MEMÓRIA DE BELÉMFotos antigas mostram o porto de Belém muito antes da Estação das Docas Registros preservados pela Memória da Eletricidade revelam navios junto ao cais, guindastes, trilhos e jardins na região portuária das décadas de 1920 e 1930
Um navio atracado ocupa quase toda a lateral da fotografia. Entre a embarcação e os armazéns, pessoas circulam por um cais atravessado por trilhos, onde também aparecem veículos, pequenas plataformas de carga e um guindaste. Muito antes de parte dessa estrutura receber os restaurantes e espaços culturais da Estação das Docas, a região do porto de Belém tinha uma paisagem marcada pelo trabalho e pela ligação da cidade com a Baía do Guajará.
A cena integra um conjunto de fotografias preservado pelo Acervo da Memória da Eletricidade, com data atribuída ao período de 1920 a 1939. Reunidas pelo economista Paulo Soares de Vilhena Brandão enquanto atuava na Eletrobras, as imagens permitem observar tanto as instalações portuárias quanto os espaços urbanos próximos. O conjunto completo reúne 40 registros de diferentes pontos da capital paraense.
Nas fotografias do porto, os armazéns aparecem alinhados ao longo da margem, acompanhando o desenho do cais. Em uma delas, um guindaste se projeta sobre a faixa de circulação entre os galpões e a água. Em outra, feita a partir da baía, embarcações e construções formam uma extensa linha diante da cidade.
Esse cenário já correspondia a uma transformação importante da orla. Quando as imagens foram registradas, Belém contava com o cais implantado no início do século XX pela companhia Port of Pará. Antes dele, trapiches de madeira atendiam à movimentação de embarcações e mercadorias. Foi justamente o boom do comércio da borracha que impulsionou a substituição dessas estruturas por instalações de maior capacidade.
Dos trapiches ao novo cais
A história dessa mudança ajuda a entender por que o porto ocupava uma posição tão importante na vida de Belém. Segundo a Biblioteca Nacional, a cidade concentrava produtos destinados à exportação e recebia inúmeras embarcações vindas do interior amazônico. A navegação a vapor, por sua vez, ampliou as conexões entre as áreas produtoras, a capital paraense e a Europa.
À frente do empreendimento portuário estava o empresário norte-americano Percival Farquhar. O governo federal estabeleceu a concessão para as obras de melhoramento do porto em 1906. No ano seguinte, o Decreto nº 6.396, preservado no acervo legislativo da Câmara dos Deputados, transferiu à Companhia Port of Pará os direitos e as obrigações dessa concessão.
De acordo com a Companhia Docas do Pará (CDP), o primeiro trecho entrou em funcionamento em 2 de outubro de 1909, com 120 metros de cais e um armazém de 20 por 100 metros. A estrutura cresceu nos anos seguintes e, em 1913, alcançava 1.860 metros de cais acostável e 15 armazéns.
Além de escoar a produção regional, o porto recebia mercadorias para abastecer o mercado local. Segundo a CDP, em 1915 as importações representaram mais de 60% da movimentação total. Na exportação, a borracha nativa tinha destaque. Assim, o conjunto de galpões, equipamentos e embarcações participava tanto das relações comerciais com o exterior quanto do abastecimento da própria cidade.
Jardins e bondes na paisagem
As fotografias também mostram que a região portuária reunia cenários diferentes. Ao lado das instalações destinadas às cargas, aparecem vias largas, árvores dispostas em sequência e fachadas de sobrados. Em um dos registros, os armazéns ocupam um lado da rua, enquanto canteiros arborizados acompanham a avenida. Um automóvel atravessa a pista, quase vazia.
Outra imagem mostra a avenida Boulevard Castilhos França marcada por jardins com desenhos geométricos, caminhos claros, bancos e postes ornamentados. À direita, um bonde passa diante de uma fileira de edifícios. Pedestres e uma carroça completam a cena, que permite observar como diferentes formas de circulação dividiam o espaço urbano.
Esses elementos dialogam com as mudanças que a economia da borracha promoveu em Belém. A remodelação incluiu arborização, bondes elétricos, alargamento de ruas e construção de avenidas e praças. A valorização do bairro comercial também contribuiu para o deslocamento de residências de famílias mais ricas para outros bairros.
O porto ganhou novos usos
Décadas depois, parte da estrutura portuária passou por outra transformação. Inaugurada em 13 de maio de 2000, a Estação das Docas nasceu da restauração de três antigos armazéns. O complexo ocupa 500 metros de orla e reúne espaços destinados à gastronomia, à cultura e a eventos.
Os galpões e os guindastes preservados mantêm referências materiais daquela atividade. Os armazéns têm estruturas de ferro inglês, enquanto os guindastes externos foram fabricados nos Estados Unidos no início do século XX.
Nas fotografias antigas, esses equipamentos aparecem inseridos no ambiente para o qual foram concebidos, junto às embarcações e às áreas de circulação de cargas. Os registros permitem reconhecer outra dimensão de uma paisagem familiar aos belenenses: antes de se tornar espaço de passeio e contemplação da baía, aquele trecho da orla já conectava a cidade ao mundo por meio do porto.
Ver nota original ↗
¿Querés un resumen rápido de esta noticia, hecho por nuestra IA?
