OPINIÃOEsquerda e direita: de que lado estão as suas ideias? Da Revolução Francesa à política contemporânea, a polarização e o personalismo transformam ideias em identidades e a escolha de representantes em compromissos de fidelidade.
Samuel Almeida Costa
“A grande vantagem do extremismo é fingir que todo o mal está nos seus inimigos e todo o bem do mundo está em você”
— John Cleese, Monty Python. [1]
Poucas palavras se tornaram tão frequentes no debate político brasileiro quanto “polarização”. O termo aparece nas conversas cotidianas, nas redes sociais, nos discursos eleitorais e nas análises políticas. Mas será que compreendemos realmente o que significa?
Na política, polarizar significa acentuar a separação entre posições opostas. A existência dessas diferenças é natural em qualquer democracia. Afinal, as pessoas possuem interesses, valores e concepções distintas sobre a sociedade. O problema começa quando a divergência deixa de ser uma questão de ideias e passa a determinar como enxergamos as próprias pessoas.
Na lógica da polarização, quem concorda conosco é aliado; quem discorda é inimigo. A divergência se transforma em hostilidade. O argumento deixa de ser julgado pelo que diz e passa a ser julgado por quem o apresenta.
Essa lógica permite atribuir todas as virtudes ao próprio grupo e todos os vícios aos adversários. O pertencimento político assume maior importância que o conteúdo das ideias, e a identificação com determinado campo passa a definir antecipadamente aquilo que devemos apoiar ou rejeitar.
A ciência política denomina polarização afetiva essa dimensão emocional da disputa, na qual a identificação com um grupo é acompanhada de crescente rejeição aos adversários. Pesquisas sobre o comportamento político brasileiro demonstram que esse fenômeno ganhou força especialmente nas disputas em torno de lideranças e candidatos. [2]
É nesse ambiente que duas expressões assumiram enorme importância no debate público: direita e esquerda. Hoje, essas palavras frequentemente funcionam como declarações de identidade. Alguém afirma ser de direita ou de esquerda e, a partir dessa classificação, estabelece quem são seus aliados e seus adversários.
A origem dessas denominações remonta à Revolução Francesa, em 1789, quando a França era governada por Luís XVI. Naquele período, os representantes reunidos na Assembleia Nacional Constituinte discutiam os limites do poder monárquico e a construção de uma nova organização política. Entre as questões mais importantes estava o direito do rei de vetar as decisões aprovadas pelos representantes da nação.
Os deputados favoráveis à preservação de maiores poderes para o monarca passaram a se concentrar à direita do presidente da Assembleia. Aqueles que defendiam maiores limitações à autoridade real ocupavam a esquerda. [3]
Foi dessa disposição física, motivada por uma divergência concreta sobre o exercício do poder, que nasceram as denominações que atravessariam os séculos seguintes. As expressões direita e esquerda, porém, não nasceram como doutrinas completas, com posições previamente estabelecidas sobre economia, direitos individuais, costumes ou organização social; seus significados foram transformados ao longo do tempo, acompanhando o surgimento de novas correntes políticas, econômicas e filosóficas.
O filósofo italiano Norberto Bobbio procurou explicar essa distinção em sua obra Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política, publicada originalmente em 1994. Para o autor, a principal diferença entre essas duas tradições políticas está na maneira como compreendem a igualdade e as desigualdades entre os seres humanos.
De forma simplificada, a esquerda atribui maior importância à intervenção política para reduzir desigualdades sociais, enquanto a direita reconhece maior legitimidade em determinadas diferenças, consideradas naturais, históricas ou culturais. São concepções distintas sobre a organização da sociedade e sobre os limites da atuação política. [4]
Bobbio explica que direita e esquerda constituem uma díade, ou seja, dois conceitos contrapostos. Entretanto, essa oposição não estabelece uma divisão moral entre o bem e o mal. Representam maneiras diferentes de compreender a sociedade, sem que uma delas seja necessariamente virtuosa e a outra condenável.
O filósofo também reconhece a existência de posições intermediárias. Centro, centro-direita e centro-esquerda demonstram que o pensamento político comporta diferentes aproximações e combinações. Discordar de um campo não significa aderir integralmente ao outro.
A distinção proposta por Bobbio ajuda a compreender que direita e esquerda possuem conteúdo ideológico, porém nenhuma dessas classificações é suficiente para descrever integralmente o pensamento de uma pessoa. Duas pessoas podem se declarar de direita ou de esquerda e discordar profundamente sobre liberdade individual, intervenção do Estado na economia ou questões sociais.
Uma pessoa pode defender maior liberdade econômica e, ao mesmo tempo, concordar com propostas sociais tradicionalmente associadas à esquerda. Outra pode defender maior intervenção estatal na economia e sustentar posições conservadoras em questões de costumes, as quais geralmente são alinhadas à direita. Nenhuma dessas combinações é necessariamente incoerente.
Uma pesquisa publicada em 2025 na revista científica Opinião Pública, por Thiago Moreira e João Cardoso Camargos, encontrou um dado revelador: segundo os critérios utilizados pelos pesquisadores, apenas 28% dos entrevistados, em média na série histórica examinada, apresentavam consistência entre sua identificação ideológica e suas posições políticas. O resultado demonstra que os rótulos assumidos pelos eleitores nem sempre correspondem às ideias que efetivamente defendem. [5]
Essa distância entre a identidade ideológica declarada e as posições efetivamente defendidas ganha especial importância na escolha dos representantes.
Em uma democracia, a representação política pressupõe uma relação entre as convicções do eleitor e as posições de quem pretende representá-lo. O indivíduo identifica aquilo em que acredita, examina as propostas disponíveis e escolhe aquele que melhor corresponde às suas expectativas.
Nesse processo, o candidato recebe apoio porque representa determinadas ideias. Se posteriormente abandona os princípios que justificaram sua escolha, o eleitor conserva a liberdade de procurar outro representante.
Entretanto, o personalismo político estabelece uma lógica diferente. Primeiro surge a identificação com uma liderança, despertada por sua personalidade, trajetória, discurso ou capacidade de mobilização. Depois, o indivíduo incorpora como suas as posições defendidas por aquela pessoa, inclusive a classificação ideológica que ela utiliza.
Em vez de a ideologia dar forma ao representante, é o representante que passa a dar forma à ideologia.
A direita passa a ser aquilo que determinado líder afirma representar, enquanto a esquerda passa a ser aquilo que outra liderança declara defender. O conteúdo dessas classificações deixa de depender exclusivamente de princípios e concepções políticas e passa a acompanhar o posicionamento de seus representantes.
O próprio comportamento eleitoral passa a obedecer a essa dinâmica. Se determinado candidato se apresenta como representante da direita e o eleitor já possui identificação pessoal com ele, essa declaração funciona como uma confirmação de afinidade. O mesmo ocorre quando uma liderança se apresenta como representante da esquerda.
Não é apenas uma confusão intelectual. É um atalho emocional na hora do voto.
Pesquisas de psicologia política indicam que a identificação partidária pode influenciar a avaliação de propostas e que o acesso a informações sobre seu conteúdo reduz essa influência. [6]
O eleitor deixa de examinar apenas aquilo que o candidato defende e passa a considerar a quem ele pertence e contra quem se posiciona. A identidade política funciona como um certificado de afinidade, dispensando uma investigação mais cuidadosa sobre as propostas efetivamente apresentadas.
O problema ganha uma dimensão ainda mais preocupante quando o representante modifica suas próprias posições, já que candidatos mudam de partido, reorganizam alianças, abandonam discursos e passam a defender propostas que antes combatiam. Essas mudanças fazem parte da dinâmica política e podem decorrer de circunstâncias legítimas, novas informações ou simples conveniência.
Para o eleitor que construiu seu apoio a partir de princípios, a mudança exige uma nova avaliação. Se o representante continua defendendo suas ideias, mantém-se a afinidade. Se abandona aquilo que justificou o apoio, desaparece também a razão que sustentava essa escolha.
A situação é diferente quando a fidelidade está concentrada na pessoa, pois o afastamento entre o discurso original e a conduta atual do representante produz um conflito: o eleitor precisa escolher entre preservar suas convicções e preservar sua identificação com a liderança.
O pertencimento político, quando se transforma em identidade pessoal, torna mais difícil reconhecer essa contradição. O indivíduo já discutiu com amigos, confrontou familiares, rompeu relações e transformou adversários políticos em inimigos, defendendo publicamente comportamentos que considerava inaceitáveis quando praticados pelo outro lado.
Quando sua liderança faz aquilo que ele próprio condenava, reconhecer o erro também significa reconsiderar os conflitos construídos em defesa de alguém que já não representa suas convicções. O comportamento que ontem era condenável passa a ser relativizado; a aliança antes inadmissível torna-se necessária, e a decisão combatida recebe uma justificativa conveniente.
O critério deixa de ser a ideia defendida e passa a ser a identidade de quem age. O eleitor já não defende o candidato porque concorda com ele; passa a concordar com o candidato porque precisa continuar defendendo-o.
E surge uma das maiores contradições da representação política: quem deveria exigir coerência de seus representantes passa a produzir ou reproduzir argumentos para justificar suas incoerências.
A polarização e o personalismo, embora sejam fenômenos diferentes, encontram nessa dinâmica um ponto de convergência. O personalismo oferece uma liderança em torno da qual as pessoas se identificam; a polarização oferece um adversário contra o qual essa identidade se fortalece.
A política deixa de ser um espaço para a escolha de representantes e se transforma em uma relação de fidelidade. As ideias, que deveriam orientar nossas escolhas, passam a ser ajustadas para justificar escolhas já realizadas.
Retornamos, assim, à provocação que abriu esta reflexão. A existência de inimigos oferece uma explicação confortável para os conflitos políticos: os vícios estão sempre do outro lado, enquanto as virtudes permanecem reservadas àqueles que compartilham nossa identidade.
Mas a liberdade de pensamento exige a capacidade de reconhecer virtudes nos adversários, defeitos nos aliados e contradições nas próprias escolhas.
Direita e esquerda continuam sendo classificações importantes para compreender a política. Seus significados históricos e ideológicos ajudam a identificar diferentes concepções de sociedade, mas perdem sua utilidade quando se transformam em rótulos que dispensam o pensamento individual.
A liberdade de pensamento exige mais do que a possibilidade de escolher entre direita e esquerda. Exige a capacidade de concordar e discordar de ambos os lados, sem que isso represente uma obrigação de fidelidade ou uma traição a quem quer que seja.
Um homem, para ser verdadeiramente livre, precisa ser senhor das próprias ideias, preservando sua independência intelectual e a coragem moral de discordar até mesmo daqueles que escolheu apoiar.
Quem segue pessoas corre o risco de abandonar as próprias convicções para permanecer ao lado delas, enquanto quem se mantém fiel às suas ideias conserva a liberdade de escolher novos representantes sempre que os antigos deixam de representá-las.
Referências
[1] CLEESE, John. On Extremism. Intervenção política televisionada, 1987. A epígrafe apresenta uma adaptação livre em português da fala original. Reprodução e transcrição em: KOTTKE, Jason. John Cleese on Extremism. 15 jun. 2020. Disponível em: https://kottke.org/20/06/john-cleese-on-extremism.
[2] FUKS, Mario; MARQUES, Pedro Henrique. Polarização e contexto: medindo e explicando a polarização política no Brasil. Opinião Pública, Campinas, v. 28, n. 3, p. 560–593, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1807-01912022283560.
[3] WINOCK, Michel. L’opposition gauche-droite dans la vie politique française. Cahiers français, n. 404, maio-jun. 2018. Disponível em: https://www.vie-publique.fr/files/fiche_produit/pdf/3303330404041_EX.pdf.
[4] BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. 3. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2012.
[5] MOREIRA, Thiago; CAMARGOS, João Cardoso L. “O campeão voltou”? A natureza substantiva da ideologia de massa no Brasil. Opinião Pública, Campinas, v. 31, e31112, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1807-0191202531112.
[6] TAPPIN, Ben M.; MCKAY, Ryan T. Estimating the causal effects of cognitive effort and policy information on party cue influence. Political Psychology, v. 47, n. 2, e70116, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1111/pops.70116.
Sobre o autor: Samuel Almeida Costa é advogado criminalista e professor de Direito Penal, inscrito na OAB/RR sob o nº 1320.
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