Lula: “Desviar dois ou três milhões de votos neste país é mais fácil que tirar pirulito de criança”

Lula em 1994: uma eleição ilegítima. (Foto: Reprodução)
Não estou inventando nada. Foi há 32 anos, em 1994. Numa entrevista à rádio CBN, e antes mesmo de perder para Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno, Lula disse que “desviar dois ou três milhões de votos neste país é mais fácil que tirar pirulito de criança”. Se pela primeira vez na vida ele estava falando a verdade eu não sei. Nunca tentei tirar pirulito de criança. Tampouco me deixei corromper nem lavei dinheiro. Não faço ideia, portanto, da dificuldade dessas coisas. Na época, Lula também reclamou do normógrafo, um treco usado para ajudar os analfabetos a votarem, e do uso da máquina pública por parte de FHC.
O mundo dá voltas, como se diz. Em outra reportagem da mesma Folha de S. Paulo onde encontrei essa declaração linda e perfeita para figurar como título da minha coluna de hoje, Lula disse que as denúncias de fraude eleitoral fariam com que o governo de FHC tivesse “menos autoridade moral do que alguém eleito com base num processo totalmente limpo”. Lula falando em autoridade moral advinda de um processo eleitoral duvidoso. Hahaha. Só rindo mesmo. No mesmo ano, Lula “escreveu” um artigo para a revista espanhola Cambio 16. O título do artigo? Una Elección Ilegítima. No artigo, Lula reclamava de documentos apócrifos que estariam associando os militantes do PT ao tráfico de drogas.
Fraude!
Em 1998, nova derrota de Lula para FHC. No primeiro turno. E mais declarações do tipo que hoje podem render exílio ou cadeia. Naquele ano, Lula falou menos e as acusações de fraude foram feitas, ainda durante a campanha, por José Dirceu e até Romero Jucá. Lembram dele? No jornal PT Notícias, do Diretório Nacional do partido, Lula se disse preocupado e solicitou providências para evitar que “6,4 milhões de eleitores-fantasmas” alterassem o resultado eleitoral. A matéria falava em domicílios eleitorais duplicados e cidadãos falecidos ainda registrados como eleitores.
Trago essas declarações todas porque, primeiro, fala sério! A declaração que serve de título para esta coluna é do balacobaco. Depois porque esse papo de fraude, seja nas urnas ou no processo eleitoral, não é novidade. E, por não ser novidade, não deveria ser visto como algo escandaloso. Sempre houve denúncias de fraudes eleitorais. É normal! O que não é normal é querer calar — e ainda mais à força — o esperneio. Por fim, é para você ver como o grito de “fraude!”, por mais verossímil que pareça, é sempre muito mais fácil (e emocionalmente satisfatório) do que tentar compreender a realidade, em todas as suas complexíssimas nuances.

Paulo Polzonoff Jr.
Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.
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