Aos 56 anos, acreano que parou de estudar na 7ª série conclui Medicina e passa no Revalida

O acreano Moisés Amorim de Sousa, de 56 anos, concluiu o curso de Medicina, foi aprovado no Revalida e aguarda apenas a finalização da documentação para obter o registro no Conselho Regional de Medicina (CRM). Ele contou a própria trajetória em entrevista ao ac24horas nesta quinta-feira (29).
Moisés cresceu na zona rural, na região entre o Quinari e Boca do Acre, e é o primeiro de cinco filhos, com três irmãs e um irmão. A mãe era comerciante e o pai sempre trabalhou com caminhão. A família depois se mudou para a cidade. Ele relatou que começou a estudar cedo, mas com atraso. “Quando comecei a ler, tinha uns 9 anos”, disse. Também afirmou que tinha dificuldade de concentração.
Clique para exibir o slide.Aos 17 anos, cursava a 7ª série e decidiu abandonar a escola. “Quando tive 17 anos, estava na 7ª série e achei que já estava velho demais. Eu parei de vez”, afirmou.
Nas décadas seguintes, Moisés exerceu várias atividades. Foi camelô, comerciante, taxista, trabalhou em garimpo, teve uma loja de motos e se tornou caminhoneiro depois de aprender o ofício no caminhão do pai. Mesmo assim, segundo ele, havia um sentimento constante de falta. “Nesse intervalo de 2007 até 2017, eu sempre senti que algo faltava na minha vida. Eu sempre quis voltar a estudar”, declarou. Uma irmã apresentou a ele a Educação de Jovens e Adultos (EJA), e ele concluiu o ensino fundamental e o ensino médio na modalidade, sem deixar de trabalhar.
A ideia de cursar uma faculdade surgiu aos poucos. Em 2010, Moisés levou uma filha a Santa Cruz, na Bolívia, e gostou do que viu. Em 2015, a formatura dessa filha reforçou o interesse dele por um curso superior. Ele também mencionou ter acompanhado a mãe em hospitais de Goiânia. O impulso final veio com o nascimento de Aimee, a filha mais nova, em 2013. “Ela foi a culpada de eu ter me formado, porque foi ela que me incentivou”, disse. Ele chamou as duas irmãs para estudar na fronteira com ele.
Aos 48 anos, vendeu o caminhão, um terreno e a herança que havia recebido para custear os estudos. “Vendi tudo o que eu tinha construído. Deus abriu as portas”, afirmou.
Na Bolívia, enfrentou a barreira do idioma e a discriminação. Segundo ele, a maior parte da turma era formada por jovens. Quanto ao idioma, relatou que cada professor tinha um sotaque e que levou cerca de dois meses para se adaptar. “Eles são muito tolerantes com a gente”, disse sobre os bolivianos. Sobre o preconceito, contou que ajudou os colegas e que isso mudou a relação com a turma. “Eu fui muito discriminado. Tive que me colocar ajudando os colegas. Eu conquistei a turma depois”, declarou.

Moisés também relata um carinho pelo país onde estudou. “A Bolívia, para a nossa família, é a nossa segunda pátria. Um país que me deu oportunidade de ser médico”, afirmou.
Ele se formou em dezembro de 2024. Para ser aprovado no Revalida, exame necessário para exercer a Medicina no Brasil com diploma estrangeiro, afastou-se da sociedade e de eventos e estudou de 8 a 10 horas por dia. Depois de não passar na primeira tentativa, estudou mais seis meses e foi aprovado na edição 2025.1. Ele fez a prova em Manaus, em maio, entrou com recurso e conseguiu mais 13 pontos. “Foi muito esforço, muitas horas de estudo”, disse. Hoje, morador de Rio Branco, ele conclui a parte da documentação para obter o CRM.
Moisés deixou um recado para quem pensa em desistir dos estudos. “Eu digo que as pessoas não cometam o mesmo erro que eu. Eu falei que ia parar de estudar, que estava muito velho. Enquanto você está vivo, você pode estudar. Sempre é o momento certo. Só bastam vontade e disciplina.”
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