Campo Grande News
Jornalistas revelam descobertas sobre maior caso de aborto do Brasil
As jornalistas Ângela Boldrini (Folha de São Paulo) e Carolina Moraes (Rádio Novelo) vieram à Campo Grande para o lançamento de seu livro Coreografia da Escolha: A Disputa pelo Aborto no Brasil, que busca entender o Caso das 10 mil, que aconteceu aqui na Capital. Ângela e Carolina se conheceram na Folha de SP. Ângela já tinha conhecimento do Caso das 10 mil, o maior processo judicial de aborto do Brasil. Juntas, resolveram criar um podcast sobre o caso, do qual Carolina nunca tinha nem ouvido falar até então. Vendo o sucesso do podcast, a dupla resolveu o transformar em livro. “O livro a gente tinha vontade de fazer para as pessoas que talvez nunca tenham se interessado pelo tema ou que saibam desses casos mais pontuais, que essa pessoa tivesse onde acessar referências”, explica Ângela. A dupla não tinha a intenção de defender o aborto, mas de entender como e por que o assunto é abordado. “A gente segue uma narrativa, as histórias são contadas de maneira muito parecida com o que a gente fez no podcast, mas a gente queria que existisse uma referência escrita sobre quem são as pessoas que estão pensando nesse campo, por que elas pensam sobre esse campo, quais são as mudanças que querem ver”, conta Carolina. O caso das 10 mil A médica Neide Mota Machado comandou uma clínica de aborto clandestina em Campo Grande por quase 20 anos, sobre a qual a cidade sabia, mas mantinha um acordo não falado para não denunciar. Até que em 2007, ocorreu uma operação policial que se tornou a maior da história do país em relação ao assunto, na Clínica Planejamento Familiar. Cerca de 10.000 prontuários de centenas de mulheres foram encontrados, tanto as que pagavam para realizar o procedimento, quanto as que eram oferecidas gratuitamente por Neide. Dois anos depois, em 2009, a médica foi encontrada morta. O livro O processo jornalístico preferido de Ângela é a apuração, ou seja, correr atrás dos fatos e envolvidos na história. O primeiro passo para a produção do livro foi buscar tudo que já havia sido feito academicamente sobre o processo, notícias, artigos, documentos. A partir daí, foram identificando os nomes envolvidos no caso, o que fez com que elas viessem para o estado já com entrevistas marcadas com o juiz, promotor e a irmã de Neide. Para as jornalistas, 2 fatores permitiram que elas conseguissem entrevistar os envolvidos de um caso tão delicado. O primeiro foi a humanização e sensibilidade com as fontes, lembrar que elas são pessoas reais. Abordá-las com cuidado, não ligando no horário de trabalho e nem falando diretamente sobre o caso, pois sabiam que existia a possibilidade das mulheres que viveram isso terem outra vida agora, com famílias que não sabem pelo que passaram. Segundo elas, uma das fontes mais difíceis de abordar foi a irmã de Neide. “Acho que principalmente a irmã, a gente ficou muito ansiosa se ela realmente ia aparecer, se ela ia topar falar com a gente. No fim, ela topou, a gente fez uma entrevista de umas duas horas, até tomamos um chopp com ela ”, explicam. “Tem esse processo também de você deixar a pessoa confortável e ela vai falando, já aconteceu comigo de várias pessoas que a princípio não querem falar e você vai dando uma amaciada ali, ela vai entendendo que você tem intenções sérias”, conta Carolina. O segundo fator foi a sorte. Um momento que as marcou foi quando foram para o bairro da clínica com uma lista de possíveis testemunhas, chegando lá, foram pedir informação para um senhor que estava de passagem. Coincidentemente descobriram que ele era uma das pessoas na lista e topou dar entrevista. Além das testemunhas e mulheres que frequentaram a clínica, as jornalistas também conseguiram contatos oficiais, foi assim que conseguiram o processo do caso que é fechado ao público. As jornalistas tentaram também contato com integrantes do movimento antiaborto, chegaram a passar 2 anos tentando uma entrevista com a senadora Damares Alves, que nunca aconteceu. O lançamento do livro ocorreu na Semana do Jornalismo na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e contou com a presença de estudantes e professores do curso de jornalismo, além de jornalistas já formados que trabalham em veículos do Estado e membros do sindicato. O livro Coreografia da Escolha: A Disputa pelo Aborto no Brasil pode ser encontrado nas livrarias pelo Brasil.
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