OPINIÃOJuventude, fé, diversidade e transformação social: a missão da pastoral da juventude Ronildo Rodrigues dos Santos Cientista Social Celebrar o Dia Nacional da Juventude (DNJ) é reconhecer que a esperança tem muitos rostos, sotaques e histórias. Não existe uma juventude única, mas juventudes que resistem, sonham e reinventam o mundo todos os dias. São jovens negros, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, LGBTQIAPN+, trabalhadores, estudantes, das periferias e do campo. […]
Ronildo Rodrigues dos Santos
Cientista Social
Celebrar o Dia Nacional da Juventude (DNJ) é reconhecer que a esperança tem muitos rostos, sotaques e histórias. Não existe uma juventude única, mas juventudes que resistem, sonham e reinventam o mundo todos os dias. São jovens negros, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, LGBTQIAPN+, trabalhadores, estudantes, das periferias e do campo. Gente que, apesar das desigualdades, insiste em fazer florescer a vida onde tantas vezes só lhe ofereceram abandono. Afinal, a juventude não é uma promessa distante de futuro: é força política e social que pulsa no presente.
Nesse horizonte, a Pastoral da Juventude (PJ) ocupa um lugar especial. Mais que uma organização eclesial, é uma escola de humanidade, espiritualidade e compromisso social. Inspirada no projeto libertador de Jesus Cristo, ensina que evangelizar também significa enfrentar injustiças, defender direitos e reconhecer a dignidade de cada pessoa. Uma fé que não se deixa tocar pela fome, pelo racismo, pela violência e pela exclusão corre o risco de se tornar apenas discurso.
Quem já pertenceu a um grupo de jovens da PJ sabe que há experiências que o tempo não apaga. É chegar tímido, carregando dúvidas, e encontrar uma família que a vida nos permitiu escolher. É descobrir Deus nas rodas de conversa, nas canções, nos abraços e até nas lágrimas. É perceber que ninguém precisa caminhar sozinho. O grupo de base é esse chão sagrado onde nascem amizades, despertam lideranças e amadurece a consciência de que transformar a realidade é uma tarefa coletiva.
Mas a caminhada também exige entrega. Coordenar um grupo é aprender a cuidar de pessoas, inclusive quando o próprio coração está cansado. Na paróquia ou área missionária, a missão ganha novos contornos: construir pontes, acolher diferenças e manter acesa a chama das comunidades. Na coordenação diocesana, é preciso unir realidades distintas sem esquecer os jovens das periferias e dos lugares mais distantes.
Na representação regional, carregamos muitas vozes, culturas e esperanças. Já na Secretaria Nacional, a responsabilidade ganha a dimensão de um país inteiro. Cada reunião, viagem e decisão representa o compromisso com milhares de jovens que talvez nunca conheceremos, mas cujas histórias também passam a fazer parte da nossa. Em todas essas instâncias, permanece uma lição indispensável: liderança pastoral não é poder, é serviço. Nenhum cargo pode ser maior que a vida que lhe dá sentido.
E há uma missão particularmente bonita: a assessoria. Ser assessor é compreender que o protagonismo precisa florescer nas novas gerações. É orientar sem controlar, partilhar sem impor, acompanhar sem roubar a cena. Poucas alegrias se comparam à de reencontrar aquele jovem que chegou silencioso ao primeiro encontro e vê-lo, anos depois, conduzindo outros jovens pelos caminhos da esperança.
Essa trajetória ganha profundidade na formação integral proposta pela PJ. Sua espiritualidade não se encerra nas celebrações: encontra sentido no compromisso cotidiano com a vida. Pelo método Ver-Julgar-Agir-Rever-Celebrar, aprendemos a olhar criticamente a realidade, iluminá-la pela fé e construir respostas coletivas. Por isso, discutir democracia, participação política, direitos humanos, racismo, diversidade, saúde mental, educação, trabalho e ecologia integral não representa um desvio da evangelização, mas parte essencial dela. Fé e política dialogam quando ambas se colocam a serviço da dignidade humana, sem confundir formação cidadã com submissão partidária.
É preciso reconhecer, ainda, as renúncias que sustentam essa história. Por trás de cada encontro existem noites mal dormidas, finais de semana dedicados, viagens cansativas e pessoas que, mesmo diante das dificuldades, escolheram permanecer. Nem tudo são flores. Há conflitos, despedidas e momentos em que a vontade de desistir bate à porta. Contudo, basta perceber que ajudamos alguém a encontrar sua voz para compreender que nenhum esforço foi em vão.
Talvez a maior beleza da PJ esteja justamente nisso: primeiro somos acolhidos, depois aprendemos a acolher. Um dia recebemos a missão de coordenar; mais adiante, descobrimos a alegria de preparar outros para assumir nosso lugar. As funções mudam, os caminhos se renovam, mas o amor permanece.
Neste Dia Nacional da Juventude, celebrar é também assumir compromissos. Precisamos de uma Igreja que escute as juventudes, respeite sua diversidade e tenha coragem de caminhar ao lado delas, inclusive quando suas perguntas incomodam. Precisamos de uma sociedade que não lhes ofereça apenas discursos, mas direitos, oportunidades e participação nas decisões.
Porque ser Pastoral da Juventude é descobrir que nossa história ganha outro sentido quando ajuda a transformar a história de alguém. E, se há algo que essa caminhada nos ensina, é que a esperança não nasce pronta: ela se organiza, ganha voz, cria raízes e floresce nas mãos de quem não desiste de construir a Civilização do Amor.
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