Breno Mello: do futebol porto-alegrense à fama internacional no cinema
Há quem acredite na ideia de que os caminhos da vida sejam regidos por uma trama de desfechos inescapáveis. Tudo estaria traçado antes do nascimento, cabendo ao indivíduo sabiamente preencher com seu livre-arbítrio os espaços entre início e fim. Alguns filósofos e dramaturgos da Grécia Antiga, por exemplo, partiam do pressuposto de que nem mesmo os deuses do Olimpo eram capazes de interferir nessa suposta força sobrenatural que hoje conhecemos por “destino”.
Para os adeptos de tal fatalismo, a biografia do porto-alegrense Breno Mello (1931-2008) é um prato cheio, com momentos que parecem obra de um inventivo ficcionista – ou divindade. Um percurso de altos e baixos, do guri negro, pobre e jovem operário ao atleta popular e celebridade instantânea do cinema internacional, a partir de um golpe de sorte cujos desdobramentos garantiram a seu protagonista retrato e moldura no catálogo das mais singulares trajetórias artísticas de sua época.
Um de cinco irmãos criados no Passo D’Areia deixou a escola na 1ª série, após a morte repentina do pai, passando a trabalhar na adolescência em uma fábrica de vidros no bairro São João, após breve momento como sapateiro. Em paralelo, o sonho de fazer do futebol um modo de sustento levaria o esguio atacante a progredir do varzeano Aimorés (que ajudara a criar) aos juvenis do Esporte Clube São José. Até passar em teste no Grêmio Esportivo Renner, aos 21 anos, após o serviço militar na 1ª Companhia de Guardas, no bairro Santana.
No clube fundado no bairro Navegantes por empregados da tecelagem de Antônio Jacob “AJ” Renner, o jovem negro de 1m78cm não esbanjou apenas simpatia nos gramados ou como funcionário do almoxarifado. Nada menos que 90 gols em 133 partidas de 1952 a 1956 fizeram dele um dos destaques (ao lado de Ênio Andrade, Valdir Joaquim de Morais e outros nomes) da jornada épica que resultou na conquista invicta do Campeonato Gaúcho de 1954, fazendo frente à dupla Gre-Nal.
“Relatos de colegas e imprensa apontam Breno como jogador habilidoso, ágil e de forte presença na área e ótimo cabeceio, chegando a vice-goleador da competição”, detalha o arquiteto Luis Carlos Macchi, coautor do livro G.E. Renner: o Cometa Eterno (2023). São também de sua iniciativa o site rennervive.com e, anexo a seu escritório na rua Câncio Gomes (Floresta), um memorial dedicado à agremiação – extinta pela empresa devido a questões orçamentárias, em 1959.
O camisa 8 do escrete gaúcho que obteve em 1955 o terceiro lugar no torneio de Seleções Estaduais flertou com o Corinthians até ser contratado por empréstimo para quatro amistosos do Timão em março de 1957 – dois gols não bancaram a permanência. De volta ao Renner durante um mês, acabou cedido ao Santos, estufando duas redes em seis duelos de maio a junho, mas sem futuro em um elenco no qual pedia passagem seu colega de pensão, um adolescente chamado Pelé.
Próxima parada: o Fluminense. Vendido em julho pelo clube porto-alegrense, Breno fez do período carioca algo muito maior que um acréscimo ao currículo esportivo, com 15 gols em 42 partidas até maio de 1959, a maioria pela categoria de aspirantes (também conhecida como “segundo quadro”): a Cidade Maravilhosa proporcionou ao rapaz de 27 anos, casado e pai de dois filhos, uma jogada cinematográfica, a partir de inusitada abordagem na rua por um desconhecido.
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