MÚSICA "Recife me acolheu bem": Djavan relembra começo na cidade, onde celebra 50 anos de carreira com show
Antes de conquistar o Brasil, Djavan viveu no Recife por um ano e meio (Foto: Priscila Prade)
Aos 16 anos, Djavan precisou escolher entre a farda militar que sua mãe desejava e o violão. No fim das contas, o alagoano buscou abrigo no Recife apenas com o instrumento debaixo do braço. Escondido em uma pensão no bairro de Casa Amarela, um jovem e anônimo Djavan encontrou o ambiente perfeito na efervescência cultural recifense para lapidar suas primeiras composições após romper com a família.
É por isso que o seu retorno à capital pernambucana neste sábado (31), a partir das 21h, no Classic Hall, vai muito além de um compromisso de agenda. O show marca um reencontro afetivo com a cidade através da turnê “Djavanear 50 anos. Só Sucessos”, reunindo os clássicos que consagraram suas cinco décadas de carreira. Os ingressos estão esgotados.
A lembrança daquela época traz à tona um misto de insegurança e profunda saudade de um menino que, movido pela paixão absoluta pela arte, decidiu contrariar o desejo da família. “Eu já tinha a música na cabeça de maneira total e não conseguia pensar em outra coisa. Foi um momento muito difícil”, recorda o artista em entrevista ao Diario.
Apesar das dificuldades do início, a temporada de um ano e meio em Pernambuco acabou sendo crucial para a sua formação profissional e pessoal. “Não consigo deixar de considerá-lo um período importante da minha vida. Recife me acolheu bem nessa fase”, completa.
O repertório deste sábado passará a limpo a trajetória de Djavan, incluindo seu disco de estreia, “A Voz, o Violão, a Música de Djavan” (1976), como a clássica “Flor de Lis”. O arranjo original deste trabalho, porém, é visto com ressalvas pelo próprio cantor, por apresentar uma sonoridade purista que ainda não traduzia a complexa mistura de ritmos e harmonias inovadoras que mais tarde se tornaria sua marca registrada.
Responsável pelo direcionamento, o produtor Aloysio de Oliveira selecionou apenas oito sambas entre as 60 composições enviadas em fita pelo alagoano. “Me causou uma estranheza e um certo desconforto porque eu queria mostrar a diversidade do meu trabalho”, descreve Djavan.
Mais tarde, ele percebeu que Aloysio de Oliveira buscou extrair essa mesma diversidade na essência dos sambas escolhidos. "Como a formação dele era na Bossa Nova, acabou dando um destaque maior para eles. Mas eu já era diverso naquela época e queria mostrar o quanto. Sempre achei, como acho até hoje, que a diversidade na música é essencial”, afirma.
Para fazer as pazes com esse passado e celebrar suas cinco décadas de estrada, o cantor lançou recentemente uma edição especial e comemorativa de “A Voz, o Violão, a Música de Djavan”. O álbum de estreia foi totalmente remixado e remasterizado a partir das fitas originais, trazendo como grande novidade faixas bônus gravadas apenas em voz e violão.
Para “djavanear” em completo, o setlist oferece um panorama completo da carreira de Djavan e empilha clássicos como “Sina”, “Oceano”, “Um Amor Puro”, “Se…”, “Eu Te Devoro”, “Samurai” e “Açaí”. Djavanear, aliás, é um neologismo que nasceu de um dos episódios de reciprocidade mais célebres da MPB.
Tudo começou em 1982, quando o alagoano compôs “Sina” e inventou o verbo “caetanear” para homenagear o amigo Caetano Veloso. Depois, Caetano decidiu retribuir o carinho. “Quando fomos cantar juntos, ele devolveu também o verbo com ‘djavanear’”, relembra.
Além da força desse cancioneiro, a experiência do show se consolida com o conceito visual criado por Gringo Cardia, responsável pela direção artística, cenografia e iluminação especial do espetáculo. No comando de voz, violão e guitarra, o artista sobe ao palco muito bem acompanhado por um time de músicos experientes: Felipe Alves, Marcelo Mariano, Torcuato Mariano, Paulo Calasans, Renato Fonseca, Jessé Sadoc, Marcelo Martins e Rafael Rocha.
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