As realidades paralelas e o “novo normal”
Bastou ser divulgado o resultado oficial do segundo turno para que se operasse, na grande mídia, uma reordenação brusca e sincronizada de narrativas. Já no dia seguinte, os principais jornais e portais se alinharam em torno do mesmo diagnóstico: a derrota de Flávio aposenta o bolsonarismo e abre espaço para uma nova liderança da direita, de preferência Tarcísio de Freitas.
O exílio político do candidato derrotado é tratado no mesmo tom. A dramática fuga forçada, segundo essa leitura, seria o golpe de misericórdia em um movimento em desagregação. Parece haver um esforço coordenado para consolidar rapidamente um “novo normal”, no qual vivemos uma democracia plena, as instituições funcionam normalmente e o país pode, enfim, voltar a respirar sem o fantasma do radicalismo.
Acho que não entenderam nada. Ou entenderam, mas fingem que não.
O primeiro grande erro dos analistas de plantão está na incompreensão das forças políticas em conflito. Da mesma forma que o lulismo não é sinônimo de esquerda, o bolsonarismo não é sinônimo de direita. Lula e a família Bolsonaro não são peças substituíveis em um tabuleiro burocrático. São fenômenos de massa essencialmente personalistas.
Essa ilusão de substituição ficou demonstrada nos meses que antecederam o primeiro turno, quando foi notável o empenho do sistema em emplacar uma terceira via. Tentou-se, de todas as formas, inflar as candidaturas de Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Augusto Cury e até de Renan Santos, além do próprio Tarcísio. O plano parecia factível nos gabinetes e nas redações, mas faltou combinar com o eleitorado: a direita orgânica e popular não aceita herdeiros por decreto.
Acredito que a tentativa precoce de aposentar o bolsonarismo pela via da desqualificação e do apagamento tende a fracassar mais uma vez. O resultado oficial das urnas, por si só, não tem o poder mágico de apagar as causas estruturais que levaram mais da metade do país a rejeitar o projeto governista já no primeiro turno.
O desfecho inesperado do segundo turno tampouco muda os fatores concretos que fizeram Flávio vencer o primeiro: a perda severa do poder de compra da população, o aumento alarmante da violência urbana, a má qualidade dos serviços públicos e a percepção difusa, mas profundamente enraizada, de que o STF age de forma parcial, extrapolando suas funções constitucionais em uma rotina de proteção aos amigos e censura e perseguição aos adversários. Justificada ou não, esta é a percepção de boa parte da sociedade – e, em política, percepção importa.
Não há qualquer sinalização institucional de que isso vai mudar. Ao contrário, a tendência é que todos esses fatores de insatisfação social se agravem nos próximos meses.
A tentativa de pintar o cenário atual com as cores da normalidade institucional esbarra, portanto, na crueza dos fatos. Vivemos objetivamente a seguinte situação: o principal líder da oposição se encontra incomunicável, em prisão domiciliar, e o principal candidato da mesma oposição, favorito em praticamente todas as pesquisas de intenção de voto, julgou necessário deixar o país antes de ter seu passaporte apreendido por ordem de um ministro do STF.
O que está no forno, pronto para ser servido à sociedade, é um bolo cuja receita combina ingredientes altamente explosivos
Não é preciso entrar no mérito jurídico dessas situações para constatar o óbvio: esta não é uma situação normal ou saudável em uma democracia que se pretenda plena. É preciso ser muito otimista — ou deliberadamente cego — para acreditar que um sistema político operando sob tamanha assimetria e tensão pode produzir alguma estabilidade duradoura. Isso sem falar no interminável inquérito das fake news, nos presos de 8 de janeiro, nos políticos e jornalistas no exílio e na relativização recorrente da liberdade de expressão, alimentando um ambiente de censura e autocensura que se dissemina por toda a sociedade.
Os próximos meses prometem ser bem feios. A euforia inicial de parte do eleitorado de Lula tende a passar bem depressa, engolida pela realidade prática de um país em severa crise econômica e moral. Neste aspecto, é um cenário semelhante ao segundo governo de Dilma, que foi reeleita após fazer promessas impossíveis e acabou sendo expelida pelo sistema.
O que está no forno, pronto para ser servido à sociedade, é um bolo cuja receita combina ingredientes altamente explosivos.
O primeiro ingrediente é o descrédito de metade da população em relação ao processo eleitoral. É compreensível: nesta eleição foram tolerados disparos em massa em grupos de whatsapp e outras estratégias digitais que na eleição passada foram rigorosamente proibidos; gastos governamentais estratosféricos em plena campanha, que também costumavam ser proibidos, foram tratados como pequenas estripulias; como cereja do bolo, a prorrogação extemporânea do horário de votação alimentou, inevitavelmente, a desconfianças (justificada ou não) de dezenas de milhões de brasileiros.
O segundo ingrediente é o descrédito em relação ao STF, um sentimento que tende a aumentar geometricamente se as investigações em curso avançarem de forma seletiva (acelerada contra opositores e devagar quase parando no caso dos aliados do poder) – e à medida que novas vagas na Corte forem preenchidas, a depender dos nomes indicados.
Por fim, entre todos os economistas sérios, como Marcos Lisboa, há o consenso de um colapso econômico à vista. O governo eleito se encontra em uma encruzilhada fiscal perigosa: ou tentará uma correção de rumos dolorosa e impopular através da austeridade – produzindo recessão e repetindo o estelionato eleitoral que marcou o início do segundo mandato de Dilma Rousseff – ou seguirá pelo caminho populista de dobrar a aposta na gastança irresponsável, acelerando a inflação, o desemprego e, consequentemente, a violência. A segunda hipótese parece mais provável.
Ou seja, o Brasil continua dividido, mas a fratura atual ultrapassa as divergências do passado. A diferença não está mais em interpretações diferentes da mesma realidade: o país vive duas realidades paralelas, separadas por uma fenda intransponível.
Em uma dessas realidades, já abraçada e reverberada pela grande mídia, o bolsonarismo termina após esta eleição, restando à oposição o caminho da domesticação sob uma nova liderança palatável ao sistema – a chamada “direita permitida”. Na outra realidade, vivida por milhões de cidadãos nas ruas e nas redes, o bolsonarismo sai desse processo ainda mais fortalecido, porque alimentado por uma engrenagem que – mais uma vez, napercepção dessas pessoas – jogou com cartas marcadas. Qual dessas duas realidades prevalecerá?
O certo é que o bolsonarismo não morreu. Ele apenas observa e aguarda, do outro lado da fenda, o colapso inevitável do "novo normal" que já começam a tentar impor.
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