Gazeta do Povo
29/10/2026 05:00

A lição dos ganhadores do Nobel de Economia para o Brasil

Ilustração dos economistas Robert Hall e Michael Woodford, vencedores do Prêmio Nobel de Economia de 2026

Ilustração dos economistas Robert Hall (E) e Michael Woodford, vencedores do Prêmio Nobel de Economia de 2026. (Foto: Niklas Elmehed/Nobel Prize Outreach)

Uma família descobre que terá aumento de salário no próximo ano e começa a planejar a reforma da casa. Outra recebe um bônus inesperado, mas prefere poupá-lo. Por que decisões tão diferentes? A resposta ajuda a entender a contribuição de Robert Hall, que divide com Michael Woodford o Nobel de Economia de 2026.

Desde John Maynard Keynes, sabemos que o consumo tende a crescer quando a renda aumenta. Milton Friedman e Franco Modigliani, também laureados com o Nobel de Economia, mostraram que as famílias consideram não apenas a renda atual, mas os recursos que esperam ter ao longo da vida.

O Nobel reconhece em Hall uma mudança duradoura na forma de entender o consumo: o futuro pesa nas decisões de hoje. Mas, para quem não tem poupança nem crédito, saber que o dinheiro virá não significa poder gastá-lo

Em 1978, Hall deu um passo além. Sob hipóteses específicas, demonstrou que mudanças no consumo não deveriam ser previsíveis com informações já conhecidas. É a hipótese do “passeio aleatório”: em sua versão mais simples, a melhor previsão para o consumo de amanhã é o de hoje. Não porque as pessoas gastem ao acaso, mas porque só notícias inesperadas exigiriam uma revisão de seus planos.

A descoberta mudou o debate sobre política econômica. Uma redução temporária de impostos pode ter efeito diferente de um aumento duradouro da renda. Importam as expectativas e a possibilidade de poupar ou tomar empréstimos.

O Bolsa Família ilustra um limite importante dessa teoria. Uma família pode saber quando receberá o benefício e, ainda assim, precisar esperar o depósito para comprar alimentos. Outra, com reservas ou crédito, consegue antecipar gastos. Pesquisas posteriores a Hall mostraram por que essas restrições financeiras importam.

Para o governo, não basta calcular quanto transferir. É preciso considerar quem recebe, por quanto tempo e em quais condições. Aliviar a pobreza e estimular a atividade são objetivos distintos, que exigem avaliações próprias.

O Nobel reconhece em Hall uma mudança duradoura na forma de entender o consumo: o futuro pesa nas decisões de hoje. Mas, para quem não tem poupança nem crédito, saber que o dinheiro virá não significa poder gastá-lo. É nessa distância entre expectativa e possibilidade que a política econômica precisa prestar atenção.

Giacomo Balbinotto Neto é professor de Economia do PPGE/UFRGS.

📄 Contenido indexado automáticamente. No es de autoría de altabusqueda.com; los derechos pertenecen a su fuente: Gazeta do Povo.
Ver nota original ↗
🤖 Profundizá esta noticia con OIMA (IA)

¿Querés un resumen rápido de esta noticia, hecho por nuestra IA?

Respuestas de OIMA · IA, sobre esta noticia · Abrir OIMA Chat ↗
💬 0

Comentarios

También te puede interesar

Educação do Paraná: resultados do presente, olhar para o futuro
Gazeta do Povo
O Ideb 2025 colocou o Paraná, pela terceira edição consecutiva, na liderança nacional da educação básica. Lei…
Flávio Bolsonaro se declara líder do Brasil e promete comandar oposição dos EUA
Gazeta do Povo
O Café com a Gazeta do Povo vai ao ar das 07h às 10h, no canal da Gazeta do Povo no Youtube.
Flávio se declara “líder do Brasil”. Trump evita comentar declarações de Flávio
Gazeta do Povo
Em carta, Flávio se declara "líder do Brasil". Donald Trump evita comentar as declarações de Flávio. Leia mai…
Como falar de honestidade, coragem e caridade com as crianças e jovens
Gazeta do Povo
Como aproximar crianças de histórias que contribuam para a formação do caráter e para a compreensão de valore…
Parlamentares dos EUA pedem explicações sobre a ida de Flávio Bolsonaro a Miami
Gazeta do Povo
Parlamentares dos EUA cobram explicações de Trump e Marco Rubio sobre a entrada de Flávio Bolsonaro em Miami …
Lula enfrenta pressão do mercado para equilibrar contas no início do novo mandato
Gazeta do Povo
Lula inicia novo mandato sob pressão para reduzir a dívida pública e reformar o Orçamento. Entenda os desafio…