COMPORTAMENTO Como a dor do outro ajuda a superar nossos próprios desafios
A dor do outro pode nos ajudar a superar nossas próprias dificuldades. Na literatura e no cinema, há muitos exemplos de obras que têm essa finalidade: ao vermos personagens em algum tipo de dificuldade, temos a sensação de que é possível superar os obstáculos que surgem em nosso caminho. “Quando paramos para dar ouvidos ao nosso processo de dor, a partir de outras perspectivas, percebemos que não estamos sozinhos”, assinala a mentora de carreiras Leila Said.
“Assistir à dor do outro e se preocupar com ela nos tiram da concentração de que nós somos a única pessoa no planeta que esteja passando por aquela situação. A gente começa a dividir a atenção, até mesmo a preocupação, pois, além de mim, existem outras pessoas que passam por isso, sabe?”, registra. Vidas perfeitas não existem e esse tipo de relato nos ajuda a entender que, ao contrário do que diz o ditado, a grama do vizinho não é mais verde. São todas da mesma cor.
A diferença está em como buscamos as saídas. “A nossa ferida ou fraqueza deixará de ser um peso quando aprendermos com ela. Eu não conheço ninguém que tenha aprendido sem errar. É muito difícil. E quando você aprende com erros, com seus próprios erros principalmente, a gente acaba evoluindo na maneira como, justamente, percebe aquele erro. Este passa a ser, de fato, uma ponte”, analisa Leila.
O erro, de acordo com a mentora, se torna o estopim para um segundo estágio em nossas vidas. “É a facilitação para viver um segundo momento, a nossa própria evolução. Não trabalhar o erro como algo ruim nos possibilita caminhar por uma outra estrada chamada evolução, desenvolvimento, crescimento e aprendizagem”, explica. Por isso, é tão importante entender como outras pessoas processam os seus sentimentos em determinadas situações.
“Aquilo que o fere ou angustia pode ter uma percepção diferente em relação a outras pessoas, inclusive em questões de construção e formação familiar. O que vejo é o seguinte: nós podemos ressignificar os momentos que chamamos de fraqueza ou fragilidade, transformando-os em um momento positivo”, observa. É o que tem levado muitas pessoas a compartilharem as suas experiências de superação em livros e palestras.
Um bom exemplo é o livro “À Procura da Felicidade”, que conta a história real de Chris Gardner, um dos autores da publicação ao lado de Quincy Troupe. Em 1981, Gardner passou quase um ano vivendo em situação de rua em São Francisco, nos Estados Unidos, com seu filho pequeno, enquanto tentava uma vaga de estágio não remunerado em uma corretora de valores. Não só conseguiu, como virou um exemplo na empresa, alcançando potenciais clientes.
Em 2007, o livro virou filme com Will Smith no papel de Gardner, valendo uma indicação ao Oscar para o ator. “A história que cada um de nós tem é a mais valiosa do mundo. Eu explico o porquê. Nenhum de nós tem uma história igual nem parecida. Vivenciamos as dores, as lamentações, os acertos e os sucessos de uma maneira completamente diferente. Tudo isso tem um significado gigantesco. Nós não somos o que somos hoje só por conta dos acertos”, afirma Leila.
“Tudo o que a gente faz tem um grande valor. Pode ser que para você aquilo não signifique tanto porque, de alguma maneira, pode ter sido fácil para você. Mas o fato de essa história ter ajudado alguém num momento em que ela precisava muito, vai ser um divisor de águas para ela. Então, a gente precisa entender qual é a nossa história e validar cada momento, sem querer encontrar um momento fantástico e extraordinário para contar, como se só isso fizesse uma história ter valor”, salienta.
É por isso que Leila tem reforçado, em suas palestras sobre liderança, o quão importante é compartilhar histórias com o seu pessoal. “A gente só conhece uma equipe de fato não pelo desempenho ou pelo currículo, mas pela história que cada um traz. Sempre sugiro aos líderes que façam encontros nos quais as pessoas contem suas histórias. Essas são as mais variadas, com significados mais variados, mas elas inspiram, reconectam e ressignificam muitas vezes a nossa própria história”.
Livro traz relatos de pessoas comuns
Não é preciso recorrer a livros e filmes para conhecer histórias inspiradores. Muitas delas estão bem pertinho da gente. É o que mostra o livro “Vidas que inspiram histórias reais” (Volume 2), organizado pelas jornalistas Flávia Presoti e Luciana Avelino. A publicação reúne 22 relatos de pessoas comuns que enfrentaram vulnerabilidades, superaram crises e transformaram desafios cotidianos em aprendizado.
Desdobramento do podcast “Histórias Reaiss”, o livro da editora Literíssima tem por objetivo inspirar os leitores nas diversas situações da vida. “O que eles têm em comum é inspirar a partir dos recomeços, pelas dificuldades das lutas. Em cada história a gente percebe, em níveis diferentes, coragem e perseverança. Eles tiveram quedas, algumas mais cedo, outras mais tarde, mas se levantaram e tentaram novamente”, destaca Luciana.
Entre os relatos pelos quais Luciana se sentiu mais impactada estão os de três mulheres que passaram por maus-tratos. “Elas sofreram assédio emocional e seguiram em frente, não ficando presas ao que aconteceu. É algo de saltar aos olhos. Como uma pessoa que sofre violência consegue dar a volta por cima, continua a acreditar nas outras e deseja amar novamente? São histórias que servem de exemplo para outras pessoas”, comenta.
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