REPORTAGEM SONORA“Quem Matou Rosalina?”: Jornalista paraense lança podcast sobre morte de mulher em disputa por R$ 80 milhões Idealizado e investigado por Vilma Reis, podcast reconstitui homicídio ocorrido no Rio de Janeiro e chega ao público às vésperas do julgamento em Portugal
Uma investigação que atravessa Brasil e Portugal é o ponto de partida do podcast “Quem Matou Rosalina?”, que estreia nesta quinta-feira (29). Idealizada pela jornalista paraense Vilma Reis, responsável pela apuração e pela narração da versão brasileira, a série reconstrói o assassinato da portuguesa Rosalina Ribeiro, morta a tiros no Rio de Janeiro, em 2009, aos 74 anos.
Produzido com exclusividade para o jornal português Público e disponível no Brasil pelo jornal O Globo, o podcast terá cinco episódios, com cerca de meia hora cada, até 26 de novembro.
O lançamento antecede o julgamento do ex-deputado português Duarte Lima, acusado no processo e que sempre negou envolvimento no crime. O início das sessões está marcado para 5 de novembro, em Sintra, Portugal.
Vilma tomou conhecimento do caso ainda em 2009, quando o homicídio chamou atenção pelo envolvimento do nome de uma figura poderosa da política portuguesa. A ausência de um desfecho judicial e a marcação do julgamento motivaram a retomada da história, desta vez em uma investigação sonora.
“E ele [o julgamento] foi finalmente marcado agora para o mês de novembro, então achei que era melhor contar essa história antes, para que nós pudéssemos acompanhar e saber exatamente o que é que a polícia apurou ao longo desse tempo”, afirma.
A conexão entre os países também se aproxima da trajetória da jornalista. “Eu também vivo entre esses dois mundos, entre Brasil e Portugal. Então, faz muito sentido para mim contar uma história que tem os dois países”.
Documentos e memórias da investigação
No início deste ano, Vilma esteve no Rio de Janeiro para entrevistar policiais, conversar com fontes e estudar o inquérito. A série reúne documentos, gravações e informações inéditas obtidas junto à polícia fluminense, reconstruindo o percurso da investigação e do processo que chegou à Justiça portuguesa.
Para a jornalista, o trabalho exigiu olhar para os autos como um conjunto de registros capazes de ajudar a contar o que aconteceu. “Processos judiciais não são apenas folhas de papel”, observa. Além de reunir e analisar o material, foi necessário procurar pessoas que acompanharam o caso e lidar com as limitações impostas pelo tempo.
Vilma lembra que algumas testemunhas morreram desde o assassinato. Outras enfrentam problemas de saúde que impossibilitaram as entrevistas. Esse intervalo também criou um desafio narrativo: apresentar o caso tanto a quem se lembra do noticiário quanto a quem era muito jovem ou sequer havia nascido quando Rosalina foi morta.
“A morosidade da Justiça vai deixando com que as pessoas deixem de entender o caso”, avalia Vilma. Para ela, reconstruir os acontecimentos é uma forma de permitir que diferentes gerações acompanhem o julgamento e compreendam o que foi investigado.
Uma história ainda sem desfecho
Inserido no gênero true crime, dedicado a crimes reais, o podcast parte do assassinato para investigar os acontecimentos anteriores e os desdobramentos posteriores. A proposta é apresentar as diferentes camadas da história, ainda sem uma conclusão da Justiça sobre a responsabilidade pelo homicídio.
“Nós começamos com o assassinato em si. Agora, o que levou àquilo, o que aconteceu antes e o que se arrasta depois? Mesmo não tendo um veredito, nós precisamos entender essa história em muitas camadas. Então, o crime não é só a bala que entra no corpo e mata alguém. Ela tem um motivo, tem todo um percurso”, explica a jornalista.
A escolha do formato também tem relação com sua trajetória profissional. Vilma começou a sua formação em Comunicação na Universidade Federal do Pará (UFPA), em 1996, e concluiu o curso em Portugal, após a mudança da família. O primeiro estágio foi na Rádio Universidade de Coimbra. Mais tarde, trabalhou com rádio em Belém antes de retornar ao país europeu.
“Gosto muito do jornalismo radiofônico, que agora tem esse nome, podcast, mas, na verdade, são reportagens sonoras”, diz.
Duas versões da mesma apuração
Pela primeira vez, o Público apresenta um mesmo podcast em versões em português europeu e brasileiro. Enquanto Vilma narra a versão destinada ao Brasil, o ator e jornalista José Martins dá voz à portuguesa. A investigação é a mesma, mas os roteiros foram adaptados às referências de cada público.
Para os ouvintes portugueses, por exemplo, foi necessário detalhar aspectos do território brasileiro. Na versão brasileira, a contextualização inclui informações sobre os personagens e o cenário político de Portugal.
“Eu convido o ouvinte brasileiro e português a ouvir as duas versões”, afirma Vilma. “Dá para a gente entender um bocado dos dois países, do funcionamento dos dois países, através de uma história só”.
O primeiro episódio estará disponível nesta quinta-feira (29), no site, no aplicativo e nas plataformas de streaming do Público, com acesso no Brasil pelo O Globo. Na mesma data, uma sessão de escuta em Coimbra reunirá a equipe de autores nas novas instalações da Critical Software, na antiga sede da Coimbra Editora.
Portuguesa morta por herança de R$ 80 milhões tem cinzas em igreja no Rio
As cinzas de Rosalina da Silva Cardoso Ribeiro estão depositadas em uma igreja de Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro. A portuguesa foi vítima de um assassinato que repercutiu no Brasil e em Portugal, em meio a uma disputa por uma herança milionária. Ex-secretária e amante por 32 anos do empresário português Lúcio Tomé Feteira, considerado um dos homens mais ricos da Europa, ela tinha 74 anos quando foi morta com dois tiros, um no peito e outro no rosto, em 7 de dezembro de 2009, em Saquarema, na Região dos Lagos.
Antes de morrer, Rosalina já havia conquistado na Justiça portuguesa o direito de receber parte da herança do empresário, que morreu de causas naturais, aos 98 anos, em 2000. No Brasil, ela também disputava com uma filha de Feteira um patrimônio estimado em R$ 80 milhões.
O assassinato ocorreu cinco dias antes de uma viagem que Rosalina havia programado para Portugal. Ela tinha passagem marcada para 12 de dezembro, mas não chegou a embarcar. A última pessoa que esteve com ela antes da morte foi o advogado e ex-deputado português Domingos Duarte Lima.
Uma câmera de segurança registrou Rosalina às 19h59 de 7 de dezembro, dentro de um elevador, enquanto descia do prédio onde morava, no Flamengo, também na Zona Sul do Rio. Ela se preparava para encontrar Duarte Lima. A gravação se tornou o último registro conhecido da portuguesa com vida. Cerca de duas horas depois, ela foi assassinada em Saquarema.
O advogado virou réu na Justiça brasileira como principal suspeito do crime. De acordo com a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro, ele teria matado Rosalina porque ela se recusava a assinar uma declaração afirmando que o advogado não havia recebido valores transferidos por ela.
Meses antes do assassinato, a Justiça portuguesa havia recebido um comunicado da União dos Bancos Suíços informando que parte do dinheiro relacionado à herança de Tomé Feteira fora transferida por Rosalina, sem autorização dos demais herdeiros, para uma conta de Duarte Lima.
A cremação dos restos mortais de Rosalina foi autorizada pela Justiça brasileira e ocorreu três anos após o assassinato. Até então, ela estava sepultada em uma gaveta do Cemitério São João Batista, em Botafogo.
Segundo Armando Manuel Custódio de Carvalho, afilhado de Rosalina, ele não conseguiu transferir os restos mortais da madrinha para o local onde os pais dela estão sepultados, em Portugal. Diante da impossibilidade, optou pela cremação e decidiu depositar as cinzas em uma igreja dedicada a uma santa de quem Rosalina era devota.
Com informações de o Extra.
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