Isso aqui é Brasil…

Em um cenário onde as estatísticas parecem dançar ao compasso das contradições, o estado do Acre e seus vizinhos amazônicos protagonizam um enredo que mistura austeridade, microeconomia e algumas ironias estruturais, dignas de uma crônica clássica: Retratos de um Brasil Profundo: Entre Tesouras, Bombas e Desigualdades. Comecemos pela nobreza da assistência social. Em nome da proteção à primeira idade, a Prefeitura de Rio Branco decidiu, de forma bastante poética, intensificar o combate ao trabalho infantil nos cemitérios da capital durante o feriado de Finados. Uma mobilização louvável e necessária, especialmente considerando que o estado registrou um aumento de 5% no número de crianças e adolescentes (de 5 a 17 anos) submetidos ao trabalho precoce, totalizando 5.642 casos. Contudo, o futuro dessas jovens não deixa de ser, no mínimo, pitoresco. Se essas meninas em situação de vulnerabilidade superarem todas as barreiras, concluírem o ensino superior e entrarem no mercado formal, serão recompensadas com a consagração da “equidade”: um salário médio 37,5% menor do que o de seus pares masculinos com a mesma formação. O mercado acreano é tão singular que até o desemprego é mais inclusivo com elas, garantindo às mulheres uma taxa de desocupação de 7,2%, contra 5,8% entre os homens.
Números preocupantes
No campo do desenvolvimento econômico, a pujante indústria de transformação acreana segue seu modelo intimista. O estado abriga o impressionante contingente de 0,09% dos empregos industriais do país, ostentando uma média estonteante de 11,5 trabalhadores por fábrica. Uma estrutura quase familiar, especialmente quando comparada ao Amazonas, que emprega mais de 50 pessoas por unidade. Talvez a publicação do recente estudo “Fatos da Amazônia 2026”, do Imazon e do projeto Amazônia 2030, lance luz sobre as peculiaridades dessa nossa bioeconomia. Enquanto isso, o vizinho Pará prefere não ser tão modesto, ostentando um Produto Interno Bruto de R$ 74,8 bilhões apenas no segundo trimestre, puxado fortemente por seu setor de serviços.

De lá pra cá…
Para integrar tamanha efervescência regional ao resto do país, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) autorizou uma nova rota de ônibus ligando Brasília a Rio Branco, via Mato Grosso. A viagem promete ser longa, mas será segura — desde que haja combustível de qualidade no tanque. Afinal, em um esforço hercúleo de fiscalização, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) lavrou um formidável total de três autuações na capital acreana ao longo de duas operações em 2026. Pelo menos, um novo acordo de cooperação tributária de dez anos entre a ANP e o Estado promete apertar o cerco, garantindo que os impostos sobre a gasolina jorrem com a mesma fluidez das bombas.
A “Tesoura que Flávio sugeriu à Lula”
Contudo, a notícia de maior impacto vinda da capital federal não chegará de ônibus, mas de tesoura. A União, em sua infinita sabedoria contábil, operou um bloqueio de R$ 2,49 bilhões no orçamento federal de 2026. A austeridade não poupou ninguém: infraestrutura urbana perdeu R$ 595,9 milhões; turismo e integração regional ficaram sem R$ 439,4 milhões; e o programa Caminho da Escola viu evaporarem 73,2% de suas verbas. O levantamento da Confederação Nacional de Municípios não detalha os centavos que foram subtraídos especificamente dos municípios do Acre. Mas não deixa de ser tocante constatar que, na hora de cortar investimentos essenciais para a população, o pacto federativo brasileiro funciona com uma igualdade impecável. Tudo isso que você viu nestas quatro notas é o cardápio que será servido para a comemoração das vitórias de Lula e de Mailza.
“Traíras e covardes”
E por falar em Marcio Bittar, o senador eleito no Acre criticou a postura de políticos eleitos da Direita por reconhecer a eleição de Lula à presidência e garantir apoio na condução de um bom governo entre os estados brasileiros. Curiosamente, a fala veio após a governadora Mailza Assis conceder entrevista ao Bar do Vaz, no ac24horas, quando declarou que, mesmo após apoiar Flávio Bolsonaro, pretende manter uma boa relação com Lula, pois: “não tem como ser contra; ele é o Presidente!”. Bittar chamou políticos com essa postura de: “bando de covardes; traíras; sanguessugas e oportunistas”. Então, tá, senador.
Num vai não, viu!
Tem gente aí que quer ocupar cargos para escapar da Justiça, mas esquece que o foro privilegiado não alcança automaticamente crimes federais ou envolvendo recursos federais. Se toca, pipoqueiro!
Lista da esquerda
Em Cruzeiro do Sul, os empresários de direita fizeram uma lista com os nomes dos empresários e profissionais autônomos de esquerda e pregam o boicote aos locais e nomes. Inacreditável isso em pleno 2026.
Sobre listas
Rapaz, se essa moda bolsonarista de fazer lista com nomes de empresários que votaram no Lula, a fim de induzir um boicote, pegar… não vai sobrar nenhum estabelecimento para comprar nada na capital do Acre.
Danças de Cadeiras e Lealdades
A corrida pela presidência da Câmara Municipal de Rio Branco tem apresentado coreografias curiosas nos últimos dias. Embora o grupo do nobre vereador Bruno Moraes ostente a inabalável certeza de possuir treze votos consolidados, uma pequena e “democrática” dissidência interna já articula um movimento alternativo — digamos, uma readequação de fidelidades — para convergir amigavelmente com os anseios do excelentíssimo prefeito Alysson Bestene. O debate cívico, por assim dizer, segue bastante caloroso.
O Silêncio no Plenário
Enquanto as articulações fervem nos corredores, o plenário goza de uma paz quase franciscana. Há mais de uma semana, nossos dedicados edis não encontram fôlego para concluir uma única sessão. Ora os trabalhos não se iniciam por uma lamentável “escassez de presenças”, ora se encerram precocemente devido à súbita exaustão vocal dos parlamentares, que parecem ter perdido o ímpeto para o discurso. Como o clima nos bastidores beira o insustentável, fica a singela sugestão aos nossos representantes: que resolvam suas divergências táticas nos gabinetes, mas, se possível, lembrem-se de comparecer ao local de trabalho.
A Queima da Largada
Segundo os sempre atentos observadores da vida pública comunitária, a largada antecipada de Bruno Moraes na disputa pela presidência não soou exatamente como música aos ouvidos do Paço Municipal. A história recente sugere que a pressa não costuma ser a melhor aliada da vitória; basta recordar o pleito anterior, quando Samir Bestene saiu na vanguarda, mas viu a taça ser erguida por Joabe Lira. Fica o modesto conselho para que o vereador cultive com mais zelo o diálogo interno, fortalecendo suas bases antes de expor sua candidatura ao relento.

A Virtude da Discrição
Em contrapartida, há quem prefira a inegável elegância do silêncio. Parlamentares de perfil mais reservado — a exemplo de Elzinha, Felipe Tchê e Matheus Paiva — optaram por uma rota menos ruidosa, mantendo diálogos altamente “republicanos” e diretos com o chefe do Executivo. Essa sutil movimentação tem enorme potencial para render frutos saborosos no momento da contagem dos votos. Afinal, enquanto alguns preferem os holofotes, os verdadeiros enxadristas da política sabem que as melhores jogadas costumam ser ensaiadas na agradável e produtiva penumbra da diplomacia.
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