AVC: SUS amplia tratamentos, mas acesso depende da região e do tempo de atendimento
LUIZA LOPES / Folhapress. O AVC (acidente vascular cerebral) é a causa de cerca de 7,3 milhões de mortes por ano no mundo, segundo a World Stroke Organization (Organização Mundial do AVC), associação médica internacional dedicada a reduzir o impacto global da doença. Para conscientizar a população sobre como evitá-la, o Dia Mundial do AVC é celebrado nesta quinta-feira (29).
O Sistema Único de Saúde (SUS) vem ampliando a oferta de tratamentos para o AVC isquêmico (AVCI), responsável por cerca de 85% dos casos no país. Apesar dos avanços, o acesso ainda varia conforme o local onde o paciente mora e a rapidez com que chega a um hospital preparado.
O AVCI ocorre quando um coágulo bloqueia o fluxo de sangue para parte do cérebro. Um dos tratamentos disponíveis é a trombólise, que dissolve o coágulo com medicamentos intravenosos.
O protocolo nacional prevê o uso do medicamento alteplase desde abril de 2012, em geral até quatro horas e meia após o início dos sintomas. Antes da aplicação, é indispensável fazer uma tomografia para diferenciar o AVCI do hemorrágico, causado pelo rompimento de um vaso e cujo sangramento pode ser agravado pelo medicamento.
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Apesar do aumento, a trombólise ainda é registrada em uma parcela pequena das internações por AVCI: a proporção passou de 1,5% em 2017 para 2,52% em 2024 e 2,71% no primeiro semestre de 2025. Os dados são de um estudo baseado no DataSUS, que analisou 1,66 milhão de internações entre 2017 e junho de 2025.
Outra opção é a trombectomia mecânica, indicada em casos de obstrução de grandes artérias cerebrais. O procedimento consiste em introduzir um cateter, geralmente por um vaso na virilha, até o local do bloqueio para retirar o coágulo e restabelecer a circulação.
A intervenção pode ser realizada até 24 horas após o início dos sintomas. A indicação depende de exames de imagem que localizam a obstrução e avaliam os danos cerebrais.
Os tratamentos não são excludentes: pacientes elegíveis podem receber trombólise e, em seguida, passar pela trombectomia. Outros podem ser encaminhados diretamente para o procedimento, conforme o quadro clínico e os resultados dos exames.
A trombectomia foi incorporada ao SUS em novembro de 2023. Desde então, o número de procedimentos registrados passou de 37, em 2023, para 1.026, em 2025, segundo o Ministério da Saúde. O aumento, porém, não significa que o tratamento esteja disponível em todo o país.
Um levantamento da Sociedade Brasileira de AVC (SBAVC) aponta desigualdades na oferta e afirma que o sucesso da incorporação não deve ser medido apenas pelo número de procedimentos realizados, "mas pela capacidade do sistema de oferecer essa chance ao brasileiro em todas as suas regiões".
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Centros especializados são desigualmente distribuidos
Segundo o CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde), o Brasil tem 129 centros de atendimento de urgência ao AVC habilitados pelo Ministério da Saúde. Do total, 56% (73) são privados sem fins lucrativos, 41% (52) são públicos e 3% (4) são privados com fins lucrativos.
O número não abrange todos os hospitais que atendem pacientes com AVC no país, mas apenas aqueles que cumprem critérios específicos de estrutura e equipe definidos pelo Ministério.
Para obter a habilitação, o hospital deve encaminhar o pedido por meio da secretaria municipal ou estadual de Saúde, com aprovação dos gestores regionais, além de comprovar que atende aos requisitos técnicos e aos protocolos clínicos.
A autorização permite acesso aos incentivos federais previstos para o serviço, conforme sua estrutura e capacidade de atendimento.
Para Michel Machado, coordenador do atendimento ao AVC no Hospital Santa Marcelina, em São Paulo, a quantidade de centros habilitados ainda é insuficiente para atender à demanda de pacientes com a doença, que é uma das principais causas de morte e incapacidade no país.
A distribuição também é desigual pelo território. O Sudeste concentra 42% (54) dos centros habilitados, seguido pelo Sul, com 39% (50); Nordeste, com 12% (16); Centro-Oeste, com 5% (7); e Norte, com 2% (2).
"Do ponto de vista geográfico, a população não está coberta de forma homogênea. Nem todos vivem em locais onde há um serviço preparado para atender ao AVC. Na prática, a possibilidade de receber o tratamento depende de onde a pessoa mora", afirma Frederico Alves, presidente da SBAVC.
Além disso, apenas 19 hospitais têm habilitação específica para realizar a trombectomia mecânica pelo SUS, sete deles (37%) em São Paulo.
A habilitação permite receber o financiamento federal previsto para o procedimento, mas não garante a cobertura de todos os custos.
A trombectomia exige uma sala de hemodinâmica, equipada com aparelhos de imagem que orientam a passagem de cateteres pelos vasos sanguíneos, além de materiais específicos e uma equipe de neurorradiologia intervencionista disponível continuamente.
Segundo Alves, o valor reembolsado pelo SUS é inferior à metade do custo real para os hospitais, o que dificulta a ampliação da oferta. Ele afirma que alguns estados complementam os recursos federais, como ocorre em São Paulo, enquanto outros dependem principalmente do financiamento da União.
Corrida contra o tempo
Mesmo quando há um serviço preparado, o paciente precisa chegar a tempo. A interrupção do fluxo sanguíneo pode causar danos permanentes às células cerebrais, e quanto mais rápido o tratamento, maiores as chances de preservar funções como fala e movimentos, afirma Alex Baeta, neurologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo.
"Ainda assim, algumas pessoas demoram a procurar ajuda porque não reconhecem os sintomas ou esperam que desapareçam", afirma Machado. Os sinais incluem fraqueza ou formigamento de um lado do corpo, boca torta e dificuldade para falar ou compreender. Também podem ocorrer alterações súbitas da visão e do equilíbrio.
Outros procuram primeiro uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) ou UBS (Unidade Básica de Saúde), que geralmente não dispõem de tomógrafo, essencial para confirmar o diagnóstico.
Nesses casos, a transferência para um hospital com os recursos necessários pode consumir um tempo precioso para o tratamento.
Por isso, diante de uma suspeita, a recomendação é acionar o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), pelo número 192. A central de regulação avalia o caso e orienta o encaminhamento para um serviço adequado, conforme a necessidade do paciente e a estrutura disponível na rede.
Protocolos podem reduzir atrasos
Alguns hospitais adotam estratégias para reduzir o tempo entre a chegada do paciente e o início do tratamento. No Hospital Santa Marcelina, por exemplo, unidades de pronto atendimento da região funcionam como pontos de encaminhamento de casos suspeitos. A mais distante fica a 16 km do hospital, segundo Machado. "A gente enxerga essas unidades como a porta remota do hospital", diz.
No Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP), pacientes de outras regiões do estado são encaminhados por meio da regulação estadual, que organiza transferências para serviços especializados. "Há uma equipe específica responsável por essa comunicação e pela organização das transferências, segundo os fluxos estabelecidos na rede", afirma a instituição.
Já o Hospital Municipal Dr. Moysés Deutsch, o M'Boi Mirim, gerido pelo Einstein Hospital Israelita em parceria com o Centro de Estudos e Pesquisas Dr. João Amorim, utiliza a plataforma JOIN para receber antecipadamente informações sobre pacientes encaminhados pelo Samu. Com isso, a equipe pode se preparar antes da chegada deles.
Segundo Alves, hospitais públicos e privados também têm adotado a tenecteplase, alternativa à alteplase para a trombólise.
Disponível comercialmente no Brasil para o tratamento do AVC desde abril, ela é administrada em uma única dose intravenosa, em poucos segundos, enquanto a alteplase exige uma infusão de cerca de uma hora. "Isso simplifica o fluxo de atendimento", diz.
A telemedicina também pode agilizar o tratamento. No HC-FMUSP, médicos que recebem pacientes na emergência podem discutir os casos em tempo real com neurologistas à distância, o que ajuda a acelerar as decisões clínicas. Segundo o hospital, o modelo é utilizado tanto em redes privadas quanto em serviços públicos, como os do estado de São Paulo.
Principais sinais de AVC
Confusão mental;
Alteração da fala ou compreensão;
Alteração na visão (em um ou ambos os olhos);
Dor de cabeça súbita, intensa, sem causa aparente;
Alteração do equilíbrio, coordenação, tontura ou alteração no andar;
Fraqueza ou formigamento em um lado do corpo (rosto, braço ou perna).
Caso qualquer um desses sintomas apareça, é fundamental ligar para o Serviço de Atendimento Médico de Urgência (SAMU - 192), Bombeiros (193) ou levar a pessoa imediatamente a um hospital para avaliação clínica detalhada. Quanto mais rápido for o atendimento, maior a chance de sobrevivência e recuperação.
O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.
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