O Povo
30/10/2026 07:30

Pecém recebe R$ 391,4 bilhões em investimentos e se fortalece como polo nacional

Economia

A lista de empreendimentos em instalação, feita pela Cipp SA a pedido do O POVO, reúne projetos logísticos, de energia e processamento de dados com impacto direto na economia do Brasil

Por Armando de Oliveira Lima

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Atualizado às 06:25, 30/10/2026 | Publicado às 06:24, 30/10/2026

Empreendimentos estão em diferentes estágios de instalação no Pecém
Empreendimentos estão em diferentes estágios de instalação no Pecém Crédito: FCO FONTENELE

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O s próximos anos se projetam como uma nova temporada de crescimento para o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp). O principal polo de desenvolvimento econômico do Ceará é alvo de projetos de diferentes portes e setores que somam R$ 391,4 bilhões em investimento e consolidam a região como uma das mais promissoras do Brasil.

A lista de novos empreendimentos, feita pela Cipp SA a pedido do O POVO, justifica a projeção. Localizada entre os municípios de Caucaia e São Gonçalo do Amarante, a cerca de 60 quilômetros de Fortaleza, a área reúne a economia do século XX e a do século XXI, como aponta o economista Paulo Guimarães, sócio-fundador e diretor da Ceplan Consultoria Econômica e Planejamento.

Entre os empreendimentos do século XX estão o terminal de granéis líquidos e tancagem de combustíveis da Dislub Equador, o Terminal Logístico de Integração com a Ferrovia Transnordestina da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), o Terminal de Gás Liquefeito de Petróleo da parceria entre a Ultragaz e a Supergasbras Energia e o Projeto Jandaia de um complexo de energia térmica a gás natural da Eneva.

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Fazem parte dos classificados como economia do século XXI o data center da brasileira Omnia, que abriga na primeira fase os dados da ByteDance — a controladora do TikTok —, e o data center da francesa Voltalia.

O efeito imediato da instalação de todos, avalia Guimarães, é fazer com que o Porto do Pecém ultrapasse o Porto de Suape (PE) e se torne o segundo em movimentação de cargas do Nordeste, atrás apenas de Itaqui (MA) — cuja movimentação de minério faz dele um caso "fora de série para a Região".

Impacto econômico

Quando se observa o impacto econômico dos investimentos feitos no Ceará, a projeção pode elevar o Complexo ao principal posto da Região, com efeitos sobre a economia brasileira como um todo.

"Será uma área portuária-industrial que vai desde a era tradicional até a economia digital. Juntamente com os data centers vem todo o potencial de energia do Ceará. Observa-se um complexo energético atrelado à economia digital. Mas a Transnordestina trará um salto realmente significativo a Pecém", afirma.

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A operação da ferrovia se projeta como um marco para o Cipp, uma vez que deve impulsionar a movimentação de cargas do Porto a partir da chegada de insumos para as mais diversas atividades e também da saída da produção. Guimarães destaca, especialmente, o fluxo de grãos da área formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (Matopiba).

Na prática, isso reduz os custos logísticos dos produtores do agro em cerca de 30%, seja para envio de cargas ou compra de suprimentos, da mesma forma que gera benefícios para polos industriais específicos, como o automotivo de Horizonte, o gesseiro do Sertão do Araripe pernambucano e os inúmeros calçadistas do Nordeste.

Com os outros projetos, o Ceará traz para a parte de cima do Nordeste hubs de distribuição de combustíveis líquidos, gás de cozinha e uma oferta de gás natural inexistentes atualmente. Já os data centers promovem uma nova economia no País, ao abrigar dados antes hospedados no exterior em terras brasileiras com grande potencial de lidar com inteligência artificial.

"O Complexo do Pecém vive um momento de transformação e expansão que o posiciona como um dos principais vetores de desenvolvimento econômico do Nordeste e do Brasil. Estamos construindo muito mais do que um porto competitivo: estamos consolidando um grande polo industrial, logístico e energético, capaz de atrair investimentos estratégicos, gerar empregos e impulsionar uma nova dinâmica econômica para o Ceará", destaca Max Quintino, presidente da Cipp SA, ao O POVO.

Competitividade

Perguntado sobre a competitividade da Região ante outros complexos nordestinos, ele fala em complementaridade como forma de fortalecer todas em conjunto e ampliar "a capacidade da Região de atrair investimentos e participar das grandes cadeias produtivas nacionais e internacionais".

"O Pecém, entretanto, reúne diferenciais estratégicos que nos colocam em uma posição privilegiada", reconhece, citando "um porto de águas profundas, uma Zona de Processamento de Exportação, disponibilidade de áreas para expansão industrial, localização geográfica favorável às rotas internacionais e uma parceria estratégica com o Porto de Roterdã, um dos principais centros logísticos da Europa".

Continuidade e atração

Diante do cenário, o desafio é converter esse potencial apontado por Quintino em uma infraestrutura que possa catalisar outros empreendimentos e conseguir formar cadeias produtivas das diferentes atividades em instalação, como analisa Diogo Lisbona, pesquisador do Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ceri).

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"Isso requer uma continuidade. É importante o Estado ter um panorama claro do que fazer. O Ceará é um estado de muito investimento em educação também, consegue se sobressair no plano nacional, então, ter uma indústria local com maior inovação e tecnologia faz com que as três pontas de oferta, demanda e logística possam favorecer a trajetória", afirma.

"Nosso grande diferencial é oferecer ao investidor um ecossistema integrado, no qual logística, indústria, energia e tecnologia se complementam. Essa combinação permite ao Pecém não apenas competir pela atração de novos empreendimentos, mas se consolidar como uma plataforma estratégica para o desenvolvimento do Nordeste e para a inserção do Brasil no comércio internacional", projeta o presidente da Cipp SA.

Cipp posiciona Ceará na dianteira do desenvolvimento regional

Fortaleza, CE, BR 29.10.26  - Porto do Pecém (Fco Fontenele/O POVO)
Fortaleza, CE, BR 29.10.26 - Porto do Pecém (Fco Fontenele/O POVO)
Crédito: FCO FONTENELE

O foco do Pecém em atrair grandes empreendimentos de diferentes atividades produtivas é considerado crucial para o momento do Nordeste e posiciona o Ceará na dianteira desse movimento, com vantagem ainda maior sobre os vizinhos, segundo considera Paulo Guimarães.

A explicação está no fim da chamada guerra fiscal entre os Estados, imposto pela reforma tributária, que impede os governos locais de ceder subsídios e descontos em tributos para fazer com que novos projetos se instalem em seu território.

"O fim dos incentivos fiscais traz esse desafio para a Região, do ponto de vista da competitividade. Para se tornar competitivo, é necessário investir em infraestrutura, recursos humanos e inovação. Esse tripé precisa estar equacionado em três ou quatro anos, porque a decisão dos investidores vai passar por uma análise desse ambiente", observa.

A fase seguinte, acrescenta o sócio-fundador e diretor da Ceplan, é obter fatias maiores do Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional (FNDR). Criado para atenuar os efeitos do fim da guerra fiscal, o FNDR vai ser proporcional à demanda de projetos de qualidade conduzidos em cada estado do Nordeste.

O desembolso dele tem início em 2029 com um montante estimado em R$ 8 bilhões. Mas vai crescendo em 2030 (R$ 16 bilhões), 2031 (R$ 24 bilhões), 2032 (R$ 32 bilhões) e 2033 (R$ 40 bilhões, atualizado pela inflação, com projeção de alcançar até R$ 60 bilhões).

"As diretrizes do Fundo atendem ao fomento à atividade produtiva, ao investimento em infraestrutura e ao investimento em ciência, tecnologia e inovação. A medida imediata é chegar a 2029 com essa carteira de projetos, e não só a ideia. É ter projeto executivo e licenciamentos em curso. E aí, no Ceará, tem esse conjunto de coisas acontecendo, que é essa diversificação de Pecém", conclui.

Futuro de mais aportes e inovação no Complexo

Fortaleza, CE, BR 29.10.26  - Porto do Pecém (Fco Fontenele/O POVO)
Fortaleza, CE, BR 29.10.26 - Porto do Pecém (Fco Fontenele/O POVO) Crédito: FCO FONTENELE

Alvo de projetos robustos e de grande impacto para a economia brasileira, o Pecém busca se manter relevante para o País ao mirar a atração de negócios relacionados a terras raras, novos mercados internacionais e insistir no hidrogênio verde (H2V), afirma Max Quintino ao ser perguntado sobre o futuro do Complexo.

Ele reforça a meta de "transformar os investimentos previstos em empreendimentos efetivamente implantados, ampliar a infraestrutura e fortalecer o Pecém como um polo de desenvolvimento industrial, logístico, energético e tecnológico".

Manter a presença em áreas estratégicas para o País faz com que o Ceará seja um agente decisivo na diminuição da desigualdade regional ao aproveitar essas potencialidades e se coloque mais resiliente contra volatilidades internacionais, segundo o professor Michel Duarte, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE).

"Vejo o fortalecimento do Estado do Ceará com a chegada desses novos investimentos, da construção de novas infraestruturas", destaca com a propriedade de quem acompanha o Cipp diretamente do Campus Pecém do IFCE.

Duarte recorda do potencial do H2V como combustível local e para exportação e destaca a grande procura por formação nesta área na instituição. Pioneiro nesta área, o Ceará teve mais de 30 memorandos de entendimento assinados, sete pré-contratos, mas viu as primeiras moléculas produzidas comercialmente saírem do Sudeste do Brasil.

O revés, no entanto, não faz os esforços da Cipp SA esmorecerem. Max Quintino assegura a continuidade dos projetos e cita outras iniciativas paralelas como alvos do Pecém, como "as oportunidades que poderão surgir com o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, especialmente pela possibilidade de ampliar as exportações, atrair investimentos e fortalecer nossa integração com o mercado europeu, onde já contamos com a parceria estratégica do Porto de Roterdã".

Além disso, no caso de minerais críticos e terras raras, menciona a atração de empreendimentos de "processamento de matérias-primas e a fabricação de componentes para baterias e tecnologias associadas à transição energética", que encontram oportunidades no leilão de BESS prometido pelo Ministério de Minas e Energia.

"Nosso objetivo é que o Pecém seja cada vez mais um espaço de transformação industrial, e não apenas de movimentação de mercadorias. Queremos agregar valor à produção, diversificar nossa base econômica e aproveitar as oportunidades que a transição energética, a tecnologia e os novos corredores logísticos estão criando para o Ceará e para o Nordeste", afirma.

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