O Povo
30/10/2026 07:30

Cantor e compositor ainda vive nas ruas de Fortaleza

Vida&Arte

Parte dos conteúdos em homenagem aos 80 anos do cantor Belchior, o legado do cearense é observado por Alexandre Barbalho na Capital; leia análise

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Publicado às 09:00, 28/10/2026

Na foto, fachada do Centro Cultural Belchior, representando as múltiplas presenças do cantor em Fortaleza
Na foto, fachada do Centro Cultural Belchior, representando as múltiplas presenças do cantor em Fortaleza Crédito: FERNANDA BARROS

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Resumo

  • Na Fortaleza de 2026, a presença de Belchior se manifesta de forma viva e cotidiana nas ruas, seja através de expressões visuais como graffitis e camisas, ou de ecos sonoros que emergem da cidade. Mais do que um monumento estático, o artista permanece diluído na geografia urbana e nas contradições sociais de bairros como Benfica, Praia de Iracema e Mucuripe. Suas canções atuam como um espelho e um motor de resistência, validando as dores e alimentando a esperança de uma juventude que continua teimando em cantar e transformar o presente.

*Texto de Alexandre Barbalho

Eu arrisco dizer que o provável primeiro encontro com Belchior para quem anda nas ruas e avenidas de Fortaleza, neste ano de 2026, não é sonoro, e sim visual.

Isso porque é mais fácil cruzar com um verso seu ou seu rosto estampado na camisa de alguém, geralmente um ou uma jovem, ou coloridamente grafitado em alguma parede, do que escutar alguma música sua vinda de um lugar aleatório.

Mas se caminharmos com os ouvidos atentos e com as angústias renovadas pelo tempo presente também podemos escutar a voz fanha de Bel, saindo de um bar, ou uma música sua sendo cantarolada por um ou uma passante, ou mesmo amplificada em caixa de som vinda de uma loja no Centro da cidade, como pano de fundo da promoção de um jeans desbotado de fábrica.

Leia mais | Confira o especial de 70 anos em homenagem a Belchior

Sentido pelo olho e/ou pelo ouvido, importa dizer que o rapaz latino-americano não é uma estátua de bronze batizada pelos pombos em alguma praça de Fortaleza. Não é um monumento onde podemos depositar flores.

Não! Bel é presença viva, diluída na geografia urbana e afetiva da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Mas também nas profundas contradições sociais que ele tão bem soube traduzir em suas canções.

Andando pelo Benfica, coração universitário, político e boêmio da Capital, não tem como não lembrar das músicas reunidas em “Alucinação” em meio a uma juventude que carrega o peso de viver e ter pressa sob a rotina hiperconectada do capitalismo uberizado.

Descendo para o litoral, pela Avenida da Universidade, chegando na Praia de Iracema, nos deparamos com o Centro Cultural Belchior no lugar onde antes funcionou o bar que talvez melhor representasse a boêmia artística da cidade nos anos 1980, o Cais Bar. Bel esteve ali.

Saiba mais | Belchior nas palavras de amigos e admiradores

Aliás, ele sempre estava ali, retratado no famoso painel pintado por Válber Benevides junto com outros ícones da MPB, até que o Cais deixasse de ser lugar de chegadas e partidas, vencido pela especulação que nada tinha de metafísica.

Caminhando nas ruas da Praia de Iracema, décadas depois, vou pensando como nossos pais. Ainda que viver seja melhor do que sonhar, eu gostaria muito de contar o quê e como vivi aquela estreita faixa litorânea, transitando entre o Estoril e o Cais Bar. Mas para quem?

Neste bairro marcado pela constante transformação gentrificadora, mas também pela resistência de seus moradores e frequentadores tradicionais, se o novo sempre vem, nem sempre vem para o bem, ou é o “de sempre” se fazendo novidade.

Seguindo pelo calçadão da nova Beira-Mar, sendo derrubado por corpos molhados de suor e malhados sob direção de assessorias esportivas, chego no Mucuripe.

As velas ainda estão ali, no antigo reduto de pescadores engolido pela imponente barreira de espigões, que disputam em altura e mal gosto, e a melancolia de uma velha roupa colorida se faz espinha dorsal.

O Mucuripe escancara a tensão entre a tradição que insiste em permanecer — os jangadeiros, o mercado de peixes, o cheiro de sal — e o chamado “progresso” ou “desenvolvimento” implacável que tenta cobrir o passado.

“Mucuripe”, a canção de Belchior com Fagner, ressoa nas marés do bairro como um hino sobre a impermanência, lembrando ao que o tempo muda a paisagem e as coisas que a gente sabe e esquece. Enquanto as velas saem para pescar, fico sem saber para onde mandar as minhas mágoas, certamente não para as águas fundas do mar. O desafio está aqui, na superfície.

Na Fortaleza de 2026, Belchior se apresenta não como um fantasma que lamenta o que passou, mas como um espelho nítido e necessário; ele é o eco que valida as dores, a ironia ácida e a inabalável esperança de uma cidade que teima em cantar e resistir.

Nas batalhas de rima, nos saraus de periferia, nos coletivos visuais e audiovisuais, nos festivais de músicas pelos bairros, em todas essas e outras manifestações artísticas que marcam os territórios da cidade, as canções de Bel continuam sendo um motor que impulsiona o corpo a agir no presente.

Vamos ficar nesta Cidade. Tudo ainda pode ser mudado, sim. Pelo trabalho que faremos tu, eu e ele.

O dinheiro que seja cruel, pois a alma deseja algo mais.

Alexandre Barbalho nasceu em Fortaleza e desde os anos 1980 vem publicando poemas em fanzines, postais, cartazes, revistas e antologias. É autor dos livros de poesia “Passeio Público”, “Central: Sertão”, “Entre”, “Lisboa” e “Através”. 

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