Fonteles ou Boulos: Qual será o rumo fiscal de Lula 4?
Rafael Fonteles (PT) e Guilherme Boulos (PSOL) (Fotos: Ricardo Stuckert/PR)
Lula venceu sem falar das decisões difíceis que o Brasil precisa tomar. Prometeu Pé-de-Meia para universitários, expansão do Minha Casa Minha Vida, Pix MEI e outras bondades, sem nunca dizer como pagaria a conta. Passada a campanha, segue sem explicar.
Durante meses, o presidente repetiu que no seu governo "não tem essa de ficar discutindo ajuste fiscal". Diante das cobranças sobre o rumo das contas públicas na sabatina do Jornal Nacional, evocou com irritação os resultados da sua primeira gestão, quando escalou a dupla Palocci e Meirelles para a economia. Disse que aprendeu responsabilidade fiscal com a sua mãe, Dona Lindu. E que não aceitava ser cobrado como se não já tivesse feito gestões responsáveis.
Só que as presidências de Lula tem duas encarnações econômicas: a responsável, de gastos controlados, do primeiro mandato; e a irresponsável, de ampliação descontrolada de gastos, dos mandatos 2 e 3, além do apadrinhamento do desastre dos governos Dilma no meio. Não é sem razão, portanto, a resposta do mercado, inquieto e preocupado desde a queda de 13,88% da segunda-feira, a maior desde 2020, com direito a circuit breaker. Qual será, afinal, a encarnação do mandato derradeiro? A incerteza aumenta a desconfiança. E as especulações.
Duas teses opostas disputam o ouvido do presidente. A primeira está associada ao vice-presidente Geraldo Alckmin e a Rafael Fonteles, governador reeleito do Piauí, ex-secretário da Fazenda do estado, matemático de formação e considerado uma liderança promissora para a renovação do PT. Ambos são representantes da ala fiscalmente responsável, que defenderia um ajuste fiscal de partida para construir espaço viável para a realização de entregas mais ousadas ao longo do governo.
A segunda tese é mais tradicional no PT, vocalizada nesta quinta por Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral: "Quem está defendendo que Lula faça ajuste fiscal, cortando gastos em políticas sociais, não entendeu nada do que foi essa eleição", escreveu. Boulos não é cotado para a pasta da Fazenda, mas representa a resistência que teria de ser enfrentada pelo presidente caso escolha modificar o rumo fiscal em relação ao atual governo.
Eis o dilema. Se Lula seguir a retórica de palanque e ampliar gastos sem fonte, confirma o temor da trajetória insustentável das contas, podendo piorar o ambiente econômico para o endividamento e custo de vida das famílias. Se fizer o ajuste que desdenhou na campanha, repete o estelionato eleitoral de Dilma 2, que anunciou Joaquim Levy na Fazenda após uma campanha de negação da necessidade de ajustes.
Uma coisa precisa ficar clara: a falta de ajuste recai sobre os mais pobres, que perdem poder de compra. Só que o presidente não explicou nada disso na campanha, e sua militância não aceita essa tese. O que fará, então? Escolherá um ministro que acalma o mercado ou um discurso para acalmar a militância? E se tentar fazer os dois ao mesmo tempo, quem vai acreditar?
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