Os Estados Unidos e a eleição brasileira

Trump deu várias declarações sobre a eleição brasileira, mas não afirmou que considera Flávio Bolsonaro o verdadeiro vencedor. (Foto: ChatGPT sobre foto de White House Press Office)
À medida que o tempo passa, o Brasil vai conhecendo mais detalhes sobre a operação que tirou Flávio Bolsonaro do país, levando-o para os Estados Unidos com escalas na Argentina e no Equador. Também vão surgindo os elementos que indicam a colaboração dos governos argentino e norte-americano: segundo o Wall Street Journal, a entrada de Flávio e sua família nos EUA foi autorizada pessoalmente por Donald Trump, e o secretário de Estado Marco Rubio providenciou os vistos.
O presidente norte-americano tem feito algumas declarações pouco conclusivas sobre a eleição brasileira. Disse que foi “muito estranha”, “uma vergonha” e “um grande constrangimento”; chegou até a afirmar que ela “pareceu fraudada”, mas ao mesmo tempo não deu indícios de que pretende negar o reconhecimento da vitória de Lula, ou considerar Flávio Bolsonaro o legítimo vencedor do pleito. “A Casa Branca deu poucos sinais de que pretende ir além de oferecer refúgio a Bolsonaro”, afirmou o WSJ, mas algumas das falas de Trump parecem ter o condão de alimentar, entre os brasileiros, uma certa esperança sobre uma virada de mesa vinda de fora. Esperança que deveria ser abandonada o quanto antes: ainda que Trump tenha com Flávio a mesma proximidade que parece ter com o ex-deputado Eduardo Bolsonaro e outros opositores de Lula radicados nos EUA, é preciso ter a convicção de que a solução para nosso regime disfuncional não virá de fora.
Ainda que Trump fosse um super-herói da democracia, seria descabido que a oposição brasileira colocasse toda a esperança de normalização democrática do Brasil na intervenção de uma potência estrangeira
Em primeiro lugar, porque Trump está muito longe de ser confiável. Ele é guiado fundamentalmente pelos próprios interesses e não se esforça muito para disfarçar sua admiração por autocratas como Vladimir Putin ou Xi Jinping. Na América Latina, o caso venezuelano mostra que ele não vê problema em manter ditadores de esquerda no poder, desde que lhe entreguem o que deseja. E os brasileiros já tiveram uma demonstração da volatilidade do norte-americano quando ele retirou Alexandre de Moraes da lista da Lei Magnitsky, ainda que os motivos alegados para incluí-lo na relação de sancionados não tivessem desaparecido – muito pelo contrário.
Mas, ainda que Trump fosse um super-herói da democracia, uma mistura de Ronald Reagan com Winston Churchill, seria descabido que a oposição brasileira colocasse toda a esperança de normalização democrática do Brasil na intervenção de uma potência estrangeira, seja pela repetição de sanções econômicas e “tarifaços” que prejudicariam muito mais o setor produtivo nacional que o governo propriamente dito, seja por algo ainda pior, como uma ação militar. Bem sabemos que Lula, o PT e o Supremo, aliados na autocracia e na proteção mútua, jogam sujo – a perseguição ao candidato derrotado é apenas o mais recente de muitíssimos episódios, vários deles tão ou até mais graves, a julgar pelas vidas perdidas e famílias destruídas pela juristocracia. No entanto, o papel da comunidade internacional, quando finalmente se der conta do arbítrio em que vivemos, é o da pressão diplomática, enquanto as forças democráticas brasileiras se articulam para resistir com as ferramentas que ainda temos à disposição.
Como já afirmamos anteriormente, não é uma cavalaria em branco, azul e vermelho que salvará o Brasil e devolverá a democracia ao país, mas o trabalho árduo feito por aqui, no parlamento e na opinião pública, que acorde os brasileiros para a gravidade do momento que vivemos e os faça reagir para reparar o estrago causado – inclusive com a conivência ou o aplauso de muitos deles. Há muito trabalho a fazer, a começar pela articulação para eleger um presidente do Senado que, ao contrário do pusilânime Davi Alcolumbre, coloque para andar os processos de impeachment de ministros do Supremo; e um presidente da Câmara que, ao contrário do pusilânime Hugo Motta, instale a CPI do Abuso de Autoridade. Que se denuncie no exterior, sem cessar, a juristocracia brasileira; é o que fizeram tantos outros perseguidos políticos, de tantos outros países, ao longo da história. Mas não percamos de vista que o fim do nosso regime autocrático terá de vir de dentro, não de fora.
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