O Povo
30/10/2026 07:30

O passado é uma roupa que não nos serve mais

Vida&Arte

Parte dos conteúdos em homenagem aos 80 anos do cantor Belchior (1946-2017), a escritora cearense Isabela Bosi examina o legado musical do cearense no álbum 'Alucinação'

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Publicado às 09:00, 26/10/2026

O cantor cearense Belchior morreu em 2017 aos 70 anos de idade
O cantor cearense Belchior morreu em 2017 aos 70 anos de idade Crédito: Lia de Paula/Acervo O POVO

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Resumo

  • Ao analisar o pensamento de Belchior sob o contexto da Ditadura Militar, o texto destaca que, para o compositor, a verdadeira criação artística exige priorizar a vivência concreta e o delírio da realidade em detrimento de teorias estéreis e padrões conservadores. A partir desse compromisso com a vida, Belchior ressignifica a "juventude" não como uma faixa etária, mas como uma postura de rebeldia, insolência e transgressão diante do poder e da arte meramente contemplativa, utilizando a canção como uma "navalha" capaz de romper com o status quo e transformar a experiência humana.

*Texto de Isabela Bosi/Especial para O POVO

Em junho de 1976, logo após lançar seu segundo disco, "Alucinação", Belchior concedeu uma entrevista ao jornalista Eduardo Athayde, na finada revista Hit Pop. Durante a conversa, ele defende o título do disco e acrescenta: “viver é mais importante que pensar sobre a vida. É uma forma de delírio absoluto”.

Ora, ele está reiterando o que já havia dito, de outro modo, na canção homônima ao álbum: “A minha alucinação é suportar o dia a dia/ E meu delírio é a experiência com coisas reais”.

Se recupero aqui essa fala é porque enxergo nela algo muito importante, não só para a obra de Belchior, mas para todo processo de criação artística: a busca por fazer ressoar, na arte, a vida. Não uma teoria sobre a vida, mas o delírio total que é a experiência humana.

Leia também | Confira o especial de 70 anos em homenagem a Belchior

Talvez por isso Belchior se opõe tão radicalmente às ideias (muitas vezes associadas à arte) de eternidade, contemplação, superioridade e primazia de certas teorias sobre a experiência da vida, das coisas ditas reais.

Não lhe interessa uma intelectualidade distante do cotidiano, dessa alucinação. Isso não significa, porém, um abandono do pensamento crítico ou a mera busca por representar a vida na arte. Pelo contrário, Belchior (também intelectual) antropofagicamente devora a teoria para devolvê-la à própria vida, já transformada em outra coisa, em canção.

Ele recusa, assim, tudo que se espera de um compositor do interior do Ceará e seus estereótipos. Em vez de encarnar o personagem que lhe cabia, ele se coloca ao lado da irreverência, da insolência e da anarquia criativa, como ele defendia. No caso, assume a recusa de modelos estabelecidos para propor algo que, de fato, aponte para o novo, para a juventude.

“Temos que encontrar uma forma de mostrar que estamos vivos”, ele diz, “e isso só se consegue fugindo do convencional, optando definitivamente pela juventude”. Para Belchior, a juventude não é uma faixa etária, mas, antes, o desejo da diferença, da mudança e da criação a partir da vida e não apesar dela.

Afinal, viver é mais importante. E ainda: “precisamos todos rejuvenescer”, como canta em “Velha roupa colorida”. 

Belchior está propondo justamente outra leitura dessa palavra: enxergar a juventude como um estado constante de rebeldia, ousadia, provocação e, sobretudo, criatividade. Só é possível criar, ser criativo, na contramão dos padrões, do conservadorismo e, portanto, do poder.

Em outra entrevista, de 1982, à também finada revista "O Pasquim", ele diz que “é muito importante um dado de marginalidade na Arte. O casamento da Arte com o Poder não dá certo. A Arte é o poder da fecundidade e o Poder, a opressão, é o poder da esterilidade”.

Rejuvenescer é, então, contestar essa esterilidade da opressão, em prol da marginalidade e da fecundidade, ou seja, da criatividade, da criação, da vida!

Vale lembrar ainda que, em 1976, aos 29 anos, Belchior vivia sob um governo militar recém-saído dos anos mais duros da repressão.

Quando diz que devemos encontrar um jeito de mostrar que estamos vivos, ele está também reforçando a urgência de se cantar o que resta de uma juventude que viveu (e ainda vivia) um golpe militar. “Palavra e som são meus caminhos pra ser livre/ E eu sigo, sim”.

Diante da repressão, que anda junto da normatividade, Belchior se posiciona ao lado da provocação, da mudança e mesmo da agressão. São palavras dele: “Eu falo – e devo falar – dos enganos que nós, os jovens, sofremos por ver nossas esperanças caírem por terra. Assim, não abro mão da agressão”.

Sem uma recusa total dos modos estabelecidos (aliás, “o passado é uma roupa que não nos serve mais”!), a arte perde sua potência de transformar e valorizar a vida como manancial criativo. Esse é o papel da agressão de que fala Belchior, voltada a um espírito de juventude.

Leia também | 8 anos sem Belchior: O novo sempre vem

É preciso destruir o que já está posto, o status quo, o clichê, para, aí sim, construir algo que aponte para alguma mudança – na música, na arte e na própria humanidade.

“Caso contrário, vira aquele negócio de música de fundo de restaurante, sabe como é? As pessoas estão comendo e a arte serve apenas de relaxante, entretenimento. Facilitador da digestão”, ele dizia, lá em 1976.

Daqui, do futuro de Belchior, penso em tudo isso, no quão atuais e urgentes ainda são suas canções e em como devemos seguir inventando, meio século depois, novos modos de rejuvenescer, isto é, de romper com normas conservadoras, envelhecedoras.

Belchior segue nos convocando a essa rebeldia, que não devemos nem podemos abandonar, se ainda temos vivo o desejo de amar e mudar as coisas, e reinventá-las sempre.

E mais: “Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve/ Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve/ Sons, palavras, são navalhas/ E eu não posso cantar como convém”.

Isabela Bosi é doutora em Crítica Literária pela PUC- SP/Sorbonne, além de autora dos livros 'Bar do Anisio: casa de liberdades' (Imprensa Universitária da UFC, 2013), 'Quase' (nadifúndio, 2019), 'Sobre viver' (nadifúndio, 2019) e 'Elida Tessler: alguns envios de tempos e memórias' (Editora UFMG, 2023).

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