CURIOSIDADESChá de hortelã ajuda na digestão? Entenda a diferença entre o uso popular das folhas e os estudos feitos com óleo de hortelã-pimenta Chá de hortelã tem uso tradicional na digestão, mas estudos com cápsulas de óleo não comprovam o mesmo efeito da infusão.
O chá de hortelã tem uso tradicional para aliviar desconfortos digestivos leves, como gases e sensação de má digestão, mas faltam estudos clínicos robustos que comprovem esse benefício na infusão. As pesquisas mais conhecidas avaliaram óleo de hortelã-pimenta em cápsulas, principalmente para síndrome do intestino irritável. Seus resultados não podem ser transferidos diretamente para a xícara.
Essa diferença importa porque o chá de hortelã e uma preparação medicinal concentrada não entregam necessariamente as mesmas substâncias, quantidades ou formas de liberação. Além disso, aliviar sintomas de uma condição intestinal específica não significa melhorar qualquer incômodo depois das refeições.
O que sustenta o uso do chá de hortelã
A Agência Europeia de Medicamentos reconhece preparações das folhas de Mentha x piperita para alívio sintomático de dispepsia e flatulência com base no uso tradicional. Dispepsia é o nome dado a um conjunto de desconfortos na região superior do abdome; flatulência corresponde à eliminação de gases.
Esse reconhecimento não equivale a demonstrar a eficácia do chá de hortelã em ensaios clínicos de boa qualidade. A classificação considera o histórico prolongado de utilização. Ela permite distinguir uma prática tradicional reconhecida de um tratamento cujo efeito foi medido de maneira consistente em pessoas.
O Centro Nacional de Saúde Complementar e Integrativa dos Estados Unidos, o NCCIH, informa que as folhas foram pouco pesquisadas e que a evidência é insuficiente para estabelecer sua utilidade para condições de saúde. Portanto, apresentar o chá de hortelã como solução comprovada para digestão ultrapassa o que os dados permitem afirmar.
O óleo essencial reúne componentes voláteis concentrados da planta. Nas pesquisas, pode ser administrado em cápsulas com revestimento entérico, desenvolvido para resistir ao ambiente do estômago e liberar o conteúdo mais adiante no trato digestivo. Esse percurso é diferente daquele de uma infusão.
No chá de hortelã, a preparação das folhas em água não reproduz a formulação nem a dose dos produtos investigados. Também não existe uma equivalência estabelecida que permita converter uma cápsula em determinado número de xícaras. Aumentar a quantidade da bebida não resolve essa diferença.
O principal campo de investigação do óleo é a síndrome do intestino irritável, condição que envolve dor abdominal e alterações do hábito intestinal. O NCCIH relata que algumas pesquisas sugerem melhora dos sintomas em adultos. Isso não transforma o chá de hortelã em tratamento para a síndrome nem comprova efeito sobre toda forma de indigestão.
O óleo, diferentemente do chá de hortelã, apresenta resultados divergentes. Em ensaio publicado em 2021 no American Journal of Gastroenterology, participantes receberam cápsulas de óleo ou placebo durante seis semanas. Ambos os grupos melhoraram, sem diferença estatisticamente significativa entre eles. Esse achado reforça a necessidade de considerar a qualidade e o conjunto das pesquisas.
A espécie usada também faz diferença
O nome popular pode esconder plantas diferentes. A lista brasileira de espécies autorizadas para preparo de chás inclui Mentha piperita, Mentha arvensis e Mentha spicata, com denominações relacionadas a hortelã ou menta. Por isso, o rótulo ajuda a identificar o que está sendo consumido.
Ao comparar uma notícia científica com o chá de hortelã comprado ou cultivado em casa, conferir o nome botânico é indispensável. Resultados obtidos com determinada espécie e formulação não comprovam automaticamente os mesmos efeitos em outra planta vendida pelo nome popular semelhante.
Quando a bebida exige cautela
Quem tem refluxo gastroesofágico deve evitar preparações das folhas de hortelã-pimenta, conforme a monografia europeia, porque a azia pode piorar. Assim, recorrer ao chá de hortelã para uma queimação pode agravar justamente o sintoma que se pretendia aliviar.
Pessoas com cálculos ou outros problemas nas vias biliares precisam de orientação antes do uso medicinal. A monografia também desaconselha esse uso na gravidez, na amamentação e em menores de quatro anos por insuficiência de dados. Essas restrições merecem atenção quando o chá de hortelã passa de bebida ocasional a tentativa de tratamento.
O óleo concentrado não deve substituir o chá de hortelã em preparações caseiras. A escolha de produtos medicinais exige avaliação da formulação, da indicação e dos possíveis efeitos adversos. Na investigação de gases intestinais ou má digestão, a persistência dos sintomas importa mais do que a reputação digestiva da planta.
Se o desconforto piorar ou continuar por mais de duas semanas, a orientação europeia é procurar avaliação profissional. Para quem considera o chá de hortelã, a decisão útil é observar a tolerância individual e reconhecer esse limite: a tradição das folhas não fornece a mesma evidência das pesquisas com cápsulas.
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