ONU vota novamente contra o bloqueio a Cuba em meio a denúncias de pressão dos Estados Unidos
A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) vota nesta quarta-feira (28) uma resolução que pede o fim do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos a Cuba. A sessão está prevista para as 10h, no horário de Nova York (11h em Brasília). O texto, apresentado pelo governo cubano, é submetido à votação desde 1992 e chega à sua 34ª análise em meio ao agravamento das tensões entre Havana e Washington.
A votação ocorre após o governo cubano denunciar uma campanha de pressão dos Estados Unidos sobre delegações estrangeiras. O chanceler de Cuba, Bruno Rodríguez Parrilla, afirmou que seu país possui provas de intimidações contra representantes de diferentes nações para impedir que apoiem a resolução. Ele classificou as ações atribuídas a Washington como “extremas e sem precedentes”.
O resultado deste ano é acompanhado com atenção após a votação de 2025, quando a resolução recebeu 165 votos favoráveis, sete contrários e 12 abstenções. Na ocasião, Estados Unidos e Israel votaram contra, ao lado de Hungria, Argentina, Macedônia do Norte, Paraguai e Ucrânia. O resultado representou uma redução do apoio tradicionalmente amplo recebido por Cuba de países latino-americanos, caribenhos e europeus.
A disputa diplomática acontece em meio ao endurecimento das medidas adotadas pelo governo do presidente Donald Trump contra a ilha. Desde o fim de janeiro, Washington mantém uma política de restrição ao fornecimento de energia a Cuba e ameaça aplicar sanções a países que vendam ou forneçam petróleo ao território cubano.
Em maio, a Casa Branca também ampliou as chamadas sanções secundárias, que podem atingir empresas e entidades estrangeiras que mantenham relações comerciais com o Estado cubano. As medidas ampliam o alcance internacional das restrições norte-americanas e aumentam a pressão sobre governos e companhias que negociam com Havana.
Em julho, a Assembleia Geral já havia rejeitado uma iniciativa dos Estados Unidos e incluído na pauta a denúncia de que o bloqueio contribui para o agravamento da crise humanitária em Cuba. As restrições afetam setores estratégicos da economia da ilha, em especial o fornecimento de energia, a produção agrícola e os serviços públicos.
O primeiro dia de debates, realizado na terça-feira (27), foi marcado por um confronto verbal entre as delegações dos dois países. O embaixador dos Estados Unidos na ONU, Mike Waltz, afirmou que o bloqueio não existe e fez acusações contra o líder revolucionário Fidel Castro, mencionando o envio de grupos da população cubana para campos de concentração.
A delegação cubana contestou as declarações e pediu que o representante norte-americano se concentrasse no tema em discussão. Após uma troca de manifestações com o presidente da Assembleia Geral, Khalilur Rahman, o chanceler Rodríguez dirigiu-se diretamente a Waltz e o acusou de mentir. O episódio evidenciou o clima de tensão que antecede a votação.
Durante os debates, diferentes países defenderam o fim das sanções. Brasil, China, Canadá, Angola, Rússia, Irã, Etiópia e Gabão estiveram entre os que condenaram o bloqueio. Em nome do Movimento dos Países Não Alinhados, que reúne 121 países, o representante de Uganda, Adonia Ayebare, criticou a intensificação das medidas e classificou as sanções como uma forma de punição coletiva.
A representante do Uruguai, Laura Dupuy Lasserre, falou em nome do Grupo dos 77 mais China, coalizão de países em desenvolvimento. Ela afirmou que os impactos diretos e indiretos das restrições são significativos em áreas como energia, saúde e agricultura. Também manifestou preocupação com a aplicação extraterritorial das sanções, especialmente por meio do Título III da Lei Helms-Burton, que permite ações judiciais nos Estados Unidos relacionadas a propriedades confiscadas após a Revolução Cubana.
Segundo a diplomata, a falta de eletricidade e as dificuldades de abastecimento comprometem serviços essenciais, incluindo hospitais, escolas, sistemas de distribuição de água e saneamento, transporte público e produção de alimentos.
Apesar do apoio expressivo que a resolução costuma receber, a votação da Assembleia Geral tem caráter político e diplomático e não revoga, por si só, as medidas norte-americanas. O desfecho desta quarta-feira poderá indicar o nível de apoio internacional à iniciativa cubana em um momento de agravamento das restrições e de disputa entre os dois governos sobre os efeitos do bloqueio.
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