Diário do Rio de Janeiro
29/10/2026 09:30

Cadê a primavera? Entenda por que o Rio vive tantos dias de chuva e quando o calor deve voltar

Mesmo sem previsão de chuva forte durante o dia, o tempo permanece instável - Foto: Reprodução/ Helicóptero 93FM - Mesmo sem previsão de chuva forte durante o dia, o tempo permanece instável - Foto: Reprodução/ Helicóptero 93FM

Cadê o sol, o calor e os dias de praia? A primavera chegou ao Rio de Janeiro, mas, para muitos cariocas, a estação ainda não deu as caras. Desde setembro, a cidade enfrenta uma sucessão de dias chuvosos, céu encoberto e temperaturas mais amenas, em um cenário bem diferente daquele associado à estação que antecede o verão. O comportamento do tempo, no entanto, não é por acaso: uma combinação de fenômenos atmosféricos ajuda a explicar a instabilidade que tem marcado as últimas semanas.

Em entrevista exclusiva ao DIÁRIO DO RIO, o Dr. Raidel Báez Prieto, especialista em riscos climáticos, explicou que a passagem frequente de frentes frias, associada ao transporte de umidade e à influência do El Niño, está entre os principais fatores por trás desse cenário. Apesar do volume excepcional de chuva registrado neste ano, a perspectiva é de uma mudança gradual nas condições meteorológicas, com temperaturas mais elevadas e possibilidade de períodos mais ensolarados em novembro.

Os números ajudam a dimensionar a situação. Segundo o Sistema Alerta Rio, da Prefeitura do Rio, setembro de 2026 se tornou o mais chuvoso da série histórica iniciada em 1997. O recorde foi alcançado antes mesmo do fim do mês: até o dia 23 de setembro, a capital já havia acumulado 171,9 milímetros de chuva, contra uma média histórica mensal de 71,1 milímetros.

Na ocasião, a cidade também contabilizava 19 dias consecutivos com registro de chuva, um reflexo da persistência dos sistemas meteorológicos sobre a região. A instabilidade continuou presente em outubro, prolongando a sensação de que a primavera ainda não começou de verdade.

Clima instável e tempo nublado no Rio de Janeiro
Clima instável e tempo nublado no Rio de Janeiro - Reprodução

Por que a primavera está tão chuvosa no Rio?

Embora seja comum associar a primavera ao aumento das temperaturas, a estação também marca uma transição entre o período mais seco do inverno e os meses mais úmidos do verão. Neste ano, porém, a frequência das chuvas chamou atenção.

Segundo Raidel, a explicação envolve a atuação de diferentes sistemas meteorológicos sobre o Sudeste. A passagem de frentes frias, algumas delas permanecendo por mais tempo sobre determinadas regiões, favorece a formação de nuvens e a ocorrência de precipitações.

O especialista destaca que o transporte de umidade nas camadas mais baixas da atmosfera também contribui para manter o céu encoberto. Com menos incidência de radiação solar ao longo do dia, as temperaturas encontram dificuldade para subir.

“A passagem frequente de frentes frias, algumas delas ficando semiestacionárias entre o Sudeste e o Centro-Oeste, somada ao transporte de umidade em baixos níveis da atmosfera. Isso mantém a cidade sob nebulosidade persistente e chuva recorrente, o que reduz o aquecimento durante o dia”, explicou o especialista.

A análise está alinhada com o cenário apresentado pela Climatempo para outubro. Em sua previsão climática mensal, a empresa apontou a influência de frentes frias sobre o Sudeste e a possibilidade de precipitações acima da média em diferentes áreas da região, incluindo o Rio de Janeiro.

Pedestre se protege da chuva no Rio.
Pedestre se protege da chuva no Rio. - Foto: Reprodução

Setembro bateu recorde histórico de chuva

O comportamento registrado em setembro ajuda a entender por que a primavera de 2026 tem chamado tanta atenção.

Até o dia 23 de setembro, o acumulado médio de chuva no município já ultrapassava o dobro do esperado para todo o mês. O recorde anterior da série histórica do Alerta Rio, de aproximadamente 158 milímetros, foi superado uma semana antes do encerramento de setembro.

Para o especialista, a intensidade das precipitações está relacionada à combinação de fatores que atuaram simultaneamente na atmosfera, como as sucessivas frentes frias, a disponibilidade de umidade e a atuação de ondas atmosféricas capazes de favorecer áreas de instabilidade.

Outro elemento importante é o El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, com efeitos sobre os padrões de circulação atmosférica, chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.

De acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), a temperatura da superfície do mar na região conhecida como Niño 3.4 apresentou uma anomalia de 2,1°C em setembro, evidenciando o fortalecimento do fenômeno.

Apesar de outros anos também terem apresentado setembros bastante chuvosos, Raidel destaca que a persistência das precipitações torna 2026 especialmente relevante para a análise meteorológica.

O especialista também chama atenção para a variabilidade do clima carioca. Enquanto fevereiro de 2025 foi o mais seco da série histórica do Alerta Rio, o mesmo mês de 2026 registrou o maior volume de chuva. A diferença ilustra como os padrões meteorológicos podem variar intensamente de um ano para outro.

As mudanças climáticas estão deixando a primavera mais chuvosa?

Diante da sequência de episódios extremos, uma dúvida surge: o excesso de chuva no Rio pode estar relacionado às mudanças climáticas?

Segundo o especialista, ainda não é possível estabelecer uma ligação direta entre a instabilidade desta primavera e o aquecimento global. Isso porque não há, até o momento, um estudo específico de atribuição que determine em que medida as mudanças climáticas influenciaram esse episódio.

O contexto global, porém, merece atenção. Dados do serviço europeu Copernicus mostram que agosto de 2026 foi o agosto mais quente já registrado no planeta, com temperatura média 1,65°C acima dos níveis pré-industriais.

Em uma atmosfera mais quente, a capacidade de retenção de vapor d'água aumenta, o que pode favorecer chuvas intensas quando há condições meteorológicas adequadas. Isso, contudo, não significa que todo período chuvoso seja provocado diretamente pelas mudanças climáticas.

Para Raidel, também seria precipitado afirmar que as primaveras do Rio estão se tornando progressivamente mais úmidas. Uma conclusão desse tipo dependeria de estudos de longo prazo, capazes de distinguir tendências climáticas de oscilações naturais.

Quando o sol e o calor vão voltar ao Rio?

Para quem sente falta do calor, as projeções para novembro indicam uma mudança no padrão observado nas últimas semanas.

A previsão climática divulgada pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) nesta quarta-feira (28/10) aponta que o estado do Rio de Janeiro deve registrar chuvas abaixo da média climatológica durante novembro. As temperaturas, por outro lado, tendem a ficar acima do normal.

No Sudeste, os desvios positivos podem chegar a 2°C em determinadas áreas, especialmente no norte fluminense. Em outras regiões, a elevação prevista pode alcançar 1,5°C em relação às médias históricas.

Na avaliação de Raidel, a tendência é de uma maior presença do sol e de temperaturas mais elevadas, com possibilidade de episódios de calor intenso conforme a primavera avança.

Rio de Janeiro em dia de sol
Rio de Janeiro em dia de sol - Foto: Reprodução

Isso não significa, entretanto, que os dias chuvosos chegarão ao fim. Pancadas de chuva, temporais isolados e mudanças rápidas nas condições do tempo continuam sendo possíveis, especialmente com o aumento das temperaturas e da umidade.

A previsão mensal também não permite determinar exatamente em quais dias haverá sol ou chuva. O cenário indica uma tendência para o conjunto do mês, e não a ausência de precipitações.

E o verão? A chuva vai continuar?

O comportamento incomum da primavera não significa necessariamente que o verão seguirá o mesmo caminho. Segundo Raidel, as condições observadas entre setembro e outubro não são suficientes para definir como será a estação mais quente do ano.

Um dos fatores que devem continuar influenciando o clima é o El Niño, que permanece em fortalecimento no Oceano Pacífico.

No boletim divulgado em 8 de outubro, a NOAA apontou probabilidade superior a 83% de que o fenômeno mantenha intensidade forte ou muito forte até o trimestre de janeiro a março de 2027.

A combinação de temperaturas elevadas, umidade atmosférica e sistemas meteorológicos típicos do verão poderá favorecer episódios de chuva intensa em curtos intervalos de tempo.

Para os cariocas, a perspectiva é de que o calor ganhe força nos próximos meses, mas sem eliminar o risco de temporais. O especialista ressalta que as projeções climáticas precisam ser acompanhadas continuamente, já que podem sofrer alterações conforme novas informações são incorporadas aos modelos.

Assim, embora a primavera de 2026 tenha começado com muito mais chuva do que sol, os próximos meses podem trazer um cenário mais próximo daquele que os cariocas costumam associar à chegada do verão: temperaturas elevadas, dias abafados e a possibilidade de pancadas de chuva no fim do dia.

Ana Clara Silva

Carioca, jornalista e flamenguista. Nessa ordem (às vezes não).

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