POLÍTICA Flávio Bolsonaro assume viés golpista em carta e acena para tensão internacional Senador se autodeclarou presidente eleito do Brasil
A carta divulgada por Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado à presidência da República, se autoproclamando presidente eleito do Brasil, repercutiu no meio político nesta quarta-feira, 28.
O documento, que passou por alterações após sua repercussão, sendo publicado em uma nova versão, reforça a postura de resistência de Flávio em aceitar o resultado do pleito, como havia sinalizado já no discurso de derrota, no último domingo, 25.
Tudo sobre Política em primeira mão!Na versão inicial da carta, divulgada em primeira mão por Paulo Figueiredo, neto do ex-ditador João Figueiredo, e compartilhada por outros integrantes do núcleo duro do bolsonarismo, Flávio diz ser alvo de perseguição e questiona o resultado das urnas, apontando para uma possível fraude no processo eleitoral, mas sem apresentar provas.
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Um dos principais alvos de Flávio foi Cristiano Zanin, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). O magistrado, ex-advogado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), foi o responsável pela extensão do horário da votação até às 19h, fruto dos problemas logísticos que foram registrados nas principais cidades brasileiras.
Vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos Flávio Bolsonaro em carta
A extensão, no entanto, não alterou o resultado das eleições, já que foram registrados exatos 34,7 mil votos, longe da margem de 4.430.191 votos entre Lula e Flávio.
“A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno”, afirmou Flávio em trecho da carta publicada em sua segunda versão.
Perseguição do STF a Bolsonaro
Flávio Bolsonaro ainda destacou o que disse entender como “perseguição” a ele, fazendo uma comparação ao seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso em regime domiciliar, condenado por tentativa de golpe de Estado.
O ainda senador, com mandato até o final de janeiro de 2027, usou o termo “caça às bruxas” para definir a suposta perseguição do STF ao seu clã.
A Polícia Federal se manifestou nesta quarta, 28, afirmando que Flávio, alvo de investigação, não tem qualquer pedido de prisão contra ele, além de frisar que ele não é considerado foragido.
“Eis o roteiro da perseguição: apreensão de passaporte, tornozeleira eletrônica, censura, prisão domiciliar, julgamento de fachada e, finalmente, condenação política”, acusou Flávio ainda na carta.
Posição de Flávio Bolsonaro abre tensão internacional
A posição de Flávio Bolsonaro também colabora para um cenário de crise internacional envolvendo o Brasil. Apoiador da sua candidatura presidencial, Javier Milei, presidente da Argentina citado na carta, já sinalizou para um não reconhecimento das eleições brasileiras.
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, que recebeu Flávio em solo americano, também tem feito ataques velados ao processo eleitoral brasileiro, considerado um dos mais seguros do mundo, mas sem questionamentos ao resultado.
Colunista do Grupo A TARDE, o cientista político Cláudio André de Souza afirmou que Flávio se autoproclamou presidente para criar uma cenário de tensão em que ele possa ter poder de barganha com o STF.
“Ele está fazendo isso para criar um processo no qual ele consiga chantagear o STF, para gerar um processo de que ele deve aumentar um poder de barganha com o recuo dele”, destacou o cientista político.
Cláudio André de Souza, que também apontou o momento como “a escalada de uma crise”, afirmou considerar a movimentação como “grave”, relembrando os crimes cometidos por Bolsonaro que culminaram na sua condenação.
“Esse discurso de se autoproclamar presidente, ele se alinha aos Estados Unidos, e a gente não sabe como Trump vai agir. O que ele está fazendo é muito grave, é o mesmo crime que o pai dele cometeu e foi para a cadeia. Isso é muito danoso”, analisou.
Até o momento, o Itamaraty não se pronunciou sobre a carta publicada por Flávio Bolsonaro.
Aliados afastam declaração golpista de Flávio Bolsonaro
Na contramão do candidato derrotado, aliados de Flávio Bolsonaro afastaram o discurso de fraude nas urnas e de autoproclamação presidencial.
Visto como o principal nome da direita bolsonarista fora do seio familiar, Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, se pronunciou logo em seguida.
Tarcísio, que foi preterido dentro do bolsonarismo para a disputa presidencial deste ano, afirmou que “é preciso olhar para a frente”, descartando a narrativa de fraude nas urnas.
O caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente Tarcísio de Freitas
Coordenador de campanha de Flávio, o senador potiguar Rogério Marinho (PL) também minimizou a postura adotada pelo candidato derrotado.
“Nem eu nem PL podemos dizer que houve fraude nas eleições”, afirmou o senador.
Indicado por Jair Bolsonaro para o Supremo Tribunal Federal, Kassio Nunes Marques, hoje presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), se manifestou logo em seguida, reforçando a segurança das eleições no Brasil.
“Volto a dizer: não houve nenhuma alteração advinda da decisão judicial. Temos absoluta segurança de todo o processo eleitoral”, afirmou Kassio Nunes Marques ao se manifestar.
Partidos políticos que estiveram com Flávio Bolsonaro no segundo turno, como MDB, PSDB e União Brasil, reafirmaram a confiança no processo eleitoral.
Na análise de Cláudio André de Souza, Flávio tenta mobilizar a parcela radical do eleitor bolsonarista, mantendo o poder sob o grupo.
“Ele está tentando manejar essa força política tentando mobilizar o eleitorado bolsonarista [...] Ele sabendo que Tarcísio, Zema e Caiado não vão dialogar com essa direita radical, ele está chamando para si a responsabilidade de manter uma fatia do voto que recebeu sob o seu poder direto”, analisou.
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