POLÍTICA De 'verdadeiro presidente' a 'líder do Brasil': o que mudou na carta golpista de Flávio Duas primeiras versões da carta foram publicadas pelo blogueiro de extrema direita Paulo Figueiredo e a última, pelo candidato derrotado à Presidência da República
Flávio deixou o país menos de 24 horas depois de afirmar, nas redes sociais, que permaneceria no Brasil para liderar a oposição ao governo (Ricardo Arduengo/AFP)
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou três versões de uma carta golpista nesta quarta-feira, 28, após fugir do Brasil para Miami. As duas primeiras foram publicadas pelo blogueiro de extrema direita Paulo Figueiredo e a última, pelo candidato derrotado à Presidência da República.
O ex-presidenciável se autodeclarou o "verdadeiro presidente eleito do Brasil" nos dois primeiros modelos do pronunciamento, embora não tenha apresentado provas de fraude eleitoral. No terceiro, recuou para a alcunha de "líder do Brasil".
"Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil", escreveu inicialmente.
A primeira versão do manifesto também conta com um brasão escrito "Estados Unidos do Brazil", primeiro nome oficial do País -com grafia em inglês- usado no período republicano, e 15 de novembro de 1889. Tanto o emblema quanto a data remontam à Proclamação da República e ficaram em vigor até 1968, durante a Ditadura Militar.
Figueiredo trocou o brasão para a versão atual no segundo modelo em que se lê "República Federativa do Brasil", quinze minutos depois de distribuir o texto. O próprio Flávio divulgou o modelo até agora, final do documento, em uma publicação no X (ex-Twitter).
"Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o líder do Brasil", corrigiu-se.
Não houve mudanças no restante do conteúdo. Flávio assume o tom golpista ao afirmar, sem provas, que houve "fraude eleitoral" no segundo turno. O discurso dele reflete o do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), pai dele, que já questionou a lisura das urnas em diversas ocasiões.
Numa virada histórica, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reelegeu com 51,78% dos votos válidos no último domingo, 25. Flávio, que havia largado à frente no primeiro turno, conquistou 48,22% do eleitorado. O petista teve 4,4 milhões de votos a mais que o adversário.
O senador já declarou que não reconhece resultado das urnas. A posição dele vai na contramão do próprio partido, do candidato a vice na chapa, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, e do governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), um dos aliados mais próximos.
"Reconhecemos o resultado presidencial, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas entendemos que os questionamentos levantados precisam ser devidamente esclarecidos dentro de um debate político equilibrado e democrático. Seguiremos acompanhando os fatos e buscando respostas com responsabilidade, transparência e respeito às instituições", informou o PL em nota assinada pelo presidente da sigla, Valdemar Costa Neto.
Para Flávio, houve "atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula" ao estender em duas horas o horário de votação. A decisão inédita do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin ocorreu após pedidos das duas chapas.
O presidenciável derrotado disse, novamente sem provas, que a decisão acrescentou 10 milhões de votos a Lula. No entanto, levantamento do Monitor do Debate Político no Meio Digital, da Universidade de São Paulo (USP), aponta que houve 34,7 mil votos após às 17h no segundo turno, até as 19h. O número é menor que os 40 mil registrados em 2022.
"Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno", prosseguiu Flávio, no manifesto.
O herdeiro de Bolsonaro agradeceu os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Argentina, Javier Milei. O republicano permitiu a entrada dele em Miami na manhã desta quarta-feira, 28. Já a fuga ocorreu pelo país vizinho.
"Antes de mais nada, queria agradecer ao presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao Presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher. Essa é uma terra de liberdades e irmãos que comungam dos mesmos valores das boas pessoas do meu país. O Presidente Trump é um grande defensor da liberdade de expressão."
Como mostrou o Estadão, Flávio, a esposa, a dentista Fernanda Bolsonaro, e as filhas deixaram o Brasil de carro via Foz do Iguaçu na terça-feira, 27. A família embarcou num jato particular no Aeroporto Internacional de Cataratas del Iguazu, na Argentina, e desembarcou em Miami, nesta quarta, pouco depois das 10h30, no horário de Brasília.
Flávio usou o passaporte italiano para entrar na Argentina e diplomático para os EUA. A PF já havia cancelado os documentos brasileiros -que, portanto, não poderiam ter sido usados- sete minutos depois do resultado da eleição.
O ministro do STF Alexandre de Moraes, a quem acusou de sequestrar os passaportes, atendeu. Flávio descumpriu a medida cautelar e não é considerado foragido. A ordem consta em um inquérito que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro do senador com o advogado Willer Tomaz.
A corporação encontrou registros de e-mail em que o presidenciável derrotado é citado como operador de uma conta no exterior vinculada ao jurista, o que poderia gerar um risco de fuga para uso de recursos no exterior. De acordo com a PF, Tomaz deixou o Brasil e foi para os Estados Unidos após passar a ser investigado.
Antes de fugir, o senador prometeu "pedir a anulação" do segundo turno no domingo, em entrevista a jornalistas. O discurso mudou para buscar a cassação da chapa de Lula e do vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB), na segunda.
"Não era minha intenção deixar minha pátria, mas eu sei exatamente onde isso vai dar. Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado. A perseguição política que começou com meu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e se espalhou para milhares de outros brasileiros patriotas comuns e até mesmo cidadãos americanos, tem um único objetivo: silenciar qualquer pessoa que não concorde com o regime de exceção instaurado no Brasil, através de uma Suprema Corte aparelhada pela organização criminosa petista."
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