Faixas azuis completam um ano de testes em Fortaleza com futuro a definir
Projeto deveria ter sido instalado em quatro vias da Cidade, mas só chegou à Humberto Monte e à Perimetral. Estimada para julho, análise de resultados da medida ainda não foi concluída
Por Kleber Carvalho
Notícia
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Atualizado às 10:54, 27/10/2026 | Publicado às 06:00, 27/10/2026
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Resumo
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O futuro da Faixa Azul permanece indefinido pela Prefeitura de Fortaleza um ano após o início da instalação do projeto na Capital;
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Apenas duas das quatro avenidas autorizadas pela Secretaria Nacional de Trânsito contam atualmente com o corredor em funcionamento;
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A avaliação oficial dos resultados está atrasada em quatro meses sem posicionamento conclusivo da Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania;
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O alto número de cruzamentos nas avenidas de Fortaleza reduz a utilidade operacional da faixa central para os motociclistas em comparação com São Paulo;
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Pesquisadores alertam para o risco de aumento de velocidade dos motociclistas nos corredores e o consequente crescimento de acidentes graves em interseções.
Um ano após o início da instalação da primeira Faixa Azul de Fortaleza, a Prefeitura da Capital ainda não definiu qual será o futuro do projeto na Cidade.
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O corredor na avenida Humberto Monte, que começou a ser pintado em outubro de 2025 e foi inaugurado no novembro seguinte, segue como um dos poucos existentes do projeto na Terra do Sol e enfrenta indiferença dos motociclistas e motoristas da via.
As faixas surgiram a partir de uma portaria da Secretaria Nacional de Trânsito, que autorizou a Prefeitura de Fortaleza a instalar corredores exclusivos para motocicletas nas avenidas Alberto Craveiro, Humberto Monte, Santos Dumont e Presidente Costa e Silva, popularmente conhecida como Perimetral.
Dessas, apenas as faixas da Humberto Monte e Perimetral estão em funcionamento. A Santos Dummont, por sua vez, seria a segunda a receber o projeto em Fortaleza, ainda em novembro do ano passado, mas está até hoje sem o corredor.
Ao todo, são quatro meses de atraso na avaliação dos resultados apresentados pelas vias que receberam o projeto.
Em entrevista à rádio O POVO CBN em abril deste ano, o prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão (PT), afirmou que a gestão produz relatórios trimestrais sobre números de acidentes, tráfego e velocidade nessas avenidas, e iria definir em junho se o projeto seria expandido ou descontinuado.
Questionada, em julho, sobre os resultados da análise, a Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC) afirmou que não havia concluído a avaliação.
O POVO procurou novamente a AMC neste mês de outubro para saber o andamento da análise e se ainda haverá Faixa Azul na Santos Dumont e na Alberto Craveiro. Em nota, a pasta afirmou que ainda está avaliando a necessidade da medida na Santos Dumont e não mencionou a Alberto Craveiro. Além disso, não houve resposta sobre o andamento da análise dos resultados das avenidas Humberto Monte e Perimetral.
"A Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC) informa que, após a implementação das faixas azuis, não registrou nenhum acidente grave envolovendo motociclistas no trecho contemplado com a intervenção nas avenidas Humberto Monte e Presidente Costa e Silva", conclui o texto enviado pela Autarquia.
O doutor em engenharia de transportes, Flávio Cunto, explica que existem duas formas de avaliar medidas como a faixa azul: ou se avalia em muitas vias e em pouco tempo, ou em poucas avenidas porém com um prazo maior de avaliação.
Como Fortaleza só tem dois dos quatro corredores planejados em funcionamento, o especialista destaca que a avaliação pode levar mais tempo do que o esperado.
"Provavelmente, se Fortaleza fizer agora um estudo adequado, bem técnico, bem científico a respeito, é provável que não encontre diferença. Mas não é porque não tem diferença, é porque ainda o tempo é curto pra gente saber. Entre um e dois anos é que a gente começa a ter condições estatísticas de dizer se o resultado é significativo ou não", explica o também professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Projeto enfrenta dificuldades para se adequar à realidade de motociclistas da Capital
Desde sua concepção, em outubro do ano passado, as faixas são prioritárias para motos. Ou seja, não há obrigatoriedade para que elas andem na faixa, nem restrição de que outros veículos entrem parcialmente no corredor.
O POVO esteve na Humberto Monte na quinta-feira, 22, e encontrou exatamente esse cenário. Como a escolha é do condutor, algumas motos utilizam a faixa e outras não. Os carros, ônibus e caminhões se mantêm fora da faixa, exceto em momentos de trocas de faixas ou curvas.
Quem trafega no local afirma não ter sentido muita diferença, seja para o controle de acidentes, seja para maior celeridade no trânsito.
"Já era uma avenida onde o corredor de passar com as motos era bem favorável, bem tranquilo, então não senti melhoria ou piora. Às vezes, estou andando aí percebo a faixa e ando por cima dela. É uma avenida de três faixas, então você fica entre a da esquerda, meio e da direita, depende do momento. Para quem anda de moto é assim que funciona a cabeça da pessoa", afirma o motociclista Léo Victor Lima, 23, que frequentemente utiliza a Humberto Monte para ir à casa da namorada.
Cunto explica que a experiência da Faixa Azul em Fortaleza é diferente do que foi visto em outras cidades. São Paulo, primeira cidade a implementar o modelo, por exemplo, o utiliza em vias com poucas conversões, como marginais e vias expressas.
Em Fortaleza, a Faixa Azul está em duas avenidas ligadas a outras ruas da cidade, com um grande número de cruzamentos. Nesses casos, ficar ao centro da via é pouco proveitoso para os motociclistas que usam essas vias por poucos quilômetros e em seguida já precisam acessar as faixas da esquerda ou direita para fazer curvas.
"São Paulo tem muitas vias com baixo número de interseções. Isso faz com que uma pessoa que entre naquele corredor, ela deve se manter por vários quarteirões. Quando a gente implementa isso numa rede de transporte com o número de cruzamentos por quilômetro maior, vai ter muita moto querendo entrar no próximo quarteirão e sair daqui a um ou dois. Por uma questão operacional, muitas vezes, o motociclista não acha que vale a pena ir pra faixa", explica o docente.
Por fim, o especialista também destaca um possível aumento nos acidentes graves e letais com motos, como já observado por um estudo feito pela UFC em parceria com a Universidade de São Paulo na capital paulista.
Em uma faixa reta e prioritária, os motociclistas tendem a acelerar mais, fazendo com que o impacto de eventuais batidas, escorregões ou outros sinistros seja mais intenso.
Para Cunto, é esse tipo de dado que precisa ser analisado por Fortaleza com calma e a partir de uma maior amostra de tempo nas avenidas Humberto Monte e Perimetral.
"Houve lugares em São Paulo que o aumento chegou a 70% das motos ultrapassando a velocidade máxima da via. Esse aumento na velocidade fez com que o estudo de São Paulo identificasse um aumento de 100% nos sinistros de alta gravidade nas proximidades das interseções. Entretanto, nos trechos retos e entre cruzamentos, não houve resultado estatisticamente significativo, nem de aumento e nem de redução", conclui.
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