Data centers e o próximo mapa tecnológico do Brasil
A atração de data centers pode abrir uma nova etapa de desenvolvimento para o Brasil. Para aproveitar essa oportunidade, porém, o país precisa conectar três agendas: infraestrutura digital, produção de conhecimento e oferta de energia confiável.
A regulamentação do Redata, o regime de incentivos tributários para data centers, definirá como cumprir as exigências de energia renovável ou de baixa emissão e de investimento em pesquisa previstas na lei. A decisão de reconhecer ou não o gás natural como fonte de baixa emissão afetará a viabilidade dos investimentos e as condições de diferentes regiões atraírem essa indústria.
Um data center precisa de eletricidade continuamente. Contratar um volume anual de energia renovável equivalente ao consumo não assegura, sozinho, o fornecimento a cada hora. Garantir esse abastecimento exige flexibilidade para compensar as variações da geração eólica e solar e potência firme para sustentar a operação em períodos prolongados de baixa oferta renovável. Hidrelétricas com reservatório ajudam a compensar as oscilações, mas perdem capacidade de atendimento durante secas. Baterias oferecem resposta rápida, mas a autonomia dos sistemas hoje mais difundidos é de poucas horas.
Nas condições atuais do Brasil, o gás natural é a alternativa mais consistente para ampliar esse suprimento firme e flexível em grande escala. As usinas a gás usam tecnologia madura, ajustam sua produção à necessidade do sistema e, com combustível assegurado, podem manter a geração por períodos prolongados, sem depender diretamente de chuvas, vento ou sol. A comparação ambiental precisa considerar alternativas viáveis para prestar esse mesmo serviço. O gás emite menos CO₂ na combustão do que as alternativas técnica e economicamente viáveis para geração firme e flexível, como o carvão e os derivados de petróleo.
O Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 indica 11,7 gigawatts de expansão de térmicas flexíveis a gás até 2035 e projeta crescimento de 95% da produção líquida nacional do combustível entre 2025 e 2035. A chegada dos data centers abre uma oportunidade de planejar conjuntamente a localização desses grandes consumidores e os investimentos em transporte de gás e geração necessários ao seu abastecimento.
Cada região parte de uma situação diferente. Onde a conexão à rede elétrica é limitada ou depende de obras demoradas, aproximar a geração a gás dos data centers pode reduzir a necessidade de novas instalações de transmissão e aproveitar a infraestrutura local de suprimento.
Amazonas, Sergipe, Maranhão, Paraná, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro encaminharam cartas ao governo federal defendendo a inclusão do gás no abastecimento dos projetos do Redata. Esses estados reúnem, em diferentes combinações, produção, potencial de oferta e infraestrutura de transporte, geração e acesso ao comércio internacional de gás. São candidatos naturais a receber essa nova indústria, e sua mobilização amplia o apoio político ao aproveitamento dessas condições. A convergência entre quatro regiões do país revela também uma questão territorial: os critérios do programa influenciarão quais estados poderão transformar seus recursos energéticos e sua infraestrutura em oportunidades de desenvolvimento tecnológico.
Sergipe quer aproveitar sua infraestrutura de geração e o terminal de importação de gás já em operação para receber um complexo de data centers com capacidade projetada de até 1 gigawatt. O Amazonas, que já produz gás, aponta a combinação desse recurso com renováveis e armazenamento como caminho para superar limitações da rede elétrica.
Para esses estados, o reconhecimento do gás como fonte de baixa emissão significa poder disputar essa indústria com os recursos de que já dispõem. O abastecimento poderá ser integralmente a gás ou combinar essa fonte com renováveis, conforme os custos e as condições locais.
A oportunidade para essas regiões vai além da instalação dos data centers. Está também na formação de empresas capazes de desenvolver aplicações de inteligência artificial e conquistar mercados. É a questão levantada por Allan Kardec neste Poder360 ao distinguir a atração de data centers da produção de inteligência.
A lei do Redata estabelece, como regra geral, investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação equivalentes a 2% do valor dos produtos adquiridos com os benefícios do regime. Prevê também acesso à computação, inclusive por cessão gratuita a instituições científicas, e determina que pelo menos 40% dos recursos de pesquisa sejam aplicados em programas e projetos destinados ao Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Essas contrapartidas podem sustentar parcerias entre operadores de data centers, universidades e empresas nas regiões contempladas.
Os acordos de pesquisa devem permitir que as equipes explorem comercialmente os resultados e prever as condições de acesso à computação depois do projeto inicial. Isso dá às equipes meios para aperfeiçoar suas tecnologias e levá-las ao mercado.
No Amazonas, um serviço de monitoramento da degradação florestal que combine imagens de satélite e conhecimento de campo poderia atender gestores públicos e empresas, no Brasil e no exterior. Em Sergipe, a experiência na indústria de petróleo e gás pode orientar o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial para interpretar dados do subsolo e melhorar o aproveitamento de reservatórios. Essas tecnologias ajudariam a reduzir as incertezas na busca de novas reservas e a aumentar a recuperação das já conhecidas, abrindo mercado para empresas brasileiras em outras regiões produtoras do mundo.
Ao regulamentar o Redata, o Brasil ainda pode influenciar como essa indústria se organizará no país. Soluções de abastecimento ajustadas às condições locais podem viabilizar novos polos de processamento; os recursos de pesquisa e o acesso à computação podem ajudar a desenvolver empresas de tecnologia a partir deles. Regiões que hoje entram nessa disputa por sua oferta de energia poderão, no próximo ciclo, apresentar também empresas e tecnologias próprias.
* Aurélio Amaral é diretor-executivo de Relações Externas e Comunicação da Eneva
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