Política Assédio eleitoral: aliados de Lula denunciam ameaças contra trabalhadores no AM
Com mais 2,5 mil casos de assédio eleitoral contra eleitores de Lula (PT) contabilizados no país, sendo 34 no Amazonas, aliados do presidente trabalham para denunciar os assediadores à Justiça do Trabalho. O presidente estadual do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Yann Evanovick, informou que a sigla abriu um canal direto para colocar advogados à disposição de trabalhadores vítimas dos crimes de assédio eleitoral, ameaça ou dispensa discriminatória.
O dirigente partidário ressaltou que há empresários comprometidos com a democracia, mas aqueles que não respeitam a lei eleitoral, a Constituição e as leis trabalhistas “vão ficar inviabilizados juridicamente com tanto processo que vão receber”.
“Vão ficar inviabilizados financeiramente com tanto processo que vão ter que pagar. Quem disse que não existe regramento para proteger os trabalhadores no Brasil? Quem disse que os empresários fazem o que querem porque são proprietários das suas empresas? Isso é um equívoco, isso aí era no período da escravidão. Nós vivemos numa República que tem leis trabalhistas para proteger todos os trabalhadores e também os bons empresários”Yann Evanovick
Yann Evanovick informou ainda que entrou em contato com a Superintendência Regional do Trabalho e com o Ministério do Trabalho, que disponibilizaram o telefone 158 (Central Alô Trabalho) para que as pessoas possam proceder com as denúncias diretamente.
“Hoje o ministro do Trabalho está comandando uma reunião de emergência nacional, porque infelizmente essa é uma realidade em todo o território, mas nós estamos à disposição, estamos atentos com a reação que houve ontem por parte de vários setores. Já começou a diminuir muito as denúncias e as pressões que esses trabalhadores vinham recebendo, estamos atentos a tudo que está acontecendo”, continuou.
Evanovick comparou o caso com os atos praticados pelos nazistas no período da Segunda Guerra Mundial, os quais faziam listas de empresas dirigidas por judeus e marcavam pessoas para serem perseguidas.
“Quando falávamos que o bolsonarismo é fascista, esses empresários comprovam isso com essas perseguições, com a construção de listas contra empresas que tiveram pessoas que apoiaram o presidente Lula e quando demitem pessoas que apoiaram o presidente Lula. Isso é inaceitável numa democracia e deve ser repudiado e combatido com toda a força possível”, completou.
Deputado estadual mais votado do pleito de 2026, o vereador de Manaus Zé Ricardo (PT) repudiou os atos de perseguição contra eleitores do presidente Lula e os classificou com “lógica fascista, porque transforma adversário político em inimigo”.
“Demitir um trabalhador porque votou no Lula é crime! É usar o medo da fome para perseguir pessoas. Como é que alguém fala tanto em liberdade e acha que pode mandar na consciência dos outros? Estamos vivendo momentos sombrios e aterrorizantes. Quando uma sociedade começa a demitir, retaliar, se vingar de seus trabalhadores por terem votado em determinado candidato, estamos diante de uma situação gravíssima e muito preocupante”.Zé Ricardo
Zé Ricardo lembra que a lei federal 9.029/1995 proíbe a discriminação no emprego e a violência ou grave ameaça para impor voto pode configurar crime no artigo 301 do Código Eleitoral. O vereador orienta pessoas que forem perseguidas a guardar mensagens, áudios, fotos e denunciar ao MPT.
“Existe uma rede de advogados progressistas que estão se organizando em todo Brasil, inclusive aqui no Amazonas também, para orientar e dar apoio aos trabalhadores que estão passando por nessa situação. Não podemos tolerar a intolerância”, completou.
Procurador do MPT orienta denúncia
Na terça-feira, o procurador-geral do Trabalho, Gláucio Araújo de Oliveira, informou que o MPT recebeu cerca de 240 denúncias de assédio eleitoral nas primeiras 24 horas após a votação. Levantamento divulgado pelo MPT mostra que, até a tarde de ontem, já havia 2.545 denúncias.
“O MPT reforça que as plataformas digitais têm responsabilidade. É preciso estarem atentas para remover imediatamente conteúdos ilícitos. O empregador é dono do seu negócio e não do voto do seu empregado. O MPT está atento a todos os casos denunciados e vai atuar de forma célere e firme, aplicando as penalidades cabíveis. Se você tem conhecimento de alguma situação de assédio eleitoral, denuncie”, disse Glauco.
Em Manaus, o portal A Crítica mostrou que diversos comerciantes e empresários bolsonaristas estariam orientando a indicação de lojas, influenciadores e marcas “de esquerda” para deixar de consumir seus produtos ou frequentar estabelecimentos. Também circularam comunicados de comerciantes anunciando o fim de ações sociais com Organizações Não Governamentais (ONGs).
Demissão discriminatória é proibida
Em nota, o Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região (AM-RR) informou que recebeu com preocupação as denúncias de ameaças e demissões de trabalhadores em Manaus por motivação política. A Corte reafirmou seu compromisso “com a democracia, a liberdade de expressão e a dignidade da pessoa humana”.
“A demissão ou retaliação por preferência política ou voto é discriminatória e proibida. A Constituição garante a liberdade de expressão e o pluralismo político, e a legislação trabalhista assegura ao trabalhador prejudicado o direito de buscar a Justiça do Trabalho. O assédio eleitoral, que abrange pressão para influenciar o voto e distinção por convicção política inclusive na contratação, também é coibido pela Resolução do Conselho Superior da Justiça do Trabalho”, disse o TRT.
Já o Ministério Público do Trabalho informou que é possível fazer uma denúncia anônima, “mas com todas as informações disponíveis para possibilitar a identificação da pessoa que cometeu o ato de discriminação e/ou assédio e indicação de testemunhas e apresentação de documentos, sob pena da investigação ser mais demorada ou não poder ser concluída”.
Para denunciar, no caso do TRT-11, deve-se comunicar pelo formulário eletrônico da Ouvidoria no assunto Denúncia – Assédio Eleitoral nas Relações de Trabalho, disponível no site do TRT-11, nos telefones (92) 3261-7402 e 0800 923 6210, além de poder ser feitas presencialmente no Fórum Trabalhista de Manaus.
No caso do MPT, a denúncia pode ser feita virtualmente no endereço eletrônico mpt.mp.br/assedio-eleitoral e ao Ministério do Trabalho pelo telefone 158.
Advogado condena boicote
A formação das listas de empresas onde não se deveria comprar feitas bolsonaristas não ocorreu somente em Manaus. Em Manacapuru, pelo menos 21 estabelecimentos aparecem numa lista espalhada nas redes sociais, incluindo o advogado Raimundo Nogueira, listado como “não contratem nenhum serviço jurídico dele”.

Em sua página, o advogado recomendou aos “autores da brilhante iniciativa de recomendar que não se dê nem água aos que pensam diferente, deixo uma sugestão: acrescentem também que não se deve respirar o mesmo ar, compartilhar a mesma calçada nem pronunciar o nome dos desafetos sem antes consultar o comitê de perseguição ideológica. Afinal, se é para voltar à Idade Média, que seja com organização!”.
“Quer dizer que, em nome da liberdade, vocês pretendem punir quem pensa diferente? Em nome da democracia, querem cassar o direito de trabalhar? Em nome da moralidade, elaboram listas de perseguição contra cidadãos cujo maior pecado foi exercer a própria consciência política? Que contradição extraordinária! Defendem a liberdade, desde que todos obedeçam; pregam a democracia, desde que todos votem como eles; falam em tolerância, desde que ninguém ouse discordar. Isso não é convicção política: é autoritarismo fantasiado de indignação moral”, disse.
A secretária-executiva de Política para as Mulheres do município, Hariany Campelo, comentou sobre a lista em suas redes sociais e disse que não alimentaria “esse sentimento ridículo”, chamando a situação de “o cúmulo do absurdo”.
“Tenho pessoas que trabalham comigo, Hariany, pessoa física, que nunca critiquei, estavam tomando à frente de movimentos pró-Bolsonaro e eu nunca contestei, eu jamais faria isso, porque eu sou democrática. As pessoas tem percepções a partir de suas formações e não cabe a mim mudar isso”, disse.
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