Diário do Rio de Janeiro
29/10/2026 09:30

Os teatros que o Centro do Rio perdeu — e as histórias que habitaram seus palcos

Reconstituição digital em estilo fotográfico do interior do Teatro Imperial Dom Pedro II, posteriormente Teatro Lírico, baseada na pintura de V. Del Bosco pertencente ao acervo do DIÁRIO DO RIO proveniente do antigo Paço de São Cristóvão. A cena representa uma solenidade em 9 de janeiro de 1888. - Reprodução

Na Praça Tiradentes, o Teatro João Caetano e o Teatro Carlos Gomes ainda permitem reconhecer uma das antigas vocações do Centro: reunir gente quando terminava o expediente das lojas e repartições. Mas o que sobrevive é apenas parte de uma geografia muito mais extensa. Pelas ruas próximas, em terrenos hoje ocupados por edifícios, estabelecimentos comerciais e vias abertas pelas reformas urbanas, funcionaram teatros de dimensões, públicos e ambições diferentes. Havia dramas, comédias, óperas, operetas, revistas, números de circo e bailes. A cidade tinha motivos para sair de casa, atravessar ruas mal iluminadas e permanecer acordada.

Em março de 1950, José Heitgen procurou recuperar esse mapa na revista Vida Doméstica. Sua reportagem “Teatros antigos”, publicada nas páginas 28 e 29 e concluída mais adiante na edição, percorria casas desaparecidas, mudanças de nome, artistas e episódios que já se afastavam da memória dos cariocas. O texto começava na atual Rua dos Andradas, passava pelo antigo Largo do Paço, alcançava a Praça Tiradentes, entrava pela Rua do Teatro e pela Rua do Lavradio, seguia até o Campo de Santana e voltava aos caminhos da cidade velha.

O passeio merece ser retomado. Algumas construções que Heitgen ainda conheceu foram demolidas depois de sua reportagem. Outras sobreviveram mediante reconstruções e adaptações. Uma delas, desaparecida fisicamente desde os anos 1930, conserva uma noite de sua vida imperial em uma pintura pertencente ao acervo do DIÁRIO DO RIO.

Um padre no palco da Rua do Fogo

Heitgen iniciava seu percurso lembrando que a Rua dos Andradas tivera os nomes de Rua da Pedreira e Rua do Fogo. Nas proximidades do antigo Largo do Capim, também conhecido como Largo da Forca e absorvido pela abertura da Avenida Presidente Vargas, existira, em meados do século XVIII, uma Casa da Ópera.

Segundo o cronista, seu fundador fora um padre chamado Ventura, cuja aparência e desenvoltura teriam surpreendido um viajante inglês. Era um homem de pele parda, corcunda, diretor do teatro e regente da orquestra, que ainda subia ao palco para cantar modinhas e tocar violão. A vida teatral carioca começava, naquela narrativa, com um personagem que acumulava funções e parecia pouco disposto a permanecer apenas nos bastidores.

O repertório incluía títulos como Os encantos de Medeia, As guerras do Alecrim e da Manjerona, O labirinto de Creta e O precipício de Faetonte. Heitgen advertia o leitor de que não se tratava ainda do mundo de Carmen, O barbeiro de Sevilha, O trovador ou Tannhäuser, obras de outro tempo.

A última apresentação da casa, relatava, teria sido Os encantos de Medeia. Perto do fim do espetáculo, o calor tornou-se insuportável e o edifício de madeira foi tomado pelas chamas. A assistência procurou as saídas enquanto o madeiramento estalava e as paredes cediam. O cronista também se detinha nos recursos de cena: a rapidez das mudanças de cenário e do movimento do pano de boca impressionava os espectadores.

Heitgen associava o nome Rua do Fogo a esse incêndio. A explicação deve permanecer como atribuição ao autor: em seu texto posterior sobre a Ilha Seca, publicado em 1951, ele próprio apresentou outra leitura, afirmando que a denominação era anterior à Ópera dos Vivos. A diferença mostra como o passeio precisa conservar o encanto do relato e, ao mesmo tempo, reconhecer as dúvidas e revisões da pesquisa histórica.

Lanternas para voltar do espetáculo

A próxima Casa da Ópera aparecia no governo do Marquês do Lavradio, perto da residência dos vice-reis, no antigo Largo do Paço, atual Praça XV. Heitgen dizia que o casarão ainda existira, muito arruinado, por volta de 1890. Antes de desaparecer, servira à Casa Imperial e, no período de Dom João VI, à moradia de sua criadagem.

O responsável pelo teatro fora Manoel Luís, protegido do vice-rei. Segundo a tradição reproduzida pelo cronista, a casa era frequentada pela sociedade carioca e teria recebido Tiradentes quando ele esteve no Rio antes da conspiração mineira.

A descrição interna incluía plateia cercada por duas ordens de camarotes, tribuna do vice-rei com cortinas de damasco e armas da Casa de Bragança, além de lustres de cristal e arandelas. O cuidado com o interior contrastava com o caminho de volta.

Recorrendo a José Vieira Fazenda, Heitgen lembrava que os espetáculos começavam e terminavam cedo e que os frequentadores levavam lanternas para iluminar as ruas. Os lampiões alimentados com azeite de peixe pertenceriam a uma etapa posterior. Ir ao teatro exigia pensar também no trajeto entre a porta da sala e a porta de casa.

O cronista acrescentava uma descrição pouco cerimoniosa de Manoel Luís: homem de grandes proporções e abdome avantajado, procurava dar graça aos movimentos andando em passo de dança. O resultado, na avaliação reproduzida pelo texto, acabava provocando o ridículo. Esses pequenos retratos retiram os antigos teatros da solenidade dos nomes e devolvem a eles pessoas, gestos e costumes.

O teatro que mudou de nome com o país

Na Praça Tiradentes, esquina com a Avenida Passos, Heitgen recordava o antigo Teatro São Pedro, demolido pouco mais de vinte anos antes de sua reportagem. Ali se estabelecera o Real Teatro de São João, inaugurado em 13 de outubro de 1813, conforme a documentação institucional — data que corrige a indicação de fevereiro apresentada na revista.

A sequência de nomes acompanhou as mudanças políticas do Brasil. São João, São Pedro de Alcântara, Constitucional Fluminense e, finalmente, João Caetano: a história da sala atravessou a Corte portuguesa, o Império, as disputas da Regência e a República.

Heitgen registrava dois incêndios, em 9 de agosto de 1851 e 26 de janeiro de 1856, e a reconstrução promovida por João Caetano, cuja companhia ocupava o teatro quando ocorreu o segundo sinistro. A imagem de uma casa que sucessivamente se perdia e voltava a abrir ajuda a compreender a permanência daquele endereço.

Isso não significa que o edifício atual seja o mesmo de 1813. O antigo São Pedro foi demolido no fim dos anos 1920, e o novo João Caetano abriu em 1930 com Rose-Marie, uma opereta apresentada por companhia francesa. A instituição conservou sua trajetória; a arquitetura foi substituída. 

Heitgen preferia a construção anterior, cuja fachada lhe lembrava um teatro de Lisboa. Sua opinião registra uma perda percebida por quem conhecera outra paisagem da praça. Dentro do João Caetano, porém, uma nova camada artística se formou, incluindo os painéis de Di Cavalcanti. O teatro que sobrevive é feito também dessas transformações. 

A Rua do Teatro e o mundo de Machado

Nas cercanias, o cronista lembrava um pequeno Teatro do Plácido, que teria funcionado por menos de dois anos e sido fechado por ordem de Dom Pedro I, no terreno depois ocupado pelo Derby Club e pelo Centro Paulista.

Na Rua do Teatro, investigava a origem do próprio nome do logradouro. Não sabia se a homenagem se referia ao São Pedro de Alcântara ou ao Teatro São Francisco de Paula, construído em 1838 por Jean Victor Chabry. Inclinava-se à segunda hipótese.

Segundo sua narrativa, João Caetano trabalhou nessa casa e promoveu reformas em 1846, pois a construção, apesar de recente, ameaçava ruir. O endereço passou depois a abrigar o Ginásio Dramático e, posteriormente, o Teatro São Luiz. Em 1950, Heitgen já encontrava estabelecimentos comerciais nos terrenos, tanto pelo lado da Rua do Teatro quanto pelo da antiga Rua do Cano, atual Sete de Setembro.

É nesse ponto que o passeio encontra Machado de Assis. O jovem escritor acompanhou a vida teatral e o trabalho dos atores, discutiu repertórios e defendeu a formação de uma dramaturgia brasileira. Suas críticas permitem acrescentar aos edifícios descritos por Heitgen a experiência de quem se sentava diante do palco e avaliava o que acontecia nele.

O Ginásio recebeu a estreia de Verso e reverso, de José de Alencar, em 28 de outubro de 1857, e de Mãe, em 24 de março de 1860. A segunda peça levou ao palco um drama ligado à escravidão. O endereço hoje percorrido por quem atravessa o Centro foi, portanto, um lugar de criação literária e discussão sobre a sociedade brasileira. 

O Lavradio também tinha seus palcos

Ao entrar pela Rua do Lavradio, Heitgen parava diante do edifício do Grande Oriente. Registrava a informação de que artistas portugueses haviam planejado erguer um teatro naquele terreno e levantava a hipótese de que parte das fundações ou da construção iniciada tivesse sido aproveitada pelo templo maçônico. Era uma conjectura do cronista, que observava semelhanças e procurava reconstruir o que existira antes.

Na mesma rua, lembrava o Politeama Fluminense, inicialmente destinado a apresentações circenses e depois adaptado para teatro. Durante sua fase de circo, uma trapezista inglesa teria morrido ao cair de grande altura.

O Apolo, onde se apresentara Sarah Bernhardt, surgia associado à posterior doação do terreno à Prefeitura para a construção da escola que recebeu o nome do doador, Celestino Silva. Já o Éden Lavradio, de existência mais breve, tivera o prédio adquirido pelo município para instalar dependências administrativas.

A reportagem mencionava ainda um pequeno teatro na Rua dos Arcos, cujo nome o autor desconhecia. Teria durado pouco mais de dez anos e consistia em um palco com toldo e cadeiras dispostas como plateia. O mundo teatral incluía tanto salas ornamentadas quanto estruturas modestas, capazes de reunir público com recursos muito menores.

Operetas, revistas e a praça depois das oito

Páginas da reportagem “Teatros antigos”, de José Heitgen, publicada na revista Vida Doméstica em março de 1950, reunidas em composição horizontal com restauração e colorização digital interpretativa.
Páginas da reportagem “Teatros antigos”, de José Heitgen, publicada na revista Vida Doméstica em março de 1950, reunidas em composição horizontal com restauração e colorização digital interpretativa. - Reprodução

Perto da Praça Tiradentes, Heitgen recuperava o Cassino, depois Santana e Carlos Gomes; o Recreio Dramático; o Lucinda, também chamado Novidades; e o São José, cujo nome inicial fora Príncipe Imperial e que ele registrava ter sido destruído por um incêndio em 1931.

A diversidade dos nomes correspondia também à variedade das atrações. A opereta, muito presente na vida teatral carioca, combinava geralmente diálogos falados, canto e dança, com histórias cômicas, satíricas ou amorosas. Era uma forma de teatro musical situada entre a ópera e o musical. Jacques Offenbach foi um de seus grandes nomes internacionais. 

Ela convivia com revistas, burletas, mágicas, comédias e outros gêneros. A revista, por sua vez, organizava quadros e números frequentemente relacionados à atualidade. As salas podiam construir uma reputação em determinado repertório sem serem exclusivas dele.

Em O Rio de Janeiro do meu tempo, Luiz Edmundo descreve a Praça Tiradentes se agitando à noite, à medida que o público entrava nos teatros. Seu relato permite imaginar o que o inventário de Heitgen deixa entrever: calçadas movimentadas, encontros, conversas e uma economia noturna sustentada pela expectativa do espetáculo.

A perda desse circuito não pode ser explicada apenas pela mudança do gosto. O Recreio, que se tornou um grande reduto do teatro de revista, desapareceu em um processo ligado à desapropriação e à urbanização do Morro de Santo Antônio, com uma ligação viária em direção à Avenida Chile. A história de suas plateias terminou também por uma decisão sobre o desenho da cidade. 

Outras casas tiveram destinos diferentes. O Fênix Dramática, na Rua da Ajuda, foi demolido durante as obras da Avenida Central, em 1904. Seu sucessor, na região da atual Avenida Almirante Barroso, alternou usos e foi destruído nos anos 1950. Não houve uma única causa para o desaparecimento dos teatros, nem uma arquitetura de opereta que necessariamente os tornasse inúteis. 

Um provisório de 23 anos

Na Praça da República, Heitgen recordava o Tívoli, também conhecido como Paraíso e Pavilhão Fluminense. Aberto em 1847 como teatro infantil, ficava na esquina da Rua dos Inválidos e era construído em madeira.

Os títulos das peças lhe chamavam atenção por explicar o assunto ao público: Artur ou 16 anos depois, Os dois ou o inglês maquinista e Cosimo ou o príncipe caçador. O nome do espetáculo já oferecia uma pequena apresentação do drama.

O Teatro Provisório, também no Campo de Santana, fornecia outra ironia. Segundo as datas anotadas por Heitgen, funcionou de 25 de março de 1852 a 30 de abril de 1875, durante 23 anos e cinco dias.

O autor recorria a Escragnolle Dória para descrever a sala: pintada de rosa, pouco feliz na ornamentação, mas de boa acústica, com o teto decorado por medalhões de compositores. Rosina Stoltz estava entre as celebridades que passaram por seu palco.

O contraste entre uma construção modesta e a importância dos artistas ajuda a evitar que a história teatral seja contada apenas pelo luxo. Uma sala podia ser criticada por sua aparência e, ainda assim, ocupar posição central na experiência musical da cidade.

Crianças, comida e uma moringa de dois bicos

Na antiga Rua do Cotovelo, depois denominada Vieira Fazenda, Heitgen localizava o Teatro São Januário, aberto em 1834. O pequeno trecho remanescente do antigo logradouro recebeu posteriormente o nome de Rua Jacó do Bandolim; a região foi profundamente alterada, de modo que não se deve confundir a ruela atual com a extensão inteira da rua histórica. 

Acompanhando Vieira Fazenda, o cronista lembrava artistas, os primeiros bailes carnavalescos e os vaudeviles apresentados na casa, que também recebeu a Ópera Nacional. Mas o trecho mais vivo era o retrato da plateia.

As famílias levavam crianças de colo, esteiras, cadeiras para os mais velhos e comida. Nos intervalos, havia peixe frito com pão. A moringa de dois bicos permitia beber e enfrentar o calor. Criadas também acompanhavam as apresentações, observando as transformações dos cenários.

Esse cotidiano é tão importante quanto a relação de estreias. O teatro era um acontecimento de duração extensa, para o qual se saía preparado. As pessoas acomodavam crianças e idosos, comiam, conversavam e incorporavam o espetáculo à vida familiar.

O perigo das luzes da ribalta

Na Rua da Vala, atual Uruguaiana, Heitgen situava o Alcazar, inaugurado, segundo sua anotação, em 17 de fevereiro de 1857. A casa recebeu companhias francesas e operetas que acompanhavam as novidades dos palcos parisienses. O cronista não sabia precisar sua duração, mas registrava que uma padaria fora instalada posteriormente no local e também desaparecera.

A iluminação, capaz de produzir encanto, trazia riscos. Em 15 de dezembro de 1866, relatava, a bailarina Chatenay aproximou-se de um bico de gás da ribalta. As roupas pegaram fogo, causando queimaduras das quais morreria no dia seguinte.

Entre prédios de madeira, cenários, tecidos e chamas utilizadas na iluminação, a história dos teatros era atravessada pelo perigo. Os incêndios mencionados ao longo do passeio não eram episódios isolados: alteravam carreiras, interrompiam companhias e obrigavam a cidade a reconstruir suas salas.

O Lírico que sobrevive em uma pintura

Na última etapa de seu percurso, Heitgen chegava ao Teatro Dom Pedro II, inaugurado em 1871, depois chamado Teatro Lírico. Antes dele, existira no local o Circo Olímpico. O cronista recordava a grande sala e sua importância antes da abertura do Theatro Municipal, em 1909.

O edifício conservava uma característica extraordinária: sob o assoalho removível da plateia havia um picadeiro. A arquitetura permitia diferentes usos, testemunhando a proximidade entre circo, música e teatro na formação da vida de espetáculos carioca. 

Luiz Edmundo, ao descrevê-lo, chamou-o de “uma ruína dourada”. A expressão reunia a qualidade artística e o desgaste material de uma casa que conservara admiradores de sua acústica mesmo depois de perder protagonismo para o Municipal. 

Demolido em 1934, o Lírico deixou fotografias, relatos e uma rara pintura adquirida pelo DIÁRIO DO RIO em 2019. Assinada por V. Del Bosco, identificado na reportagem da aquisição como pintor viajante, a tela retrata uma noite de gala no interior do Teatro Imperial Dom Pedro II, com a Princesa Isabel e o Conde d’Eu no camarote.

O óleo sobre tela mede 90 por 70 centímetros e apresenta a data de 9 de janeiro de 1888, relacionada na notícia à solenidade do Liceu de Artes e Ofícios. O jornal a descreveu como um dos raros registros do interior da casa, possivelmente único. 

A obra integra o acervo da redação, no Arco do Teles. Enquanto Heitgen procurava reconstituir o teatro pela memória de suas apresentações e pelo terreno que deixara vazio, a pintura conserva o interior ocupado: pessoas, camarotes e a representação de uma cerimônia imperial. 

O cronista terminava essa história com uma informação de destino quase musical: soubera que as colunas do teatro haviam sido adquiridas por um fabricante de instrumentos para fazer violinos. O episódio permanece como relato de Heitgen, uma das imagens mais sugestivas de sua despedida das antigas salas.

Os palcos que ficaram

O passeio de 1950 não termina inteiramente em desaparecimento. O Carlos Gomes, cuja sucessão de nomes Heitgen registrou, passou por uma grande restauração concluída em 2024. O João Caetano conserva o endereço e a trajetória de uma instituição que atravessou mais de dois séculos, embora seu edifício tenha sido reconstruído.

Na Cinelândia, o Municipal representa a permanência da ópera, do balé e da música de concerto. Nas proximidades, o Teatro Rival, inaugurado em 1934, e o Dulcina, aberto em 1935 como Teatro Regina, pertencem a outra geração de casas que também ajudou a sustentar a vida cultural do Centro. Na Avenida Rio Branco, o Glauce Rocha acrescenta uma história posterior de dramaturgia e experimentação. 

São permanências diferentes. Algumas conservam fachadas e salas antigas; outras resultam de reformas profundas; todas dependem de trabalho, manutenção e público. A cidade não precisa oferecer os mesmos espetáculos do século XIX para continuar utilizando os lugares que recebeu dele.

Heitgen encerrou seu texto depois de conduzir o leitor por ruas, incêndios e mudanças de nome. Seu inventário permite hoje enxergar o que falta entre os teatros que ficaram. Na Praça Tiradentes, na Rua do Teatro, no Lavradio, no Campo de Santana e nos caminhos do antigo Castelo, o Centro ainda guarda os intervalos dessa história: uma sala sobrevivente, um terreno transformado, uma fachada substituída, uma lembrança escrita. No Arco do Teles, uma pintura conserva uma noite do Lírico. E, nas casas que continuam abrindo as portas, o público ainda faz o movimento que dava sentido a todas as outras: atravessa a rua, entra e espera que o espetáculo comece.

Igreja de N. Sra. da Lapa dos Mercadores

Bruna Castro

Jornalista, Diretora do Diário do Rio, amante de pets e sempre atuante nas pautas de ordem pública.

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