Quanto de gasolina é necessário para contaminar uma eleição?
Coloque sobre a mesa um copo de água limpa e pingue nele uma única gota de gasolina. Em segundos, uma película colorida se espalha e o cheiro sobe. Você beberia?
Ninguém pede para medir quantos mililitros caíram. Uma gota basta para condenar o copo inteiro.
Neste ano, o Brasil foi convidado a beber um copo assim.
O copo foi posto à mesa em 16 de agosto, primeiro dia de campanha, e as gotas começaram a cair.
Se você compra em site estrangeiro, ganhou o fim da taxa das blusinhas. Se queria trocar de carro, crédito mais fácil. Se é aposentado, consignado. Se tem dívida, um Desenrola novinho. Se abastece, imposto menor na bomba. E, faltando 17 dias para o primeiro turno, o Bolsa Família ficou 15% maior.
Somadas, elas beiram 300 bilhões de reais de dinheiro do contribuinte financiando estratégia eleitoral.
E ainda que muitas, nem todas as gotas caíram no orçamento. Uma delas talvez tenha caído no seu celular.
Sabe quando o governo te obriga a entrar no Gov.br para tirar um documento, consultar o INSS ou declarar o Imposto de Renda? Você entrega seu número porque não tem escolha. Foi nesse número que chegaram, em plena campanha, mensagens do governo divulgando programas sociais.
E a quatro dias do segundo turno, mais uma. Num gesto só, 19 bilhões de reais em dívidas de 3,6 milhões de microempreendedores deixaram de existir.
Para efeito de comparação: a lei permite a qualquer candidato gastar no máximo 44,5 milhões de reais no segundo turno inteiro. O governo pôs no jogo mais de 400 vezes isso, numa única canetada. E a notícia, claro, chegou direto no celular de quem devia.
Mas será que é de fato contaminação da eleição ou só um governo trabalhando?
A lei eleitoral responde. Nos três meses antes da eleição, está proibida a publicidade institucional e o uso de bens públicos em favor de candidatos. Em ano eleitoral, só permite distribuir benefícios de programas que já existiam e tinham orçamento. A regra existe para que a máquina pública não faça campanha.
Mesmo assim, o palanque se mudou para o palácio. A entrega de casas do Minha Casa, Minha Vida virou comício, e o Alvorada, estúdio de lives.
Na noite do primeiro debate, o púlpito de Lula ficou vazio: ele estava no Alvorada, dando entrevista à Record. Na véspera do primeiro turno, repetiu a dose com o Flow, no mesmo palácio.
Lembra que em 2022 o Bolsonaro ficou proibido de fazer live eleitoral no Alvorada? Foi considerado uso de bem público em campanha e o próprio Moraes votou a favor.
Em 2026, o mesmo palácio virou estúdio, e ninguém viu problema.
Dirão que foram só 34 mil pessoas que votaram fora do horário. A pergunta certa é outra: como 34 mil pessoas puderam votar fora do horário em uma eleição que deveria ser séria?
E o debate da Globo? Uma ministra do TSE mudou as regras na véspera e proibiu a emissora de mostrar o púlpito vazio de Lula. A Globo cancelou o debate pela primeira vez na história.
Nas redes, a campanha do medo correu solta: artistas globais espalhando fake news, dezenas de páginas sem dono e milhares de anúncios atacando Flávio, pagos em reais e até em dólares.
E o TSE? Fechou os olhos.
A essa altura, metade do copo era pura gasolina e só não via quem não queria.
No domingo da votação, as últimas gotas caíram de uma vez. Logo cedo, em Salvador, militantes do PT foram às garagens colar o 13 nos ônibus. Propaganda em ônibus no dia da eleição é crime, e a frota ficou parada até a propaganda sair.
Às 16h32, a campanha de Lula bateu na porta do Supremo para reclamar da falta de ônibus. Justamente dos ônibus que seus militantes tinham adesivado pela manhã.
Aos 45 do segundo tempo, Cristiano Zanin, ex-advogado pessoal de Lula, decidiu sozinho prorrogar a votação por duas horas no país inteiro.
A decisão foi divulgada às 17h03, quando muitas urnas já estavam fechadas. Essas, claro, não reabriram. E aí virou bagunça. Quais urnas ficaram abertas e quais fecharam, ninguém soube explicar.
Minha irmã vinha num ônibus atrasado, viu na imprensa que a votação tinha sido prorrogada e decidiu votar. Chegou e descobriu que, no Paraná, as urnas já estavam fechadas. O mesmo aconteceu em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, justamente no Sul.
Dirão que foram só 34 mil pessoas que votaram fora do horário. A pergunta certa é outra: como 34 mil pessoas puderam votar fora do horário em uma eleição que deveria ser séria?
Dirão que a campanha de Flávio também pediu mais tempo. Pediu, mas só para cidades castigadas pela chuva e ao TSE. E adivinhem, foram justamente as cidades que não obtiveram a prorrogação na prática. Dirão que perdoar dívida é política pública e que presidente entregando casa é presidente trabalhando. Dirão tudo o que for possível, até o tanque secar.
Mas a contaminação não se mede em percentual. Ninguém aceita o copo porque a gasolina foi pouca.
E agora pedem ao país que brinde à democracia com esse mesmo copo. Você beberia?
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