O Diário de SP
29/10/2026 10:30

EntretenimentoBTS transforma o Morumbis em palco de celebração da cultura coreana no primeiro show no Brasil em sete anos

Quando os primeiros acordes de “Body to Body” chegaram ao trecho inspirado em “Arirang”, os sete integrantes do BTS baixaram os microfones e deixaram o estádio cantar. Cerca de 85 mil pessoas entoaram em coreano a canção folclórica considerada um hino informal da Coreia do Sul, enquanto os telões mostravam fãs vestidos com o hanbok, traje típico do país. Foi o momento mais simbólico da noite desta quarta-feira (28), no Morumbis, em São Paulo, quando o grupo voltou a se apresentar no Brasil depois de sete anos.

O retorno marca uma nova fase para a boyband, hoje reconhecida como o principal nome do pop sul-coreano e peça central na difusão da cultura do país pelo mundo. Na turnê que leva o nome da música tradicional, o septeto troca o foco no mercado ocidental, que marcou a fase de hits em inglês, por uma celebração das próprias origens.

De volta às raízes

O BTS ficou fora dos palcos a partir de 2022 para que Jin, Suga, RM, J-Hope, Jimin, V e Jungkook cumprissem o serviço militar obrigatório. O retorno oficial veio em março deste ano, cercado de expectativa: parte dos fãs queria o som mais cru dos primeiros anos, outra parte esperava a continuidade do pop de alcance global. O álbum “Arirang” tenta conciliar os dois caminhos.

A virada também tem cálculo da gravadora. Em documentário da Netflix, o criador do grupo, Bang Si-hyuk, conta que imaginava como seria marcante ver plateias estrangeiras cantando a melodia folclórica. As fãs compraram a ideia e transformaram o trecho numa espécie de disputa entre cidades para ver quem canta mais alto.

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Reprodução: Nathalia Durval/Folhapress

A referência à tradição atravessa todo o espetáculo, nos sons, nas projeções, nos figurinos e nos movimentos do corpo de baile. Antes da entrada dos artistas, o estádio ouvia músicas instrumentais enquanto os telões alternavam silhuetas dos cantores e frases em coreano, sem legenda. Às 20h, os instrumentos tradicionais cederam lugar aos sintetizadores e ao hip hop pesado de “Hooligan”, e uma transmissão ao vivo mostrou o grupo atravessando o gramado, entre o público, rumo ao palco.

Show mais enxuto e menos coreografado

A apresentação teve pouco em comum com a de 2019, no antigo Allianz Parque, hoje Nubank Parque, e deixou de lado várias convenções do k-pop. Saíram os vídeos narrativos exibidos durante as trocas de figurino, os múltiplos bis e as longas conversas com a plateia. Em 2h20 de show, o centro das atenções foram as músicas.

As coreografias elaboradas que ajudaram a construir a fama do grupo apareceram pouco. Na maior parte do repertório, os integrantes não dançaram ou fizeram apenas os passos do refrão. “Mic Drop” foi uma das exceções. Também não houve números solo.

Mesmo assim, a energia não caiu. O público pulou do início ao fim, agitando os lightsticks, bastões de luz sincronizados com as canções, e batendo leques. Os cantores circulavam pelas passarelas, interagiam com a plateia de forma espontânea e brincavam entre si. Para se comunicar, recorreram quase sempre ao português, lendo frases preparadas, com o apoio de uma intérprete.

Palco 360º e queixas das Armys

A estrutura foi desenhada para aproximar o grupo dos fãs, base do sucesso do BTS. O palco central, em formato 360º, se ligava a quatro passarelas, e uma plataforma circular subia e girava para que os artistas ficassem de frente para todos os setores ao longo da noite.

Na América do Sul, porém, a montagem foi reduzida. No lugar dos 12 telões de LED usados nas etapas anteriores, que garantiam visão da transmissão de qualquer ponto do estádio, foram instalados apenas quatro, presos a uma torre central. Em alguns lugares, o espectador ficava entre dois telões e via a imagem cortada. Em nota, a produtora Live Nation atribuiu a mudança a limitações de logística e de cronograma na região. A justificativa não acalmou as Armys, como são chamadas as fãs do grupo.

Outra frustração foi “Idol”: em outras cidades, o grupo cantou a música na pista, no meio do público, o que não aconteceu em São Paulo. A chuva que caiu ao longo da tarde, ao menos, deu trégua durante o show.

Repertório de uma fase mais madura

Hoje na faixa dos 30 anos, os integrantes refletem o amadurecimento também no setlist, que dispensou as canções mais fofas. O roteiro gira em torno de “Arirang” e inclui sucessos que conversam com o momento atual, como “Run BTS”, “Fire”, “Not Today” e “Fake Love”, em novos arranjos. “Dynamite” e “Butter”, responsáveis pela explosão global do grupo, também estão lá. Cada cidade recebe ainda duas músicas surpresa. Em São Paulo, os escolhidos foram “Black Swan” e “Baepsae”.

Formado em 2013, o BTS nasceu com forte influência do hip hop e letras de crítica social, sob a produção do trio de rappers RM, Suga e J-Hope. Poucos grupos de k-pop ultrapassam dez anos de carreira, e o septeto estava no topo do pop mundial quando os integrantes começaram a se alistar, em revezamento.

Durante a pausa, os membros apostaram em carreiras solo. Jin, Suga e J-Hope rodaram o mundo com turnês próprias, sem passar pela América do Sul. O intervalo não diminuiu o peso do grupo, que voltou quebrando recordes. A turnê atual começou em abril, vai até 2027 e já soma mais de 80 datas.

Uma história que cresceu junto com o público brasileiro

Os fãs no Brasil acompanham o BTS desde o início. Na primeira visita, em 2014, quando ainda era pouco valorizado pela indústria do próprio país, o grupo cantou para 1.500 pessoas. Em 2017, lotou duas noites no Vibra São Paulo, com capacidade para 7.000 espectadores, ainda dentro de um público de nicho.

Em 2019, já com espaço no mercado ocidental graças a faixas como “DNA” e “Boy With Luv”, reuniu cerca de 80 mil pessoas em duas apresentações. Agora, o reencontro acontece depois do sucesso da animação “Guerreiras do K-pop” e da estreia do gênero no Lollapalooza e no Rock in Rio.

No festival carioca, o Stray Kids foi a principal atração do dia dedicado ao k-pop, depois de levar cerca de 160 mil pessoas a três shows no ano passado. Com 252 mil ingressos vendidos para três datas, o BTS volta ao posto de maior público do gênero no país.

Esquema inédito no entorno do estádio

A procura levou a medidas nunca adotadas antes para um show de um único artista. A Ticketmaster criou um sistema híbrido de venda, com reserva pela internet e pagamento presencial, para dificultar a ação de cambistas e evitar acampamentos na bilheteria oficial, onde fãs já haviam se instalado assim que a turnê foi anunciada. Filas e acampamentos também foram proibidos nos arredores do estádio.

A partir das 8h, as ruas próximas ao Morumbis foram fechadas, com acesso liberado apenas para quem tinha ingresso e para moradores cadastrados. A intenção era impedir a concentração de fãs sem entrada do lado de fora, fenômeno visto em outros países latino-americanos e apelidado de “setor calçada”. O bloqueio gerou congestionamentos a quilômetros de distância, 12 horas antes do início do show.

Na despedida, o grupo prometeu voltar ao Brasil. O BTS faz mais duas apresentações em São Paulo, nesta sexta (30) e no sábado (31), encerrando a passagem da turnê pela América Latina.

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