavam temporariamente afastadas nessa semana", descrevem as Notas Técnicas PNAD Contínua.
Ou seja, não há uma restrição a vínculos formais. Atividades informais e trabalhos por plataformas podem entrar no cálculo, desde que atendam às exigências da pesquisa.
Apesar do crescimento das plataformas digitais e de sua associação a novas formas de trabalho, a série histórica da PNAD Contínua não demonstra um crescimento na proporção de gaúchos com dois ou mais trabalhos. No segundo trimestre, das mais de 5,9 milhões de pessoas ocupadas no Rio Grande do Sul, 279 mil mantinham mais de uma ocupação: 4,7%. O percentual permanece dentro da média observada desde 2012.
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Renda e realização profissional são alguns dos motivos para manter um segundo trabalho
Os números oficiais são insuficientes para compreender o perfil de quem acumula mais de um trabalho no Rio Grande do Sul. Ainda falta uma caracterização que inclua recortes de gênero, idade, raça, renda e modalidades de trabalho. Também não é possível dimensionar a parcela composta por trabalhadores de plataformas nesse grupo. Hoje, com quase 280 mil pessoas, o Rio Grande do Sul aparece na quinta posição entre os estados com maior proporção de ocupados com dois ou mais trabalhos. Em quarto lugar, entre os números absolutos.
Em resposta ao Jornal do Comércio, o Departamento de Economia e Estatística (DEE) da Secretaria de Planejamento Governança e Gestão do Estado, responsável pela edição trimestral do Boletim de Trabalho do Rio Grande do Sul, informou que "o cruzamento dos dados da PNAD Contínua com informações sobre o perfil demográfico desse grupo demandaria um estudo prévio, que ainda não foi realizado pelo DEE". O órgão também avalia "a possibilidade de incorporar essa análise ao próximo Boletim de Trabalho, o que permitiria abordar o fenômeno de forma mais detalhada".

...e também passou a fotografar para complementar a renda Andréia Schultz/Arquivo Pessoal/JC
Não é tarefa difícil, porém, encontrar exemplos de pessoas com duas ou mais ocupações. Há casos, aliás, em que o mais difícil é delimitar o trabalho "principal".
Foi assim que Andréia Schultz passou do desemprego à dupla ocupação, em poucos meses. Começou com uma atividade rotineira: foi buscar uma amiga que trabalhava numa empresa de planos de saúde em Porto Alegre. Passou por uma sala de vidro e se interessou. Eram os escritórios das vendedoras. "Então eu disse: é aqui que eu vou trabalhar".
Três meses depois, Andréia foi chamada. Era 2009. Hoje, completa 17 anos como consultora de planos de saúde. Atualmente, ela tem em torno de 8 mil beneficiários. "E eu tenho um amor incrível, é uma profissão maravilhosa. Mas a gente sempre precisa de um plus a mais", considera.
No mesmo ano, já pensava em formas de complementar a renda. Ingressou num curso de fotografia por celular e não parou mais. Fez aulas particulares, investiu em equipamentos, sempre com o interesse em retratar pessoas. No início, queria fazer ensaios boudoir, buscando o lado mais sensual de mulheres.
Começou a trabalhar como fotógrafa ainda naquele ano. Aos poucos, a clientela foi mudando. Então foi chamada para um evento infantil. "Pensei: 'não é bem o que eu faço, mas eu vou'. Hoje, eu amo fazer evento infantil. Eu amo fotografar crianças".
Atualmente, além de abrir a agenda para diferentes eventos, Andréia já tem uma clientela fixa, incluindo pessoas e empresas, principalmente de Porto Alegre e arredores. É, inclusive, a fotógrafa fixa de uma casa de religião na Capital. Boa parte dos clientes, aliás, surgiu a partir do trabalho como consultora de plano de saúde. "E vice-versa: gente da fotografia que já fez cotação para o plano de saúde comigo", complementa.
O trabalho de consultora ainda é a principal fonte de renda de Andréia. A fotografia, por outro lado, oferece uma remuneração menos estável, embora haja meses em que as duas fontes quase se equiparem. O final de ano costuma atrair mais a busca pelos serviços fotográficos, pelo menos no caso de Andréia. É quando se organizam mais eventos em empresas, formaturas, entre outros. Ainda assim, a renda da consultoria tende a ser superior.
"Eu estava fazendo uma transição na empresa para passar de CLT para PJ. Com isso fiz todo um orçamento, já estava vendo uma sala para alugar, porque ia ficar mais forte na fotografia, conciliando com o plano de saúde e fazendo tudo dentro dessa sala. Fui ver sala, equipamento... Minha ideia era essa. No fim, essa troca para PJ deu errado, ficou uma confusão, e eu acabei desistindo porque fiquei receosa de ficar com uma despesa fixa maior ainda. Mas ainda é meu sonho e meu projeto", esclarece.
Atualmente, Andréia não se vê optando por uma ou outra profissão. Gosta do trabalho fixo: para ela é tão satisfatório quanto a fotografia. Se no trabalho artístico a gratificação vem da possibilidade de mostrar a beleza muitas vezes insuspeita para as pessoas retratadas, como consultora de planos de saúde, o encanto vem da solução de problemas.
"Há poucos dias uma cliente me chamou para agradecer por eu ter ajudado a conseguir o médico para fazer a cirurgia de amígdala do filho dela pequeninho. Eu levantei às 4h da manhã e consegui uma remoção de Nova Petrópolis. Pedi para o médico ligar para o Moinhos, a pessoa veio, estava em risco de vida, fez a cirurgia. Então isso é bacana", relata.
ESTADOS COM MAIOR PERCENTUAL DE PESSOAS COM DOIS OU MAIS TRABALHOS:
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UF |
Dois ou mais trabalhos |
% dos ocupados |
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Roraima |
16 mil |
5,1% |
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Sergipe |
49 mil |
5,0% |
|
Piauí |
66 mil |
5,0% |
|
Paraíba |
87 mil |
5,0% |
|
Rio Grande do Sul |
279 mil |
4,7% |
|
Minas Gerais |
503 mil |
4,6% |
|
Tocantins |
35 mil |
4,5% |
|
Brasil |
3,710 milhões |
3,6% |
Fonte: IBGE, PNAD Contínua Trimestral, 2º trimestre de 2026
ESTADOS COM OS MAIORES CONTINGENTES DE PESSOAS COM DOIS OU MAIS TRABALHOS:
|
UF |
Pessoas com dois ou mais trabalhos (mil) |
|
São Paulo |
762 |
|
Minas Gerais |
503 |
|
Rio de Janeiro |
326 |
|
Rio Grande do Sul |
279 |
|
Bahia |
265 |
|
Paraná |
254 |
|
Pará |
141 |
Fonte: IBGE, PNAD Contínua Trimestral, 2º trimestre de 2026
|
Principal motivo para trabalhar por meio de plataforma digital no trabalho principal |
% |
|
Por causa da flexibilidade |
26,8 |
|
Não conseguiu encontrar outro trabalho |
24,6 |
|
O rendimento é maior do que em outros trabalhos disponíveis |
20,8 |
|
Para complementar a renda |
16,6 |
|
Para melhorar as habilidades, ganhar experiência ou expandir a rede de contatos profissionais |
4,0 |
|
Outro motivo |
7,3 |
Fonte: IBGE, PNAD Contínua 2025.
|
Principal motivo para trabalhar por meio de plataforma digital no trabalho secundário |
% |
|
Para complementar a renda |
87,7 |
|
Outro motivo |
12,3 |
Fonte: IBGE, PNAD Contínua 2025.
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Do serviço público ao empreendedorismo
Larissa Urruth Pereira iniciou a carreira profissional aos 14 anos, como estagiária de nível médio. Com 16, foi menor aprendiz; com 18, operadora de telemarketing por alguns meses, até ser nomeada num concurso público de nível médio. Chegou a conciliar o estágio do curso de Direito com o cargo público. Poucos anos depois, em 2013, terminou a graduação, emendou especialização, mestrado, pesquisa. Tudo isso sem abdicar do serviço público.
Em 2017, ao final do mestrado, queria investir na vida acadêmica. Tinha o sonho de ser professora, mas também vontade de advogar. "Então eu me desliguei do emprego público e fui trabalhar num escritório de advocacia que não era meu. E iniciando o doutorado, eu comecei a dar aula", relata.
Nesse período, Larissa trabalhava em torno de 8 horas diariamente no escritório de advocacia no centro de Porto Alegre e mais três horas ministrando aulas numa faculdade do interior do Estado, para onde se deslocava todos os dias. Ficou um ano e meio nessa rotina até decidir abrir o próprio escritório, em conjunto com uma sócia.
A jornada dupla continuou. Hoje, alia duas carreiras bem conceituadas, mas nem sempre o prestígio reflete em remuneração. Ela conta que nasceu em família humilde e, pelo menos no início, era necessário conciliar os empregos de advogada e de professora universitária para ter renda suficiente.
"Depois eu fui entendendo que eu gosto muito de advogar e que advogar me dá melhores condições financeiras. E aí, ao abrir meu negócio e ele começar a dar certo, eu investi mais nisso. Então hoje eu entendo que ter as duas atividades está mais ligado à realização pessoal. Mas também à renda", complementa.
Empresária alia modacom paixão por ensinar
A professora Thays Mossi, do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) acredita que um dos principais fatores para o acúmulo de ocupações seja a renda extra. Porém, há quem busque uma experiência específica, relacionada a algum tipo de realização pessoal. É o caso de Eleonor Canal, que há 25 anos é proprietária, em sociedade com a irmã, de uma loja de vestuário em Campinas do Sul, no Norte do Estado: a Mana Modas.
Em 2025, o cotidiano de Eleonor se transformou: começou a trabalhar como professora de ensino infantil no município. Formada em Pedagogia desde 2007, nunca tinha atuado na área.
"Tive a oportunidade de finalmente colocar em prática conhecimentos adquiridos durante minha formação. Tinha o desejo de viver um novo desafio profissional e descobrir como seria a experiência de ser professora. Sempre tive curiosidade e vontade de conhecer essa realidade, principalmente o trabalho com as crianças".
A nova rotina é, naturalmente, muito ativa. Durante a manhã, Eleonor trabalha na loja, enquanto as tardes são dedicadas à sala de aula — sem contar as ocupações domésticas: é casada e mãe de duas filhas, o que exige ainda mais organização de tempo e responsabilidades.
"Cada trabalho possui seus próprios desafios. No comércio, temos o contato direto com os clientes, as responsabilidades da loja, as vendas e toda a parte de organização. Na escola, o desafio é lidar diariamente com as crianças, planejar as atividades, ensinar, acompanhar cada aluno e estar sempre buscando novas formas de tornar a aprendizagem significativa. É uma rotina intensa, mas também muito gratificante", assinala.
Apesar do cansaço das jornada, Eleonor pretende seguir nas duas atividades. "A Mana Modas faz parte da minha história há 25 anos e é um trabalho que construí junto com minha irmã. Já a profissão de professora é uma experiência nova, que me trouxe muitos aprendizados e uma realização muito especial".
Artista e designer desafia o mercado tradicional
Thane C. nasceu na Vila Cruzeiro em Porto Alegre e sempre quis ser cantora. Um projeto musical no Ensino Médio abriu as portas e Thane formou uma banda com colegas. Passaram a se apresentar na Cidade Baixa. Com o tempo, parte da banda não quis seguir no ramo, mas Thane continuou: cantou na igreja, participou de coral. Foram anos de juventude dedicados à música. Em meio a isso, trabalhou em diferentes lojas, em shoppings. Também atuou como modelo e assim se aproximou da moda.
Aos 22 anos, Thane C. lançou sua primeira música autoral: Lance. Era o início da pandemia. Depois de mais dois lançamentos, engravidou. "Eu achava que estava no meu auge. Tinha lançado minhas músicas, eu já estava marcando agenda para show, acho que juntou tudo também junto com a pandemia. Então acabei ficando muito, muito triste, muito isolada também".
Mas a rotina não permitia longas paradas. Thane seguia em um emprego numa loja de moda feminina quando iniciou a faculdade de Design de Moda em 2023. A partir de então, começou a desenvolver uma marca própria de roupas e acessórios em crochê: a Soul Brasil. "Foi o que me despertou também a vontade de vestir outras pessoas, trabalhar como stylist, trabalhar também como social media. Eu acho que a moda te faz isso, te dá essa abertura de trabalhar com tudo relacionado à arte".
Meses mais tarde, entrou para o Fórum de Mulheres Negras da Economia Popular Solidária (Fespope), que possibilitava a exposição e a venda de seus produtos. Nesse contexto, decidiu deixar o antigo emprego. "Eu me vi muito presa dentro do shopping, não conseguindo produzir o que eu queria. E aí acabei focando mesmo na minha marca, na música", conta.
Thane C. hoje se considera "artista e designer de moda". Não é tão simples, entretanto, organizar as múltiplas atuações profissionais em categorias fixas. A depender do contexto e das oportunidades, ela reordena seu foco entre a arte e o empreendimento. Enquanto isso, segue atuante na economia solidária e a marca Soul Brasil está prestes a passar por um processo de rebranding a partir de novembro. A música também permanece na rotina profissional, sobretudo nas oficinas ministradas por ela.
Jornadas mais longas podem representar mais exaustão
Manter duas ou mais ocupações que envolvem realização profissional e renda nem sempre representam uma conciliação saudável, no entanto. A advogada e professora Larissa Urruth Pereira trabalha cerca de 56 horas semanais: 36 horas no escritório de advocacia e 20 horas na faculdade, embora quisesse dividir o tempo em cargas mais equilibradas.
"Fica muito pesado, eu me sinto exausta. É bastante difícil conciliar. E claramente a jornada de um trabalho interfere de outro. Por exemplo, essa semana eu estou com um prazo gigantesco no escritório e eu tinha algumas atividades acadêmicas muito importantes, como o lançamento do meu livro e fechamento de semestre, então algumas horas que eu precisava dedicar para o trabalho do escritório eu tenho que dedicar para a academia", explica.
Para Thays Mossi, exemplos como o de Larissa repercutem diretamente no atual debate da redução da jornada de trabalho.
"A gente está discutindo a questão da escala 6x1. Poder demandar uma redução da jornada de trabalho no cenário do mercado de trabalho hoje chega a ser um privilégio, porque não é um direito acessível a todos ter uma jornada de trabalho fixa. Então, nesse sentido, é quase um privilégio tu poder te organizar e pautar essa questão", avalia.
A professora do Departamento de Sociologia da Ufrgs ainda destaca um elemento relevante no exemplo de Larissa: tratam-se de dois vínculos formais e não de um complemento de renda partindo da informalidade. "E a questão é que um vínculo trabalhista só não sustenta uma vida. Isso é um problema coletivo muito sério, muito importante". Mossi ainda discute a organização pessoal de quem acumula mais de uma ocupação, incluindo tempo de descanso e férias. No caso de Larissa, para dar conta da carga horária conturbada, é comum abdicar, inclusive, do tempo de lazer.
"Por exemplo, semana passada eu estava participando de uma atividade acadêmica que exigia intenso estudo, e durante dez dias, absolutamente todo o 'tempo livre' que eu teria, eu estava trabalhando. Eu não tive domingo, eu não tive nenhuma noite livre, eu acordei mais cedo todas as manhãs, eu não fui na terapia, não fiz aula de flauta, e isso acontece com alguma frequência, porque as minhas duas atividades às vezes têm um período de hiperexigência. Elas sempre me exigem bastante, mas em alguns períodos elas me exigem muito", descreve.
Apesar disso, Larissa pretende seguir com a jornada dupla. Para ela, ser professora constitui a própria identidade, sem mencionar a força transformadora da educação. Ao mesmo tempo, advogar também gera um trabalho socialmente valioso.
"É um campo que precisa muito ser disputado, por mulheres, por pessoas que não sejam das classes sociais hegemônicas".
Não é raro, entretanto, sentir-se seduzida por uma jornada mais "tradicional". "Recorrentemente eu penso em abrir mão dessas minhas convicções para ter um trabalho burocrático, 8 horas por dia, 5 dias na semana, que eu desligue o computador e esqueça da vida, mas eu não sei se eu vou conseguir. Para a saúde mental, cansaço e qualidade de vida talvez fosse melhor assim. Mas eu também vejo no trabalho como algo constituinte da minha identidade, de quem eu sou. Então é difícil imaginar que eu consiga abrir mão de alguns dos dois trabalhos que eu tenho hoje", confessa.
Para a consultora de planos de saúde e fotógrafa, Andréia Schultz, a dupla ocupação gera impactos inclusive na saúde. "Isso me deixa bastante estressada quando estou com muito trabalho. Por isso não quero mais pegar um evento de fotografia grudado no outro, porque já fiz isso e fiquei até doente. É muita coisa. Na consultoria não é só fazer a venda e sumir: a gente segue perguntando, segue acompanhando. Eu dou um prazo de 15 dias para entregar as fotografias, mas as pessoas têm o costume da ansiedade. Eu começo a ficar nervosa e não sobra muito tempo. Já tive situações de deixar de sair porque precisava acabar um trabalho", revela.
O dia a dia de Andréia se intensificou ainda mais nos últimos tempos. A mãe foi internada há poucas semanas e permaneceu 11 dias hospitalizada. Dias depois, foi a própria Andréia, que está em fase final de recuperação de uma cirurgia no ombro, quem precisou ser levada para a emergência por conta de uma pneumonia.
"Fiquei muito mal mesmo. Creio que seja o acúmulo de trabalho, estresse e hospital. Em 11 dias, eu trabalhei, editei fotos, fiquei no hospital, fiz plantão, fiz evento, fiz tudo o que se possa imaginar, com o braço ainda recuperando. Mas vi que o corpo está pedindo calma", reflete.
Autonomia é limitada pelas plataformas, explica professora da Ufrgs
A autonomia é uma das promessas mais cativantes nos novos formatos de trabalho, incluindo as plataformas. Para Thays Mossi, professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) contudo, ela tem limites. O próprio capitalismo passou a exigir autonomia dos trabalhadores na segunda metade do século passado.
"Por um lado, a gente tem toda a flexibilização da produção, do toyotismo, em que o trabalhador vai ter que se aplicar subjetivamente — não é só mais fazer um trabalho braçal, ele vai ter que pensar, se engajar, se importar com aquilo em alguma medida. Só que isso não resolveu a demanda por autonomia que existia. Isso vai se desenvolver mais adiante na questão do empreendedorismo", explica.
A autonomia, de acordo com a professora, foi validada como algo a ser almejado pelos indivíduos, que empreendem, abrem seus negócios. A mesma lógica, no entanto, chega a profissões como motoristas e entregadores de aplicativo.
"Eles pensam: 'eu quero ser meu próprio patrão, quero ter controle sobre meu tempo. Se eu quiser trabalhar, eu trabalho; se não quiser, não trabalho'. Só que o que as pesquisas mostram é que isso na verdade não é uma opção, porque a remuneração é tão baixa que, se você não trabalhar, vai passar fome", analisa.
Isso não significa a falta de realização pessoal em nome da autonomia. Pessoas que trabalham com essas plataformas podem estar satisfeitas. "Mas, ao mesmo tempo representam coletivamente mais uma camada de precarização do trabalho", pondera.
Ainda, embora as plataformas digitais ofereçam atalhos a quem busca uma fonte primária ou secundária de renda, a atual lógica da complementação não parece se diferenciar tanto do tradicional "bico", de décadas passadas.
"O que diferencia é a roupagem ideológica, da lógica do empreendedorismo. Mas de fato não há muita diferença, não me parece ser um fenômeno novo em si. O que é novo é a forma de produzir engajamento a esse formato", pontua.
Não se pode dizer, contudo, que não haja certo ganho de autonomia. Entretanto, a professora destaca pesquisas mostrando que os algoritmos possuem mecanismos para penalizar motoristas, por exemplo, que não se mantêm disponíveis constantemente ou que recusam corridas.
"Há uma autonomia, mas ela ainda é muito limitada e cada vez mais as plataformas encontram maneiras de podar essa autonomia", pondera.
Por fim, Mossi destaca uma diferença entre as ocupações complementares da segunda metade do século passado em comparação ao cenário atual. A criação do Microempreendedor Individual (MEI) possibilitou a formalização para parte dos trabalhadores que antes eram totalmente informais.
"Outra diferença em relação aos anos 1960 e 1970 é que a gente tinha esse fenômeno mais restrito ao trabalho não qualificado. E agora está mais abrangente, vai para o trabalho qualificado também", conclui.
Segundo os dados publicados pelo IBGE em setembro, as motivações para trabalhar por plataformas digitais variam. Para os que as utilizam como trabalho principal, 26,8% citaram a flexibilidade como motivo principal, 24,6% relataram não ter encontrado outro trabalho, enquanto 16,6% citaram a complementação de renda. Quando as plataformas são utilizadas como atividade secundária, no entanto, 87,7% apontaram a complementação de renda como o principal motivo.
*Gabriel Eduardo Bortulini é graduado em Jornalismo pela UFSM e tem mestrado e doutorado em Escrita Criativa pela Pucrs. É um dos fundadores da Oxibá Casa da Escrita, onde trabalha com leitura crítica e lapidação de textos. Tem textos publicados em jornais, livros e revistas. "Refúgio para bisões", seu romance de estreia, conquistou o terceiro lugar no prêmio Biblioteca Digital do Paraná e foi publicado pela Matria Editora, em 2024.
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