O Diário de SP
29/10/2026 18:00

PolíticaPF conclui primeiro inquérito do caso Master e indicia 15 pessoas

A Polícia Federal concluiu o primeiro inquérito sobre suspeitas envolvendo o Banco Master e indiciou o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e outras 14 pessoas por supostos crimes financeiros na venda de carteiras de crédito ao BRB (Banco de Brasília). A lista reúne executivos do alto escalão do Master e do banco público. O indiciamento é uma conclusão da investigação policial e não equivale a uma condenação, que depende de denúncia e de decisão da Justiça.

O relatório divide os indiciados em núcleos, cada um com uma função atribuída pela PF.

Núcleo estratégico. Vorcaro, dono do Master, é apontado como líder do esquema. Segundo a PF, ele estaria à frente da definição das diretrizes gerais, da articulação institucional entre o Master e o BRB e da coordenação dos demais núcleos. Está preso desde março de 2026 na Papuda, em Brasília. Sua defesa afirma que o relatório é “açodado e afoito” e “antecipa conclusões que a própria investigação admite ainda não ter alcançado”. Ao lado dele aparece Paulo Henrique Costa, que presidiu o BRB de janeiro de 2019 a novembro de 2025, por indicação do então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), e foi preso em abril. O advogado Davi Tangerino diz que a PF “submeteu os fatos às hipóteses acusatórias, quando deveria fazer o inverso” e sustenta que mensagens e testemunhos mostram que Costa não sabia das fraudes nas carteiras.

Núcleo executivo-financeiro. Integram o grupo Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro e dono do Banco Pleno, liquidado pelo Banco Central em fevereiro; Angelo Silva, diretor do Master; Luiz Antonio Bull, diretor de contabilidade; e Alberto Félix de Oliveira Neto, superintendente de tesouraria. A PF aponta Silva e Bull como signatários de instrumentos entre o banco e a Tirreno, empresa que a investigação considera de fachada, e Félix como signatário do contrato de parceria. Lima e Bull chegaram a ser presos em novembro de 2025, na primeira fase da Operação Compliance Zero. A defesa de Lima, que não se manifestou sobre o indiciamento, já afirmou que as operações investigadas são posteriores à sua saída do Master, em maio de 2024. A advogada de Silva nega participação nos fatos. Em depoimento em janeiro, Félix ficou em silêncio e disse apenas que não tinha poder de deliberação e cumpria ordens. Também está nesse grupo Dario Garcia Junior, diretor de finanças e controladoria do BRB, afastado em novembro de 2025. Sua defesa já o descreveu como “uma vítima disso tudo”.

Núcleo operacional. Allan Machado, gerente de operações bancárias do Master, é o único citado nesse grupo. Segundo a PF, ele coordenou a montagem das carteiras destinadas ao BRB, a geração de documentos como CCBs e procurações e a produção dos lastros atribuídos à Tirreno.

Núcleo de interposição empresarial. Henrique Peretto, proprietário formal da Tirreno, e André Maia, ex-funcionário do Master e diretor da empresa, são apontados como responsáveis por dar aparência de regularidade às operações. A perícia indica que a Tirreno vinha de uma empresa de prateleira, sem estrutura, empregados ou patrimônio, e que teve o capital social elevado de R$ 100 para R$ 30 milhões. O Master adquiriu créditos de dívidas da empresa “sem realizar qualquer pagamento” e os revendeu ao BRB.

Núcleo jurídico. Daniel Monteiro, advogado do Master e sócio do escritório Monteiro Rusu Advogados, é apontado como responsável pela sustentação documental do esquema. Foi preso em abril na Compliance Zero, e o Ministério Público Federal disse, na época, que ele teria obtido ao menos R$ 86 milhões em proveito próprio. A defesa afirmou que sua atuação foi estritamente técnica.

Diretores do BRB. Luana Ribeiro, Cristiane Bukowitz, Diogo Oliveira e José Maria Correa Dias Júnior, diretores-executivos do banco público, também foram indiciados. A PF diz que Luana aderiu às compras mesmo reconhecendo os riscos e que sua agenda continha anotação de que o então presidente teria determinado a aquisição de carteiras para salvar o Master. Quanto aos outros três, o relatório não aponta atuação direta na proposição ou execução do esquema, mas registra presença em deliberações que aprovaram as operações sem oposição registrada. A PF afirma que a vinculação de José Maria ao caso “deve permanecer delimitada às deliberações das quais participou”. Diogo e José Maria foram destituídos em abril, e Luana e Cristiane foram afastadas em setembro, segundo a reportagem.

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