CINEINSITE Feito Pipa emociona público em Salvador e sonha com vaga no Oscar 2027
O cinema brasileiro encontra na delicadeza de Feito Pipa uma de suas histórias mais sensíveis do ano. Representante do Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional, o longa dirigido por Allan Deberton teve sua pré-estreia em Salvador nesta quarta-feira, 28, com sessões esgotadas no Cine Glauber Rocha e a presença do elenco e da equipe. A produção chega ao circuito nacional em 5 de novembro.
Estrelado por Yuri Gomes, Lázaro Ramos e Teca Pereira, o filme acompanha Gugu, um menino de 11 anos apaixonado por futebol, dança e tudo aquilo que lhe permite experimentar o mundo com liberdade.
Tudo sobre Cineinsite em primeira mão!Criado pela avó Dilma, uma professora aposentada que o acolhe sem julgamentos, ele precisa enfrentar mudanças na família quando a saúde da idosa começa a se deteriorar e surge a possibilidade de morar com o pai, Batista, um homem rígido que tem dificuldade de compreender o filho.
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Em entrevista exclusiva ao Cineinsite A TARDE, os atores e o diretor comentaram a construção dos personagens, a repercussão internacional da obra e as expectativas para a campanha brasileira ao Oscar.
Ambientado no sertão cearense, Feito Pipa encontra força ao olhar para uma infância que não cabe nas expectativas impostas pela sociedade. Gugu é uma criança queer, afeminada, que gosta de dançar, de brilho, de maquiagem e de roupas cintilantes, mas que também tem seus próprios desejos, contradições e sonhos.
O filme não faz de sua identidade uma característica isolada, tampouco transforma a personagem em uma sucessão de tragédias.
É justamente nessa escolha que reside parte de sua beleza. A história permite que o menino exista para além do preconceito que enfrenta, preservando sua alegria, imaginação e espontaneidade mesmo diante de situações difíceis.
Uma história brasileira que encontra identificação além das fronteiras
O sertão nordestino é um território conhecido do cinema brasileiro, frequentemente retratado por narrativas sobre a seca, a pobreza e as dificuldades sociais. Em Feito Pipa, porém, a região aparece também como espaço de afeto, descoberta e liberdade, com nuances que ajudam a construir a identidade da obra.
Para Lázaro Ramos, que interpreta Batista, o respeito na representação desses personagens é um dos elementos que permitem ao longa dialogar com espectadores de diferentes lugares.
“Eu acho que é respeito no olhar. Esse filme trata o Nordeste com o respeito que merece. Ele trata esses personagens, que talvez, em outros filmes, fossem personagens caricatos, daqueles de quem as pessoas iam rir”, afirmou ao Cineinsite A TARDE.

“Mas não. Esse filme trata esses personagens com a grandeza que eles têm e do jeito que merecem ser tratados. Por isso, ele é universal. Por isso, não fica um filme menor. Ele é tão grandioso no coração das pessoas por causa desse respeito. Para o Nordeste, os nossos arquétipos merecem esse respeito”, completou.
A universalidade de Feito Pipa não está em apagar suas particularidades regionais, mas em construir uma narrativa em que sentimentos reconhecíveis atravessam as diferenças culturais. A relação entre pais e filhos, o medo da perda, o desejo de pertencimento e a busca por liberdade são temas que encontram espaço para identificação mesmo entre públicos distantes da realidade apresentada.
O diretor Allan Deberton também acredita que a simplicidade da história contribui para essa aproximação. “Eu acho que Feito Pipa tem essa capacidade, através dos personagens e de uma história muito simples também, de levar o Brasil lá para fora”, disse.
“Algo muito importante é o sentimento. Esse sentimento dos personagens, e a gente consegue se conectar com o espectador. A gente acredita, a gente cria ali relações de carinho, relações de afeto, de cuidado, de preocupação, também questões de aceitação, questões de luta pela liberdade, pela diversidade”, explicou.
“São sentimentos bastante universais que conseguem, através desses personagens incríveis que a gente tem, se conectar muito facilmente com plateias Brasil afora. A gente tem recebido essa acolhida, que é bastante valiosa”, acrescentou.

Yuri Gomes é um dos grandes acertos do filme
A atuação de Yuri Gomes é um dos pontos altos de Feito Pipa. O jovem ator constrói Gugu com naturalidade, vivacidade e vulnerabilidade, sem transformar o personagem em uma figura idealizada. Há personalidade na maneira como ele ocupa a tela, reage aos conflitos e encontra alegria em pequenos momentos, mesmo quando a infância começa a exigir dele responsabilidades difíceis.
A história também amplia o imaginário sobre as infâncias LGBTQIA+, especialmente ao apresentar um menino afeminado vivendo no interior do Nordeste sem fazer de sua presença uma curiosidade da narrativa. Gugu não precisa abandonar seus gostos ou justificar seus desejos para que o público compreenda suas dores e alegrias.

Beatriz Carwile, que interpreta Kelly, amiga de Gugu, destaca que a construção da personagem também contou com a liberdade de interpretação e a troca entre os atores.
“A construção da personagem foi muito bacana porque isso não fazia parte só da roteirização, desse processo. A gente podia se expressar conforme entendia e interpretava mais sobre a personagem. Fomos construindo pouco a pouco”, contou.
“Eles falavam: ‘Sua personagem é isso, sua personagem é aquilo’. E, antes, a gente leu todo o script, explicando vários detalhes. Para a gente, não foi tão solto assim. Isso é mais uma questão de entender e se colocar no papel da personagem”, explicou.
A atriz também encontrou semelhanças entre sua personalidade e a da personagem. “Eu acho também que foi tranquilo porque a Kelly é muito parecida comigo: uma menina muito pé no chão, respeitosa, que respeita a diversidade”, afirmou.
Ao falar sobre a relação de Kelly com Gugu, Beatriz ressaltou a importância da autenticidade do menino diante das barreiras que enfrenta. “Eu acho que, se fosse eu também, gostaria muito de estar com um menino superautêntico, que gosta de mostrar a arte como ele faz, como ele gosta de ser, gosta de falar sobre ele. A autenticidade dele é importante e ele não deixa as barreiras, o preconceito e a homofobia do pai impedirem isso”, disse.
A atriz também destacou a experiência de trabalhar com improvisação, algo que, segundo ela, contribuiu para o resultado do longa. “Em outras experiências que tive no teatro, a gente não tinha tanta improvisação. Mas isso foi o que transformou o filme em algo tão bonito, como eu esperava, principalmente pela atuação do Yuri. Foi maravilhoso”, completou.
Duas gerações do cinema baiano em cena
O encontro entre Lázaro Ramos e Yuri Gomes também dá ao filme uma dimensão especial. Os dois atores baianos representam diferentes gerações de artistas que encontraram na arte um caminho de expressão e formação.
Lázaro, que interpreta Batista, contou que se encantou com Yuri logo no primeiro ensaio, especialmente pela trajetória do jovem ator, que também começou no teatro no Pelourinho.
“Nossa, quando o Yuri chegou, no primeiro dia de ensaio, eu já fiquei encantado. Imagina: uma criança que também começou a fazer teatro no Pelourinho, como eu. Ele, em um projeto do Axé, e eu, no Bando”, lembrou.
“O menino tem um olho vivo, é talentoso. Eu já fiquei apaixonado por ele imediatamente. E ele entrega muito. Olha, essa criança de 12 anos já ganhou três prêmios internacionais de Melhor Ator. Não é pouca coisa o que ele entrega”, afirmou.
Para o ator, o contato com a arte desde cedo pode transformar a vida de uma criança, independentemente de ela decidir seguir carreira artística no futuro. “Eu acho que isso se deve ao fato de ele já ter tido contato com arte e cultura desde cedo. Isso realmente faz diferença na vida das pessoas”, avaliou.
“Se o Yuri quiser ser ator no futuro ou não quiser, tanto faz. Mas eu acho que a arte já trouxe uma coisa muito boa para a vida dele, e as pessoas vão se encantar no filme”, acrescentou.
Yuri também celebrou a oportunidade de dividir a cena com o ator e com Teca Pereira, intérprete de Dilma. “Foi muito legal. Lázaro Ramos é um ator maravilhoso. Nossa, ele e Teca Pereira, que interpreta Dilma, arrasam muito em cena”, disse.
Para Allan Deberton, trabalhar com Lázaro também representa uma conquista pessoal e profissional. “Para mim, só de estar lançando esse filme com um dos maiores atores do Brasil estando presente no meu filme, é um sonho realizado, é uma grande conquista”, afirmou.
“Ele realmente fez toda a diferença com o projeto, tanto na construção do personagem quanto neste momento de lançamento. É um trabalho do Lázaro, que é sempre de muito acolhimento com o filme”, completou.

Sobre Yuri, o diretor destacou a intensidade da atuação e a expectativa de acompanhar seus próximos passos.
“E Yuri, esse acontecimento, esse lugar mesmo, só de tê-lo encontrado, de tê-lo muito intenso no filme, entregando o seu melhor... E esperando que ele esteja presente cada vez mais em outras obras que venham por aí”, disse.
Para o jovem ator, a primeira experiência no cinema também despertou o desejo de continuar aprimorando seu trabalho. “Foi muito legal. Me deixou com muita vontade de ser um ator melhor do que eu sou hoje e de conseguir fluir”, contou.
Um pai rígido, um filho livre e a pedagogia do afeto
Em Feito Pipa, Lázaro Ramos interpreta um personagem que carrega contradições. Batista ama o filho, mas tem dificuldade de acolher suas diferenças. Sua masculinidade rígida se manifesta na maneira como tenta estabelecer expectativas sobre quem Gugu deve ser, criando uma relação atravessada por afeto, ausência e preconceito.
Ao comentar a construção do papel, Lázaro afirmou que desejava trabalhar com personagens que abordassem questões contemporâneas, depois de interpretar diferentes figuras ao longo da carreira.
“Eu acho que já construí vários personagens ao longo da minha vida, personagens carismáticos, engraçados, românticos. E eu estava com muito desejo de fazer personagens que falassem sobre temas atuais”, explicou.
“Em Feito Pipa, você vê que o filme fala sobre Alzheimer, sobre uma criança-guia e sobre esse pai que é rígido com o filho, apesar de amá-lo”, afirmou.
O ator também destacou a abordagem afetiva da narrativa, que trata de questões complexas sem transformar o longa em uma explicação sobre seus próprios temas. “Mas é na pedagogia do afeto, e eu acho isso lindo”, disse.
“O filme não é didático. A gente vai se emocionando com ele e, aí, se sensibiliza com todas essas questões. Acho que essa é a contribuição de Feito Pipa”, completou.
Para Lázaro, embora os assuntos abordados já tenham aparecido em outras produções brasileiras, a maneira como a história é contada pode provocar novas reflexões. “Esses assuntos, na verdade, não são novos no cinema brasileiro. A gente já os tratou várias vezes, em vários outros filmes, mas esse tem um toquezinho de emoção que eu acho que está fazendo com que as pessoas reflitam bastante”, afirmou.
A relação entre Gugu e Batista é um dos conflitos que sustentam o longa, mas o filme também abre espaço para questões que ultrapassam a sexualidade e o preconceito. A infância do protagonista é atravessada pela ausência materna, pelas dificuldades de convivência com o pai e pela possibilidade de perder a avó, sua principal referência de segurança.
É nesse contexto que a narrativa encontra um de seus aspectos mais sensíveis: a experiência de acompanhar situações difíceis pelo olhar de uma criança, que ainda tenta compreender o mundo enquanto precisa lidar com mudanças que não escolheu.
A delicadeza da fotografia e da composição visual
A sensibilidade de Feito Pipa não está apenas nas relações entre os personagens. A composição visual, a fotografia e a trilha sonora ajudam a construir a atmosfera do filme e a transmitir a solidão que Gugu sente ao longo da narrativa.
As paisagens do interior cearense não funcionam apenas como cenário. O sertão participa da construção emocional da história, com seus espaços, suas memórias e as transformações provocadas pelo tempo. A seca e as ruínas de uma cidade submersa também dialogam com as mudanças vividas pelos personagens.
A fotografia, assinada por Luciana Baseggio e Daniel Donato, contribui para esse olhar cuidadoso. Há uma preocupação perceptível em criar imagens delicadas, que acompanham os sentimentos do protagonista sem recorrer a excessos.
A trilha sonora, a música original e as canções escolhidas também são parte importante dessa construção, com destaque para Time After Time, de Cyndi Lauper. Música, dança, canto dos pássaros e os pequenos acontecimentos do cotidiano ajudam a compor a identidade de um filme que encontra beleza na simplicidade.
A direção de Allan Deberton demonstra especial atenção aos gestos e às pausas. Nem toda emoção precisa ser explicada em voz alta, e os silêncios muitas vezes dizem mais do que os diálogos.
Essa escolha ajuda a sustentar a delicadeza do longa, sobretudo quando a narrativa acompanha o vínculo entre Gugu e Dilma. A relação entre os dois é o coração emocional da obra, e a atuação de Teca Pereira dá à avó uma presença afetuosa e marcante.
Dilma representa para o menino um lugar de liberdade, mas também passa a precisar de cuidados à medida que o Alzheimer avança. A troca entre os dois é bonita justamente por carregar uma contradição: o amor que os une não impede que a situação imponha a Gugu responsabilidades grandes demais para sua idade.
A campanha internacional e a expectativa pelo Oscar 2027
A trajetória de Feito Pipa nos festivais ajudou a consolidar a produção como uma das apostas brasileiras para a temporada internacional. O longa estreou mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro, onde conquistou o Urso de Cristal de Melhor Filme, concedido pelo júri jovem, e o Grande Prêmio do Júri Internacional da mostra Generation Kplus.
A produção também foi indicada ao Teddy Awards e conquistou reconhecimento em outros festivais, incluindo premiações no Festival de Cinema de Gramado, além de participações em eventos internacionais.
Em Gramado, o filme recebeu quatro Kikitos: Melhor Direção, para Allan Deberton; Melhor Atriz, para Teca Pereira; Melhor Ator Coadjuvante, para Lázaro Ramos; e Melhor Filme pelo Júri Popular. Yuri Gomes também recebeu uma menção honrosa por sua atuação.
A escolha de Feito Pipa para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027 acrescentou uma nova dimensão à trajetória do longa. A seleção, entretanto, não significa que o filme já esteja entre os indicados à premiação. A produção ainda precisa avançar nas etapas de seleção da Academia de Hollywood para alcançar a lista final da categoria de Melhor Filme Internacional.
A campanha envolve desafios que vão além do reconhecimento artístico. É necessário ampliar o alcance da obra, promover exibições, estabelecer conexões com profissionais do setor e conquistar a atenção de votantes e espectadores em diferentes mercados.
Allan Deberton reconhece as dificuldades, mas afirma que a equipe tem buscado aproximar o filme do público. “A gente tem a torcida nacional, a gente reconhece isso. A gente sabe dos desafios, mas vai fazendo o nosso melhor, que é se conectar com o público, apresentar o filme para muitas pessoas, participar de debates e trocar ideias”, afirmou.
“No final das contas, se trata de ter um bom resultado e fazer esse serviço com uma infinidade de pessoas, em diversos lugares. Isso é muito especial”, acrescentou.
Beatriz Carwile também demonstrou otimismo em relação à possibilidade de o longa avançar na disputa. “Eu acompanho o Oscar faz dois anos. Mas, pelos filmes que eu vejo, acho que a gente vai conseguir, porque eles enquadram um tipo de filme que passa uma imagem, uma solução, né?”, comentou.
Ao falar sobre a trajetória de Gugu, a atriz destacou que o filme não se limita à relação do menino com a dança. “É um filme essencial e não aborda só o menino que dança. Ele aborda o menino que dança, que tem sua avó, que não possui um vínculo afetivo materno, porque ele perdeu. Então, é uma trajetória inteira”, disse.
“E eu acho que o Oscar é bem possível, já que a gente já ganhou dois prêmios na Alemanha. Então, a expectativa é bem alta para o Oscar”, completou.
A disputa internacional reúne produções de diferentes cinematografias e trajetórias, o que torna difícil antecipar o resultado. A presença de Feito Pipa na corrida já representa uma oportunidade de ampliar a circulação de uma história brasileira que encontra na identidade regional uma de suas principais forças.
Yuri Gomes também falou sobre a dimensão da responsabilidade de representar o país. “É uma ansiedade e uma responsabilidade também, porque a gente vai estar representando o Brasil, se Deus quiser. É muito intenso, mas a gente vai conseguir”, afirmou.
Descentralização e espaço para o cinema brasileiro
Além da campanha internacional, Feito Pipa também coloca em evidência uma discussão importante para o audiovisual nacional: a necessidade de garantir oportunidades de produção e circulação para filmes realizados fora dos grandes centros.
Allan Deberton defende que o cinema brasileiro precisa preservar a diversidade regional, tanto na formação de novos profissionais quanto na distribuição das obras.“Precisamos manter a capacidade de os brasileiros terem a chance de fazer cinema nas diversas regiões do Brasil. É muito importante combater as políticas de centralização”, afirmou.
“É importante também que a gente consiga revelar novos talentos, talentos de direção, de criação, porque são esses talentos que vão estar ali continuando a jornada da produção do cinema nacional”, acrescentou.
O diretor também chamou atenção para a programação das salas de cinema, que muitas vezes privilegia os mesmos títulos. “Muitas salas, muitas vezes, só programam os mesmos filmes. Precisamos ter um espaço para poder colocar o cinema brasileiro dentro dessa programação”, disse.
Para ele, a trajetória do longa pode ajudar a fortalecer esse movimento. “E a sorte que a gente tem com Feito Pipa é que ele está ajudando esse movimento desses universos. Estamos fazendo uma carreira em festivais bastante interessante e estamos fazendo o lançamento nacional agora, um lançamento animado, um encontro com o público que quer conhecer Feito Pipa. A gente está muito feliz com essa corrida e com esse momento”, afirmou.
A realização da pré-estreia em Salvador também ganha relevância nesse cenário. A presença de Lázaro Ramos e Yuri Gomes, artistas soteropolitanos, em uma produção que nasce de uma realidade nordestina reforça a importância de ampliar a visibilidade de profissionais e histórias da região.
Uma história que merece ser vista
Mesmo com questões narrativas que poderiam ser mais desenvolvidas, Feito Pipa encontra beleza na simplicidade e na maneira como acompanha uma criança em meio a transformações que ultrapassam sua capacidade de compreensão. Uma duração maior poderia favorecer o aprofundamento dos conflitos e das relações entre os personagens, dando mais espaço a questões que o filme apenas sugere.
A obra aborda o preconceito, a velhice, a memória, os afetos e a sexualidade sem reduzir seus personagens a uma única característica. Gugu não é apenas um menino que enfrenta a homofobia, assim como Dilma não é apenas uma idosa com Alzheimer e Batista não se resume à rigidez de suas atitudes.
O longa também toca, com sutileza, nos afetos e na sexualidade na terceira idade, ampliando o olhar sobre experiências que nem sempre encontram espaço no cinema. Ao mesmo tempo, preserva a infância como um território de descobertas, no qual a alegria e a imaginação não deveriam precisar disputar espaço com o medo e a repressão.
A força de Feito Pipa está, sobretudo, na maneira como permite ao público acompanhar situações difíceis pelo olhar de uma criança. É uma perspectiva que merece mais espaço no cinema contemporâneo brasileiro.
A atuação de Yuri Gomes é um dos motivos pelos quais o longa permanece na memória. O jovem ator tem presença de protagonista e conduz a história com uma naturalidade que faz Gugu parecer alguém que existe para além da tela. Seu desempenho também reforça a torcida por um reconhecimento ainda maior, inclusive em premiações internacionais.
A delicadeza da fotografia e da composição visual contribui para essa experiência. O filme demonstra preocupação em construir uma atmosfera que traduza os sentimentos do menino, especialmente sua solidão, sem transformar cada momento em um apelo emocional.
A trajetória no Oscar pode abrir novas portas para o filme, mas sua importância não depende exclusivamente de uma indicação. Os prêmios, a circulação internacional e a chegada às salas brasileiras são conquistas relevantes, mas existe algo que permanece para além das estatuetas.
Feito Pipa lembra que contar histórias brasileiras também é uma forma de ampliar o horizonte do mundo. Quando o cinema dá espaço para personagens como Gugu, o mais importante talvez seja permitir que eles voem sem que alguém tente puxar a linha de volta.
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