GRAVE“O bolsonarismo é morte, gente”: Historiador denuncia agressão de PM’s a quilombola que comemorou vitória de Lula no Pará Um jovem quilombola da comunidade de Mangabeira, em Mocajuba (PA), denunciou ter sido vítima de violência policial. O caso, que teria ocorrido após a comemoração da vitória de Lula nas eleições, provocou indignação e levou à cobrança de investigação.
Uma denúncia de violência policial contra um jovem quilombola na comunidade de Mangabeira, em Mocajuba, no nordeste do Pará, provocou indignação nas redes sociais e levou à cobrança de investigação contra policiais militares. Segundo moradores, agentes encapuzados teriam invadido uma residência, agredido o jovem e ameaçado familiares que tentaram impedir a violência. O episódio ocorreu na noite de segunda-feira (26), um dia depois do segundo turno das eleições presidenciais.
O jovem foi identificado em uma manifestação parlamentar como Vadimir Vieira Rodrigues. De acordo com a denúncia apresentada pela deputada estadual Lívia Duarte (PSOL), ele teria sido agredido depois de comemorar a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de domingo (25). A possível motivação política ainda precisa ser esclarecida pelas autoridades.
A repercussão aumentou após a divulgação de vídeos da abordagem e de um depoimento publicado pelo historiador, etnógrafo e fotógrafo documental Cadu de Castro, que desenvolve trabalhos na comunidade há alguns anos.
Relato de invasão e ameaças
No vídeo divulgado nas redes sociais, Cadu de Castro aparece diante da câmera para denunciar o que considera uma grave violência contra os moradores do Quilombo de Mangabeira.
O pesquisador relata que o jovem estava em casa quando uma embarcação chegou à comunidade transportando policiais encapuzados. Segundo ele, os agentes entraram na residência e passaram a agredir o morador.
“Estava em casa, chegou uma lancha com policiais encapuzados, invadiram a casa”, afirma Cadu em um dos trechos do vídeo.
O historiador também denuncia agressões e ameaças contra familiares que estavam no imóvel. Conforme os relatos divulgados, pessoas mais velhas teriam sido intimidadas com armas apontadas para a cabeça ao tentar intervir.
A movimentação chamou a atenção dos moradores, que se aproximaram para acompanhar o ocorrido. Parte da ação foi registrada por testemunhas.
Cadu afirma que a comunidade se mobilizou e que moradores “inclusive filmaram a ação”. Ele acrescenta que os policiais conduziram o jovem à Delegacia de Polícia Civil de Mocajuba.
Imagens divulgadas pela imprensa mostram um homem no chão durante a abordagem, cercado por policiais, enquanto moradores acompanham a ocorrência.
Historiador pede providências
Cadu de Castro afirma conhecer a comunidade há anos e descreve Mangabeira como um lugar de paz, onde mantém vínculos com os moradores por meio de seu trabalho documental.
Ao comentar a situação, ele demonstra preocupação com a segurança das famílias e pede que as imagens sejam compartilhadas para chegar ao conhecimento das autoridades estaduais.
“É muito importante que esse vídeo corra, que ele seja compartilhado”, declara.
O pesquisador defende que a denúncia chegue ao governo paraense para que providências sejam adotadas. Em outro momento, alerta que os envolvidos “correm risco de vida”.
A manifestação também associa o episódio ao ambiente de radicalização política após as eleições. “O bolsonarismo é morte, gente”, afirma Cadu, em uma avaliação política pessoal sobre o caso.
O historiador encerra o apelo defendendo a proteção das comunidades tradicionais e a divulgação da denúncia em suas redes sociais.
Polícia apresenta outra versão
A Polícia Militar do Pará apresentou uma versão diferente para a ocorrência. Segundo a corporação, os agentes foram acionados após uma denúncia de que um homem estaria ameaçando moradores com uma arma de fogo.
Em nota divulgada à imprensa, a PM informou que a equipe se dirigiu à residência do suspeito, que teria se entregado espontaneamente e apresentado uma arma do tipo cartucheira municiada.
A Polícia Civil informou que lavrou auto de prisão em flagrante por porte ilegal de arma de fogo de uso permitido e apreendeu uma cartucheira. O homem foi encaminhado à Delegacia de Polícia Civil de Mocajuba.
Segundo a PC o suspeito que se entregou espontaneamente e apresentou uma arma de fogo tipo cartucheira municiada. O detido recebeu liberdade provisória mediante pagamento de fiança. A corporação afirmou que eventuais excessos cometidos pelos policiais serão rigorosamente apurados, caso sejam confirmados.
As investigações continuam. A versão oficial, entretanto, é contestada por moradores, que denunciam agressões e afirmam que a pessoa apontada como responsável pelas ameaças que teriam motivado a confusão não foi conduzida pelos policiais. A divergência deverá ser esclarecida durante a apuração.
Deputada cobra afastamento de policiais
Na quarta-feira (28), a deputada estadual Lívia Duarte encaminhou um ofício ao secretário de Segurança Pública e Defesa Social do Pará, Ed-Lin Anselmo de Lima, solicitando investigação rigorosa sobre a atuação dos militares.
A parlamentar classificou as denúncias como um “grave atentado” e pediu a abertura de Inquérito Policial Militar e Processo Administrativo Disciplinar para identificar os agentes envolvidos.
Também solicitou o afastamento preventivo dos policiais das atividades ostensivas, exame de corpo de delito e atendimento médico ao jovem, além de medidas de proteção aos familiares e demais moradores.
Lívia Duarte defendeu que a apuração alcance as circunstâncias da prisão, a possível prática de violência física, ameaças e eventual abuso de autoridade.
O documento pede ainda o encaminhamento das informações ao Ministério Público do Pará, à Defensoria Pública e ao Ministério Público Federal.
A deputada também questiona a entrada dos policiais no território quilombola e na residência, ressaltando a necessidade de respeito aos direitos constitucionais e às garantias das comunidades tradicionais.
Comunidade exige investigação
Moradores do Quilombo de Mangabeira divulgaram uma nota de repúdio à abordagem e pediram providências das autoridades.
Entre as reivindicações estão a identificação dos policiais, a apuração das agressões denunciadas e a garantia de proteção aos moradores que presenciaram ou registraram a ocorrência.
A comunidade também cobra respeito aos direitos territoriais quilombolas e à integridade física de seus integrantes.
O caso coloca sob investigação duas questões distintas: a ocorrência policial envolvendo a apreensão de uma arma e as denúncias de uso excessivo da força durante a abordagem.
Mesmo quando existe suspeita de crime, a atuação policial deve respeitar os limites legais, a integridade física dos envolvidos e as garantias fundamentais.
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