FÉ Moradores tentam reaver imagens sacras furtadas há décadas em MG; Estado tem 1.600 bens perdidos
Era madrugada de 3 de maio de 1984 quando três imagens sacras, três coroas, um crucifixo e dois castiçais foram levados da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Conceição da Barra de Minas, antes chamada de Cassiterita, no Campo das Vertentes. Dias antes, dois homens desconhecidos haviam chegado à pequena cidade em uma brasília branca, com placas de São Paulo, e tentado comprar imagens religiosas pertencentes às igrejas locais. A oferta foi recusada pelo pároco da época. Cerca de dez anos depois, outras quatro esculturas desapareceram do templo. Mais de três décadas após o último furto, a ausência das peças ainda deixa marcas na pequena comunidade, que tem cerca de 3.500 habitantes. No altar, o vazio representa uma perda que vai além do valor financeiro ou histórico dos objetos: atinge a fé, a devoção e a memória coletiva dos fiéis e, até de quem não tem a mesma crença, mas se conecta com aquela história por viver na região.
Levantamento feito pela reportagem de O TEMPO na plataforma Sondar, banco de dados de bens culturais desaparecidos, como peças sacras e documentos históricos, desenvolvido pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), aponta que o Estado tem hoje mais de 1.600 bens desaparecidos. Além desses itens, o banco de dados mostra que 488 obras foram apreendidas e outras 186 devolvidas aos locais de origem. A plataforma reúne informações de diferentes órgãos, além do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), como o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), a Secretaria de Estado de Cultura, o Arquivo Público Mineiro (APM), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha) e o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).
Segundo o Iphan, obras de arte, objetos históricos, livros raros e manuscritos estão entre os itens mais visados para furtos e roubos, inclusive por quadrilhas com atuação internacional. Para enfrentar o problema, o Iphan mantém o Banco de Bens Culturais Procurados (BCP) e atua em colaboração com a Polícia Federal, a Interpol e a Receita Federal, já que as investigações de roubo e furto de bens culturais, assim como as ações diretas de recuperação desses bens, não são atribuições do Iphan.
Em Conceição da Barra de Minas, a tentativa de recuperar as peças desaparecidas também conta com a mobilização de moradores que preservam a memória dos furtos e ajudam a reconstruir os episódios. Foi a partir desses relatos, compartilhados pelos avós e por antigos moradores, entre eles a zeladora da igreja à época dos ataques, que o servidor público Matheus Teixeira, de 26 anos, começou a se interessar pelo caso. Natural do município, ele cresceu próximo à tradição católica e às irmandades religiosas das quais os familiares participavam. O interesse pelo patrimônio local, porém, deu lugar à inquietação diante da falta de iniciativas para recuperar as obras. Desde 2017, ele reúne documentos, fotografias e depoimentos de moradores para reconstruir os episódios e tentar localizar as peças. “Aquilo me chamava a atenção e me gerava um desconforto porque, até o momento, ninguém nunca tinha tentado fazer uma campanha para que retornassem esses bens”, conta.
O trabalho de Matheus ajudou a recuperar detalhes sobre os dois furtos. No episódio de 1984, a imagem de Nossa Senhora de Nazaré foi levada sem o Menino Jesus, que permaneceu na igreja. Onze anos depois, no segundo ataque, os Meninos Jesus das três imagens de roca furtadas também ficaram para trás. “Quando amanheceu, a zeladora, dona Rosária Mazinho, viu os Meninos Jesus no chão do gramado da capela. Foi aí que os moradores perceberam que a igreja tinha sido saqueada mais uma vez”, relata.
Apesar das investigações e de relatos sobre a recuperação de peças sacras furtadas em Minas Gerais, Matheus afirma que nunca houve confirmação de que os objetos de Conceição da Barra de Minas estivessem entre os bens apreendidos. Sem informações sobre o paradeiro das imagens, a busca passou a incluir também a preservação do que restou. Dois Meninos Jesus vinculados às imagens desaparecidas estão atualmente expostos no Museu Municipal Tomé Portes del-Rei, em São João del-Rei, para ampliar a visibilidade do caso. As peças permanecem no acervo de Conceição da Barra de Minas e ajudam a manter viva a história do patrimônio levado.
A ausência das imagens levadas, entretanto, permanece como uma ferida aberta para a comunidade. Os dois altares laterais, antes destinados a abrigar as esculturas, continuam sem suas imagens. A reposição, porém, esbarra na falta de recursos de um município com cerca de 3.500 habitantes, já que peças sacras têm custo elevado. Sem condições de substituir os objetos levados, os fiéis mantêm a esperança de recuperá-los. A mobilização conta com o apoio do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), que acompanha a campanha para dar mais força ao apelo pelo retorno do patrimônio.
Investigações levam à recuperação de objetos sacros furtados
Alguns casos, contudo, ainda obtém um final feliz. No início deste mês, a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) recuperou o manto e coroa de uma imagem religiosa, subtraídos de uma igreja em Barbacena. Na ocasião, a polícia também identificou os suspeitos. O inquérito segue em andamento.
No último mês de abril, a PCMG também recuperou diversos bens furtados de igrejas localizadas em Campo Belo e Cristais, incluindo imagens e objetos litúrgicos. O inquérito foi finalizado com o indiciamento de um homem, de 37 anos, por furto qualificado.
A instituição garante que atua em investigações sobre furtos e receptações de objetos litúrgicos e obras de arte sacras pertencentes a instituições religiosas. Em determinados casos, realiza, estrategicamente, o cruzamento de informações e levantamentos de inteligência, junto a outros órgãos para identificar eventuais grupos especializados nessas práticas criminosas.
A PCMG ressalta ainda que que informações sobre o comércio ilegal desses itens podem ser repassadas, de forma anônima, por meio do Disque-Denúncia (181) ou em qualquer Delegacia de Polícia, para contribuir com as investigações.
Desafio constante
Em nota, o Iphan afirmou que o tráfico de bens culturais é um desafio constante. O Instituto afirma que tem a atribuição de monitoramento e fiscalização do comércio de bens culturais no Brasil, que inclui análise de catálogos de leilões, fiscalização de bens postos à venda no comércio físico e online e eventuais apurações e sanções administrativas sobre os negociantes", informou.
Segundo o instituto, quando um bem cultural móvel tombado é furtado ou roubado, ele passa a integrar a Lista de Bens Culturais Procurados, para ser possível identificar e recuperar esse patrimônio e devolvê-lo ao seu local de origem. "Os colecionadores e compradores de objetos antigos devem consultar, regularmente, o Banco de Dados para evitar o envolvimento em crime de receptação do Patrimônio Cultural Brasileiro, roubado, furtado ou obtido por tráfico internacional de obras de arte", alerta.
A reportagem demandou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) sobre o impacto do furto de obras sacras para a fé católica e aguarda retorno.
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