Diário do Rio de Janeiro
29/10/2026 13:30

O paciente não pode pagar o preço do aprendizado

Ricardo Cavalcanti - Divulgação

“Todas foram cobaias.” A frase que dá título à reportagem do G1 e do Fantástico sobre uma clínica investigada por mortes e mutilações em cirurgias plásticas no Rio expressa uma ruptura profunda de confiança. Quem procura atendimento entrega ao médico algo que não pode ser tratado como oportunidade de treinamento: a própria saúde.

As denúncias precisam ser investigadas, com apuração das circunstâncias e das responsabilidades. Mas o debate que provocam exige uma resposta desde já: como formar cirurgiões sem subordinar a segurança dos pacientes às necessidades do aprendizado?

A medicina depende da transmissão de conhecimento entre gerações. Nenhum cirurgião se forma apenas com livros, aulas ou vídeos. É necessário acompanhar casos, examinar pacientes, participar de procedimentos e aprender a tomar decisões. Essa necessidade, porém, impõe obrigações às instituições de ensino. A prática só cumpre sua finalidade educativa quando está organizada em torno do cuidado.

Supervisão não pode ser uma formalidade. Exige a presença de professores experientes, capazes de avaliar o preparo de cada médico, definir os limites de sua participação e intervir quando necessário. A autonomia deve resultar de competência demonstrada e avaliação contínua.

Antes de aprender como operar, o médico precisa compreender por que operar — e quando não fazê-lo. Deve reconhecer contraindicações, avaliar expectativas, discutir alternativas e entender que recusar um procedimento pode ser a decisão mais responsável. Também precisa identificar complicações e saber agir diante delas.

Essa formação não termina no centro cirúrgico. O pós-operatório integra tanto a assistência quanto o ensino. Acompanhar a recuperação, ouvir queixas e reconhecer sinais de alerta são responsabilidades que não podem desaparecer depois da alta.

A experiência de Ivo Pitanguy oferece uma referência importante para essa discussão. Professor titular do Instituto de Pós-Graduação Médica Carlos Chagas, ele associou ensino, desenvolvimento técnico e assistência à população menos favorecida. Seu trabalho na Santa Casa da Misericórdia do Rio ajudou a consolidar a dimensão social da cirurgia plástica, que abrange a reparação de lesões, a recuperação de funções e o cuidado com pessoas marcadas por doenças e traumas.

Na 38ª Enfermaria da Santa Casa, o serviço que dá continuidade a esse trabalho mantém atendimento a preços populares e atividades de formação. Essa combinação tem valor social, mas exige um princípio inegociável: ampliar o acesso deve preservar o rigor assistencial. A condição econômica de alguém jamais pode justificar menor proteção.

Também será instalado na 10ª Enfermaria da Santa Casa mais um serviço de cirurgia plástica e reconstrutiva para procedimentos de baixa complexidade. O setor está em obras e deve operar dentro de 90 dias.

Na experiência de formação de pós-graduados em medicina do Instituto Carlos Chagas, a relação entre prática e acompanhamento por professores médicos experientes é central. Essa responsabilidade precisa ser assumida por qualquer instituição que se proponha a ensinar: oferecer estrutura, selecionar docentes, avaliar os profissionais em formação e assegurar continuidade ao atendimento.

Também é indispensável transparência. O paciente deve saber quem participa de seu tratamento, qual é o papel de cada integrante da equipe e quem responde pelo cuidado. Consentimento não se resume a uma assinatura. Exige informação compreensível e liberdade para decidir. A concordância com a participação de médicos em formação não representa aceitação de falhas de supervisão.

Nenhuma cirurgia é isenta de riscos, mesmo quando corretamente indicada e executada. Justamente por isso, a formação deve preparar o médico para preveni-los, reconhecê-los e enfrentá-los.

Diante das denúncias no Rio, precisamos defender critérios claros de qualidade para o ensino e a assistência da medicina. O paciente não existe para viabilizar a formação do médico. A formação do médico existe para que o paciente seja bem cuidado.

* Os artigos de opinião publicados no DIÁRIO DO RIO são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a posição institucional ou a linha editorial do jornal. Sua publicação tem como objetivo promover o pluralismo de ideias, o debate democrático e a liberdade de expressão, não implicando endosso às opiniões apresentadas.

Ricardo Cavalcanti

Cirurgião plástico e chefe do Serviço de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva do Hospital Universitário dos Servidores do Estado da UNIRIO, diretor do hospital da Santa Casa da Misericórdia do Rio e presidente do Instituto Carlos Chagas.

📄 Contenido indexado automáticamente. No es de autoría de altabusqueda.com; los derechos pertenecen a su fuente: Diário do Rio de Janeiro.
Ver nota original ↗
🤖 Profundizá esta noticia con OIMA (IA)

¿Querés un resumen rápido de esta noticia, hecho por nuestra IA?

Respuestas de OIMA · IA, sobre esta noticia · Abrir OIMA Chat ↗
💬 0

Comentarios

También te puede interesar

Carioca em Dia 2026 oferece descontos de até 80% em dívidas no Rio
Diário do Rio de Janeiro
Descontos podem chegar a 80% sobre multas e juros por atraso - Foto: Divulgação/Prefeitura do Rio A Prefeitur…
Diária do quarto mais simples do novo Sofitel Ipanema passa de R$ 6 mil e bate preços do Fasano e do Fairmont
Diário do Rio de Janeiro
O empreendimento terá 172 quartos e suítes, além de spa, academia e uma piscina de borda infinita - Foto: Rep…
Medidas protetivas aumentam 22% no RJ, e Patrulha Maria da Penha terá reforço de policiais e viaturas
Diário do Rio de Janeiro
Imagem meramente ilustrativa - Reprodução A crescente demanda por proteção judicial de mulheres em situação d…
STF retoma julgamento dos royalties em 4 de novembro; Rio pode perder R$ 50,7 bilhões
Diário do Rio de Janeiro
Plataformas de petróleo fundeadas na Baía de Guanabara / Imagem meramente ilustrativa - Plataformas de petról…
Prefeitura de São João de Meriti realiza ação social para atendimento de pessoas em situação de rua
Diário do Rio de Janeiro
A ação de abordagem social ocorreu na Praça da Matriz com apoio de outras secretarias municipais - Fotos: Gil…
Mansão de R$ 18 milhões de Renato Aragão, no Recreio, é penhorada por dívida de IPTU de R$ 548 mil
Diário do Rio de Janeiro