Nordeste tem menor índice de obesidade do País, segundo levantamento
Pesquisa do A.C.Camargo e da Nexus revela indicadores favoráveis de alimentação e peso no Nordeste e levanta debate sobre hábitos e prevenção de doenças
Por Caynã Marques
Notícia
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Publicado às 06:00, 29/10/2026
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Resumo
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Nordeste lidera em indicadores de alimentação e peso corporal favoráveis no Brasil.
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42% dos nordestinos afirmam nunca consumir ultraprocessados, contra 24% de obesos e 39% com peso normal.
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Especialistas alertam que alimentação e atividade física são dimensões distintas da saúde, influenciadas pelas condições de vida.
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Pesquisa do A.C.Camargo Cancer Center ouviu 2.015 pessoas em todo o país.
O Nordeste apresenta indicadores mais favoráveis de alimentação e peso corporal em comparação com outras regiões do País. Na região, 42% dos entrevistados afirmam nunca consumir alimentos ultraprocessados, enquanto 24% apresentam obesidade e 39% estão na faixa de peso considerada normal.
Apesar desse cenário, especialistas alertam que hábitos alimentares e prática de atividade física são dimensões distintas da saúde e dependem também das condições de vida da população.
Os dados são da pesquisa “O Brasileiro e o Câncer”, realizada pelo A.C.Camargo Cancer Center em parceria com a Nexus. O levantamento ouviu 2.015 pessoas com 16 anos ou mais, em todos os estados brasileiros, entre 25 e 30 de junho de 2026. A pesquisa foi presencial, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
Consumo de alimentos
Além do menor consumo declarado de ultraprocessados, o Nordeste apresenta os melhores índices regionais de consumo de refrigerantes ou sucos artificiais, doces e frituras. Na região, 48% afirmam nunca consumir refrigerantes ou sucos artificiais, 44% nunca comem doces e 38% nunca consomem frituras.
O levantamento também aponta que o Nordeste tem a menor proporção de pessoas com obesidade, de 24%, e o maior percentual de entrevistados na faixa de peso considerada normal, de 39%. A média nacional de pessoas nessa faixa é de 35%.
Para o oncologista Tiago Felismino, do A.C.Camargo Cancer Center, os indicadores precisam ser interpretados separadamente. “A pesquisa mostra que esses dois indicadores são mais favoráveis no Nordeste, mas não permite afirmar que um é consequência do outro”, explica, ao comentar a relação entre o consumo de ultraprocessados e a obesidade.
Segundo o médico, o ganho de peso envolve diferentes fatores e os resultados de uma pesquisa de hábitos não permitem estabelecer relações diretas de causa e efeito.
Alimentação e condições de vida
A alimentação tradicional pode ajudar a compreender parte dos resultados, segundo a professora Luciana Catunda Brito, do Instituto de Educação Física e Esportes da Universidade Federal do Ceará (UFC).
A pesquisadora aponta que preparações culinárias regionais e o consumo de alimentos básicos, como arroz, feijão, milho e tubérculos, fazem parte de um padrão alimentar que pode contribuir para uma dieta de melhor qualidade.
A professora, no entanto, alerta para mudanças nos hábitos de consumo. Estudos sobre a alimentação brasileira identificam crescimento da participação dos ultraprocessados na dieta, inclusive no Nordeste. O menor consumo desses produtos, portanto, não significa necessariamente que todos os grupos alimentares estejam sendo consumidos em quantidades adequadas.
A disponibilidade de alimentos e as condições econômicas também precisam ser consideradas. A dificuldade de acesso a frutas, verduras e outros alimentos in natura pode limitar a qualidade da alimentação, mesmo quando o consumo de produtos industrializados é menor.
Atividade física e saúde
A prática de exercícios é outro fator importante para a prevenção de doenças crônicas. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2019, mostram que 30,1% dos adultos brasileiros atingiam o nível recomendado de atividade física no lazer.
O indicador considera atividades realizadas fora do trabalho ou da escola e não representa especificamente a situação do Nordeste.
Para Luciana Catunda Brito, jornadas de trabalho extensas, deslocamentos demorados e responsabilidades domésticas podem reduzir o tempo disponível para o exercício. Essas barreiras não atingem todos os grupos da mesma maneira, sendo mais intensas entre pessoas de menor renda e mulheres que acumulam atividades profissionais e tarefas de cuidado.
As condições das cidades também influenciam a possibilidade de manter uma rotina ativa. Segundo a professora, problemas como:
- Iluminação;
- Insegurança;
- Calçadas inadequadas;
- Tráfego intenso e;
- Distribuição desigual de espaços públicos de lazer.
podem dificultar caminhadas, deslocamentos de bicicleta e outras práticas corporais.
Exercício na rotina
Aos 74 anos, Ernani Luz mantém uma rotina de exercícios oferecidos gratuitamente pela UFC. A participação nas atividades começou por volta de 2015, quando, já aposentado, procurou uma alternativa para sair da rotina doméstica e movimentar o corpo.
Atualmente, ele participa de aulas de exercícios aeróbicos pela manhã, com duração de uma hora, e de atividades de musculação voltadas a pessoas com 60 anos ou mais em dois dias da semana. Antes de ingressar no projeto, conta que não praticava exercícios regularmente.
“Eu disse: ‘não, vou mexer meu corpo’. Não mexia, não fazia nada de exercício, aí comecei a fazer. Melhorei muito”, relata.
A atividade física também divide espaço com as responsabilidades familiares. Desde 2014, Ernani cuida da esposa, que tem Alzheimer. A rotina exige organização para conciliar os exercícios com os cuidados diários, mas ele considera que manter o corpo em movimento é importante para o envelhecimento.
“Se não gosta, faz qualquer coisa, faz uma caminhada, faz qualquer coisa”, afirma.
Prevenção além do peso
Para Tiago Felismino, a prática de atividade física é importante mesmo para quem não apresenta excesso de peso. Uma pessoa com peso considerado normal pode ter alterações metabólicas, como resistência à insulina, colesterol elevado ou acúmulo de gordura visceral.
O médico lembra que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda aos adultos de 150 a 300 minutos semanais de atividade física moderada, ou de 75 a 150 minutos de atividade intensa, além de exercícios de fortalecimento muscular pelo menos duas vezes por semana.
Segundo ele, a alimentação equilibrada e o exercício físico são medidas complementares na prevenção de doenças crônicas, inclusive alguns tipos de câncer. A promoção desses hábitos, porém, depende tanto das escolhas individuais quanto das condições que permitem à população incorporá-los ao cotidiano.
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