Diário do Rio de Janeiro
29/10/2026 11:30

Assessor de Talíria Petrone preso por suspeita de exploração sexual também chefiou gabinete de deputado do PSOL

Carlos Alberto Lúcio Bittencourt Filho, acusado de colaborar com rede suspeita de exploração sexual de menores - Reprodução

A prisão de Carlos Alberto Lúcio Bittencourt Filho, de 45 anos, durante uma operação contra uma rede suspeita de exploração sexual de adolescentes, revelou uma trajetória de mais de dez anos em cargos de confiança de parlamentares do PSOL. Até quarta-feira (28/10), quando foi detido pela Polícia Civil, ele integrava o gabinete da deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ). Antes, havia ocupado uma posição de chefia na equipe de outro integrante do partido, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

As informações sobre o histórico profissional do investigado foram levantadas pelo portal Tempo Real RJ, que identificou sua atuação em gabinetes parlamentares desde 2015. Naquele ano, Carlos Alberto passou a trabalhar com o deputado estadual Flávio Serafini (PSOL), chegando a exercer a função de chefe de gabinete. Em 2019, deixou a estrutura da Alerj e passou a integrar a equipe de Talíria na Câmara dos Deputados.

A passagem por diferentes cargos legislativos ocorreu paralelamente a uma carreira ligada à educação e à pesquisa. Formado em História, o assessor também trabalhou como professor e desenvolveu estudos acadêmicos sobre mineração, exploração de recursos naturais e impactos socioambientais.

No gabinete de Talíria, Carlos Alberto teve mudanças de nível funcional ao longo dos anos. Segundo o levantamento do Tempo Real RJ, sua remuneração mais recente era composta por R$ 13.453,04 de salário, além de R$ 1.860,44 de auxílio, somando R$ 15.313,48.

O nome do assessor passou a ser associado à investigação após a deflagração da Operação NXIVM, conduzida pela 74ª DP (Alcântara), que apura a atuação de um grupo suspeito de cometer violência sexual contra adolescentes na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Carlos Alberto Lúcio Bittencourt Filho, acusado de colaborar com rede suspeita de exploração sexual de menores
Carlos Alberto Lúcio Bittencourt Filho, acusado de colaborar com rede suspeita de exploração sexual de menores - Reprodução

Parlamentares se manifestam e PSOL encaminha caso à comissão de ética

A identificação de Carlos Alberto entre os presos provocou manifestações dos dois parlamentares com quem trabalhou.

Talíria Petrone informou que foi surpreendida pela investigação e determinou a exoneração do assessor. Em nota, a deputada repudiou qualquer forma de violência sexual, manifestou solidariedade às vítimas e defendeu que as suspeitas sejam investigadas com rigor e independência.

A parlamentar também ressaltou seu compromisso com os direitos de meninas e mulheres e afirmou que a apuração deve respeitar as garantias legais dos envolvidos.

Flávio Serafini, por sua vez, declarou que não mantinha vínculo profissional com Carlos Alberto havia mais de sete anos. Segundo o deputado estadual, durante o período em que o assessor integrou sua equipe, entre 2015 e 2019, não houve registros de condutas inadequadas.

Serafini também informou que a direção do PSOL levou o caso à comissão de ética da legenda e determinou o afastamento imediato do filiado das atividades partidárias.

Até o momento, não há informações de que Talíria ou Serafini sejam investigados ou tenham qualquer participação nos crimes apurados pela Polícia Civil.

Investigação envolve outro ex-assessor parlamentar e policial militar

O caso começou a ser investigado em julho, após uma denúncia de violência sexual envolvendo uma adolescente de 16 anos. A apuração levou à prisão de Matheus Rodrigues Gonçalves, que trabalhava no gabinete do vereador Professor Túlio (PSOL), em Niterói.

A análise de materiais obtidos pela Polícia Civil revelou indícios de que os episódios investigados não estariam restritos a um único suspeito. A partir de registros eletrônicos e outras evidências, os agentes passaram a investigar uma possível rede organizada para cometer abusos, registrar as agressões e ameaçar as vítimas com a divulgação das imagens.

Carlos Alberto é suspeito de manter contato com um dos investigados para solicitar vídeos dos episódios de violência sexual. A informação foi atribuída ao delegado Antônio Silvino, responsável pelo caso, em reportagem publicada pelo portal Enfoco.

As apurações também alcançaram um integrante da Polícia Militar, o terceiro-sargento Maurício Douglas Souza das Chagas Moura, de 35 anos, preso durante a operação.

A ofensiva policial teve como alvo endereços em Niterói, São Gonçalo e Maricá. Sete pessoas foram presas na quarta-feira, e outro mandado foi cumprido contra um investigado que já estava detido.

Os policiais continuam examinando documentos e equipamentos apreendidos para esclarecer a participação individual dos suspeitos e localizar possíveis novas vítimas.

Assessor também atuou na educação e em pesquisas acadêmicas

Além da atuação política, Carlos Alberto possui formação na área de História. Ele se graduou pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e concluiu mestrado e doutorado na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Suas pesquisas acadêmicas abordaram a atividade mineradora no Brasil, com atenção aos efeitos econômicos e sociais da exploração de minério de ferro.

Entre 2010 e 2015, trabalhou no Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), onde participou de projetos sobre o setor extrativo e o pré-sal. Também teve experiência como professor nas redes públicas municipal e estadual.

Na Assembleia Legislativa, sua atuação incluiu a participação na elaboração de um relatório sobre a Baía de Guanabara, em 2016, quando integrava o gabinete de Flávio Serafini.

A investigação criminal segue em andamento. As suspeitas atribuídas a Carlos Alberto e aos demais investigados ainda dependem de apuração e eventual julgamento. Não foi localizada, nas informações consultadas, manifestação da defesa do ex-assessor sobre as acusações.

Ana Clara Silva

Carioca, jornalista e flamenguista. Nessa ordem (às vezes não).

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