Trump e assessores ajudaram Flávio Bolsonaro a fugir para os EUA, diz jornal
BRASÍLIA – O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) recebeu ajuda de funcionários do governo dos Estados Unidos para deixar o Brasil, viajar para Argentina e de lá seguir em um jato privado até Miami, na Flórida, onde chegou na quarta-feira (28/10) com sua família, após ser derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial brasileira.
O jato que os levou de Puerto Iguazú, na Argentina, até Miami foi providenciado por Jason Miller, funcionário de comunicação da Casa Branca. O jato voou, no fim da noite de terça (27/10), da Argentina para o Equador, onde abasteceu, e depois seguiu para Miami. Irmão de Flávio, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro manteve contato com Miller durante a operação. O plano foi colocado em prática na segunda (26/10).
Flávio decidiu acionar o irmão e funcionários de Trump depois que foi notificado pela Polícia Federal (PF) para entregar seus passaportes (comum, diplomático e italiano). A PF fez o pedido de ordem judicial ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes no bojo do inquérito em que Flávio é investigado com o advogado e empresário Willer Tomaz por suposta lavagem de dinheiro – Willer é suspeito de lavar mais de US$ 1 bilhão por meio de esquema envolvendo bets.
O magistrado concordou com a alegação de risco de fuga de Flávio, já que Willer deixou o Brasil em agosto, também em direção a Miami, e nunca mais voltou. Flávio não foi acusado formalmente de nada, muito menos havia mandado de buscas contra ele. Mas seu mandato termina em janeiro de de 2027. A partir de então, poderá enfrentar processos relacionados a esta e outras investigações criminais, como o que envolve o dinheiro para o filme “Dark Horse”, sem desfrutar de imunidade parlamentar.
Ainda na segunda-feira, Flávio Bolsonaro deu declarações públicas afirmando que entregaria os documentos e jamais deixaria o Brasil, pois ficaria seria líder da oposição a Lula. Mas o prazo acabou na manhã de terça (28/10), sem que ele entregasse os passaportes nem aparecesse publicamente. Ao mesmo tempo, a imprensa argentina noticiava que um jato o esperava em Puerto Iguazú, com destino a Miami.
A informação sobre o envolvimento do governo Trump na ida de Flávio para os EUA foi divulgada nesta quinta (29/10) pelo “New York Times”, o mais respeitado jornal dos EUA. Reportagem assinada por quatro jornalistas do veículo e outros cinco colaboradores diz que, após receberem visto de status temporário concedido por ordem de Trump, Flávio, a mulher e as duas filhas, de 12 e 14 anos, devem ganhar residência permanente.
Ainda na quarta, quando a família voava em direção a Miami, o presidente dos EUA afirmou que o político brasileiro recebeu uma “autorização especial” para entrar no país. “Nós demos a ele [Flávio] uma autorização para entrar no país, então veremos. Mas eu não vou me envolver. Foi uma eleição muito estranha, disso eu tenho certeza”, disse Trump na quarta, ao ser questionado sobre Flávio Bolsonaro nos EUA. Desde a derrota do aliado, Trump vem dando declarações ambíguas sobre a eleição brasileira. Até esta quinta, ele não havia reconhecido a vitória de Lula.
Após pousar em Miami, por meio de carta publicada em redes sociais, Flávio se autoproclamou “presidente legítimo” do Brasil. Depois recuou e declarou ser “legítimo líder”. Na mesma publicação, Flávio afirmou que deixou o Brasil porque enfrentava perseguição política e agradeceu a Trump e ao presidente argentino Javier Milei. Sem apresentar provas, alegou que a eleição foi fraudada.
Leia mais: Presidente do PL, Valdemar critica carta de Flávio Bolsonaro com teor golpista
Veja também: Após Flávio Bolsonaro se autoproclamar líder do Brasil, Nunes Marques reafirma vitória de Lula
Jason Miller recusou-se a comentar a apuração do “New York Times”, e a Casa Branca apenas reenviou as declarações públicas de Trump, que não abordaram o jato particular. O “Wall Street Journal” já havia informado sobre o envolvimento de Miller. Ele é aliado da família Bolsonaro e afirmou ter sido brevemente detido no Aeroporto Internacional de Brasília em 2021.
A ação ocorreu enquanto o então presidente Jair Bolsonaro fazia discurso diante de milhares de apoiadores na Esplanada dos Ministérios. Millier esteve em Brasília no fim de semana anterior para participar da conferência conservadora Cpac, organizada por Eduardo Bolsonaro. Miller é fundador do Gettr, criado para levar Trump de volta às redes sociais, após ele ser banido das grandes plataformas em função da promoção de tentativa de golpe de Estado nos EUA, depois da sua derrota para Joe Biden.
Flávio e família devem ganhar “green card” rapidamente
Com base em informações de autoridades norte-americanas, o “New York Times” diz que agentes de fronteira permitiram que Flávio e família entrassem nos EUA por meio de um mecanismo chamado “parole”, normalmente concedido “por razões humanitárias urgentes ou benefício público significativo”. Esse status permite que alguém permaneça nos país enquanto é “tratado como solicitante de admissão”.
Espera-se que Flávio Bolsonaro peça residência permanente nos EUA, o chamado “green card”, observa o “New York Times”. Normalmente isso acontece após a pessoa receber um visto de imigrante. O pedido de “green card” de Bolsonaro deverá ser processado rapidamente, de forma semelhante ao do seu irmão mais novo, Eduardo Bolsonaro, de acordo com o jornal norte-americano.
Eduardo mora no Texas, mantém laços com o governo Trump e recebeu residência permanente em julho. O processo costuma levar anos para a maioria dos imigrantes, mas ele recebeu “aprovação acelerada”, destacou o “New York Times”.
Eduardo se mudou com a família para os EUA em março do ano passado, dizendo que iria lutar por sanções ao governo e a autoridades brasileiras. Ele perdeu o mandato por extrapolar o número máximo de faltas e foi condenado por crime de coação no curso de processo, na ação sobre a tentativa de golpe de Estado, que culminou na condenação do seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Conselheiro de Milei e suposto agente dos EUA ajudaram Flávio
Um dos principais conselheiros de Javier Milei, Santiago Caputo atuou ativamente na operação que permitiu a Flávio Bolsonaro, a esposa, Fernanda, e suas duas filhas, a entrar na Argentina e pegar um jato privado para voar até os EUA, onde eles se autoexilaram.
A informação partiu dos principais veículos de comunicação da Argentina. Na quarta-feira, eles já tinham noticiado haver fortes evidência que Caputo esteve em Puerto Iguazú na noite de terça-feira, no mesmo momento que Flávio e família embarcaram em um jato com destino a Miami, nos EUA, com parada em Guayaquil, no Equador.
Nesta quinta-feira, o jornal “La Nacion” publicou reportagem mostrando, com documentos, que Caputo, após embarcar Flávio e família para os EUA, foi identificado por um veículo de controle da polícia da província de Misiones, onde fica Puerto Iguazú, enquanto viajava em uma van da Entidade Binacional Yacyretá, com licença diplomática.
A reportagem diz que tudo está no registro eletrônico da Unidade Regional IV da divisão de Segurança Viária da cidade de Capiovi, por onde a van passou às 2h50. O “La Nacion” diz que a polícia parou uma caminhonete Ford Ranger, na qual Caputo seguia pela Rota 12, vindo de Puerto Iguazú. O veículo era dirigido por Jorge Omar Waisman, que o controle de veículos identificou como “chefe de segurança” da Entidade Binacional Yacyretá.
A caminhonete, de cor branca, fazia parte de um comboio composto por uma Toyota Hiace, também branca, conduzida por Orlando Ignacio Palacios, que o controle viário identificou como assessor da Secretaria-Geral da Entidade Binacional. Santiago Caputo estava na Toyota Hiace. Ele se apresentou à polícia como consultor político e assessor do presidente Javier Milei.
Segundo o relatório policial ao qual o “La Nacion” teve acesso, Caputo exigiu que a polícia não o atrasasse durante a transferência. Sobre o grupo que viajava no caminhão, fontes ouvidas pelo jornal argentino definiram Waisman como um “amigo” do conselheiro de Milei. Waisman foi nomeado há poucos meses chefe de Segurança e Informação da Yacyretá.
Segundo fontes policiais, um dos ocupantes dos veículos se identificou como agente da DEA, o escritório antidrogas dos Estados Unidos. No entanto, não há documentação que comprove que ele realmente faça parte da agência. Até a publicação desta reportagem, agências dos EUA não reivindicaram qualquer envolvimento na saída de Flávio Bolsonaro do Brasil.
Ao “La Nacion”, Santiago Caputo negou ter sido identificado no controle de veículos. “De jeito nenhum, não sei do que você está falando”, respondeu primeiro. Mas, ao ser confrontado com detalhes sobre a operação, Caputo respondeu por mensagem de texto: “Mistério. Não faço ideia”.
Santiago Caputo, que não tem um cargo formal no governo, mantém comunicação direta com líderes do trumpismo nos EUA, alguns deles muito influentes na Casa Branca. Ele é sobrinho do ministro da Economia da Argentina, Luis Caputo, e tem um papel fundamental na influência de Milei em suas decisões políticas e discursos. Supervisiona diversas áreas do governo, incluindo a agência de inteligência e unidades de imigração.
Conselheiro publicou série de mensagens enigmáticas
Flávio e família embarcaram em um Gulfstream G400 da empresa Baires Fly, no fim da noite de terça-feira, com destino a Guayaquil, no Equador. O avião ficou no aeroporto de Puerto Iguazú da noite de segunda até 00h21 de quarta-feira, quando decolou com Flávio e sua família. Eles desembarcaram no fim da manhã de quarta, em Miami.
O jornal argentino “Clarín” disse que, fontes do governo argentino confirmaram que Caputo monitorou a operação desde a primeira hora, “quando empresas ligadas à Embaixada dos EUA contrataram, com a empresa argentina Baires Fly, um voo no modelo Gulfstream G400, matrícula LV-JQW”.
O “Clarín” e outros veículos argentinos lembraram que, nas 24 horas que antecederam a saída de Flávio da Argentina, Caputo publicou cinco mensagens no X supostamente sobre a fuga do Brasil do senador brasileiro. Eram ironias, imagens enigmáticas e críticas à cobertura da imprensa. Na primeira, às 10h43 de terça-feira, ele postou em seu perfil uma pintura do filme “O Grande Truque”, dirigido por Christopher Nolan.
O longa-metragem se passa na Londres do século XIX e gira em torno da rivalidade entre bruxos. Segundo o “La Nacion”, a chave para ler a mensagem do estrategista libertário parece estar em um dos truques realizados por um personagem: “O Homem Transportado”. Com isso, ele consegue se teletransportar em segundos e desperta a ânsia dos outros para decifrar como ele faz isso.
O conselheiro presidencial de Milei escreveu, também no X, três horas antes, sobre o Departamento de Migrações emitir um comunicado negando a entrada de Flávio Bolsonaro no país. No mesmo momento, o porta-voz presidencial, Adrián Ravier, limitou-se a afirmar que Flávio não havia pedido asilo na Argentina.
Àquela altura, a imprensa, tanto a brasileira quanto a argentina, citando fontes próximas à família Bolsonaro, afirmou que Flávio estava em um voo para os EUA. “Todo mundo escrevendo boatos baseados em boatos. Que bagunça a mídia argentina”, escreveu Caputo.
À 1h24 de quarta-feira, o conselheiro de Milei insistiu com sua crítica, após a operação bem-sucedida que permitiu a fuga de Flávio Bolsonaro, que às 22h50 cruzou para a Argentina pela Ponte Internacional Tancredo Neves, em direção ao aeroporto de Puerto Iguazú.
“A cobertura jornalística de hoje deve ter sido provavelmente uma das maiores confusões do jornalismo global da história. Eles disseram qualquer coisa. Eles retiraram o documento. Eles disseram de novo. Tudo com o mesmo nível de certeza e animosidade. Em todas as partes do mundo”, escreveu Caputo.
Já na manhã desta quarta, com os Bolsonaros fora do país, como seria confirmado depois, Caputo escreveu “bom tweet”, citando uma mensagem do jornalista Lucas Morando. Nele, ele afirmou que “o nível de desinformação no jornalismo tradicional é esmagador”.
“O que aconteceu hoje é incomum. Todos os jornais mais sérios do Brasil diziam que Bolsonaro já estava nos Estados Unidos. Que até tinham dado um visto para ele. E que o Departamento de Estado estava organizando tudo... The Washington Post, The New York Times confirmando as versões. INCRÍVEL. O cara estava vindo para Iguazú para pegar um voo particular”, diz o post de Morando que Caputo curtiu.
Nas últimas horas, Caputo também retuitou uma mensagem de Joey Mannarino, que se define como um “estrategista e comentarista político que trabalha com movimentos de direita nos Estados Unidos e na União Europeia”.
Em sua publicação, Mannarino afirmou que “Milei e Trump realizaram um feito absolutamente incrível ao extrair Flávio enquanto toda a polícia brasileira o procurava para prendê-lo por ordem de Lula. Trump e Rubio fizeram isso novamente. Desta vez com a ajuda da Milei”.
“Embora o governo ainda não tenha especificado qual papel desempenhou na fuga de Bolsonaro, Caputo, por meio deste retuíte, pareceu confirmar a participação do presidente Javier Milei no plano de fuga”, afirmou o “La Nacion”.
Dono de jatinho é ligado a Milei e investigado por lavagem de dinheiro
O jatinho que levou Flávio Bolsonaro e família da Argentina para os EUA na quarta-feira pertence a um empresário que já transportou Javier Milei e integrantes da sua equipe.
O Gulfstream G400 de matrícula LV-JQW é operado pela Baires Fly, de Luis Grande, que pilotou o avião que levou Milei aos EUA em novembro de 2023, poucos dias após a vitória dele na eleição presidencial argentina – sua primeira viagem internacional como presidente.
Na ocasião, Grande levou Milei em um Gulfstream V de matrícula LV-KAX, em um roteiro que incluía Nova York e Washington. O custo do serviço foi estimado em aproximadamente US$ 250 mil (cerca de R$ 1,25 milhão). Milei havia prometido que só se deslocaria em voos comerciais.
Além de Milei, estavam no avião a irmã dele, Karina Milei, o ministro da Economia, Luis Caputo, e outros integrantes de sua equipe, como Santiago Caputo e Nicolás Posse.
O empresário Gerardo Werthein, que assumiria a embaixada argentina em Washington, participou da organização financeira do voo. O pagamento provocou questionamentos na Argentina sobre a relação entre o empresário e o então presidente eleito.
Além de seu dono ter laços com Milei, a Baires Fly é alvo central de uma investigação da Justiça Federal de Buenos Aires sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo contratos de um órgão do governo argentino.
A Baires Fly aparece em operações financeiras investigadas em inquérito contra Sergio Mastropietro, empresário apontado como peça-chave em um esquema de superfaturamento na Agência Nacional de Deficiência (Andis) e sócio oculto da empresa, segundo o jornal argentino “La Nacion”.
O escândalo abalou a política argentina e levantou suspeitas sobre nomes próximos a Milei, como o ex-diretor da agência, Diego Spagnuolo, e a própria irmã e secretária-geral do presidente, Karina Milei. O caso ainda não foi concluído e segue em andamento na Justiça argentina.
Oposição de Milei exige explicações para a fuga de Bolsonaro
A fuga de Flávio Bolsonaro pela Argentina abriu uma nova frente de conflito para o governo de Milei no Congresso, destaca nesta quarta-feira o “La Nacion”, que é um dos principais veículos de comunicação do país.
Diferentes setores da oposição estão apresentando pedidos de explicações a três ministros para determinar se houve colaboração oficial do governo argentino na saída de Flávio para os EUA.
O episódio também ameaça complicar o tratamento do projeto de Defesa da Soberania Nacional, conhecido como a Lei Malvinas, que o partido governista busca aprovar na Câmara dos Deputados.
Os pedidos dos opositores apontam para o chefe do Estado-Maior, Diego Santilli; o ministro das Relações Exteriores, Pablo Quirno; e a ministra da Segurança, Alejandra Monteoliva, da qual dependem a Direção Nacional de Migração e a Polícia de Segurança Aeroportuária (PSA).
A controvérsia ganha maior dimensão devido à suposta presença de Santiago Caputo em Misiones quando o avião particular que transportava Flávio Bolsonaro e sua família decolou, segundo “La Nacion”.
O conselheiro presidencial é um dos principais promotores da Lei Malvinas e sua presença na província alimenta as suspeitas da oposição sobre uma possível colaboração do governo na fuga.
O episódio envolvendo Flávio explode apenas um dia após o partido governista obter apoio para essa iniciativa, com 60 assinaturas, destacou o “La Nacion”.
O texto cria um Conselho de Segurança Nacional e estabelece ferramentas para agir diante de ameaças sérias ou iminentes.
A possível participação de agências estatais na transferência de Flávio Bolsonaro poderia reforçar as questões da oposição sobre os novos poderes que o governo pretende estabelecer em questões de segurança nacional.
Ver nota original ↗
¿Querés un resumen rápido de esta noticia, hecho por nuestra IA?
