O verdadeiro líder político do Brasil não é quem você está pensando
Peço sua paciência para me acompanhar numa conta relativamente simples. Somos 214 milhões de brasileiros, segundo o IBGE. Desses, 158,7 milhões são eleitores aptos. Desses, 125,2 milhões votaram no primeiro turno da eleição de 2026. Desses, Lula recebeu 53,8 milhões de votos. Considerando a base do eleitorado total, Lula recebeu, portanto, 33,94% dos votos possíveis.
Eu sei, o TSE não considera nulos e brancos como votos válidos, muito menos as abstenções. Mas a questão aqui é outra: Lula recebeu o voto de cerca de um terço do eleitorado apto. Isso não significa que os outros dois terços, 66,06% do eleitorado total, rejeitem Lula, mas certamente autoriza afirmar que não há adesão majoritária ao seu nome, longe disso.
No segundo turno, tivemos 30,5 milhões de ausentes e 4,15 milhões de votos brancos e nulos. Somando esses números aos votos dados ao candidato opositor, chegamos a 59,52% do eleitorado que não escolheu Lula. Não há como saber as motivações de cada eleitor, mas a conta mostra a dimensão do contingente que não lhe deu o voto.
Em 2018, o antipetismo venceu. Em 2022 e 2026, o antibolsonarismo. Talvez não seja exagero afirmar que a maior força política do Brasil reside no “anti”
Agora, olhe a série inteira de votações, desde 1989. Em nenhuma eleição presidencial o vencedor alcançou metade do eleitorado apto. O teto é de Lula em 2006, com 46,30%. O piso é de Fernando Henrique Cardoso em 1998, com 33,87%. O Brasil nunca elegeu um presidente com o voto da maioria absoluta do eleitorado. Nossas eleições são decididas por uma parcela do país. No segundo turno, quando as alternativas se reduzem a dois candidatos, a rejeição a um pode adquirir um peso ainda maior na decisão do voto.
Eu sei, Flávio saiu do Brasil, alegou fraude etc., mas meu ponto aqui independe disso. Fosse ele o vitorioso, seria também muito pela rejeição a Lula. A força do antipetismo é o que reúne o saco de gatos que chamam de “direita”. Sem isso, ninguém da direita tem maioria sozinho, por maior que seja o bolsonarismo. E é justamente a força do antibolsonarismo que ficou demonstrada no segundo turno. O terrorismo eleitoral da campanha petista encontrou terreno fértil para virar votos e diminuir abstenção, nulos e brancos.
Em 2018, o antipetismo venceu. Em 2022 e 2026, o antibolsonarismo. Por isso, talvez não seja exagero afirmar que a maior força política do Brasil reside no “anti”, que tem algo do que Nietzsche chamou de reativo: sua identidade nasce menos da afirmação do que é, e mais da negação daquilo que combate. É uma força que pode mobilizar multidões sem precisar produzir uma liderança que as reúna em torno de um propósito. Seu horizonte se resume à crença de que, sem o adversário, tudo melhorará.
Ainda que Lula e Jair Bolsonaro sejam líderes de parcelas consideráveis do eleitorado, nenhum deles conseguiu conquistar o voto da maioria absoluta dos eleitores aptos. Lideram seus próprios campos e, quando chegam ao poder, dependem também da tolerância de quem não os escolheu, muitas vezes só existente pela rejeição que esse eleitor sente do adversário.
Por isso, o medo tem sido um instrumento recorrente de mobilização eleitoral. Lula só chegou à Presidência em 2002 depois de escolher um liberal para vice e divulgar a “Carta ao Povo Brasileiro”, sinalizando que seu eventual governo não seria exatamente aquele que muitos temiam. Reduzir o medo era também reduzir a rejeição. Já em 2026, a campanha lulista apostou na estratégia inversa: ampliar o temor de uma vitória do adversário.
O que explicaria boa parte da realidade política brasileira é a rivalidade mimética, como a pensava René Girard. Os adversários passam a se definir um pelo outro, tornando-se dependentes da rivalidade que os separa. Cada um se torna a razão de existir do outro. O paradoxo é que o grande “líder” dos “anti”, na verdade, é o rejeitado: do antipetismo, Lula; do antibolsonarismo, Jair Bolsonaro.
Cada lado precisa derrotar o outro, mas também precisa que ele continue existindo como inimigo
É uma estrutura de espelho cuja consequência é política e existencial. Cada lado precisa derrotar o outro, mas também precisa que ele continue existindo como inimigo. Se o adversário desaparecesse, uma identidade construída exclusivamente contra ele perderia parte da razão de ser. Não há saída que venha de dentro do espelho. Enquanto a vitória for decidida pela soma dos que rejeitam, quem disputa tem incentivo para ampliar a rejeição ao outro e menos incentivo para produzir convicção própria.
Uma saída possível estaria em compreender quem permanece fora da disputa. Os dois polos parecem ter limites de expansão. Em 2022, o bloco antipetista somou 46,84% dos votos depositados; em 2026, 46,65%. Não cresceu. O campo oposto subiu pouco, 1,54 ponto. Já os 30,5 milhões que não foram votar e os 4,15 milhões que anularam o voto formam um contingente expressivo que não pode ser desprezado. São, antes, um enigma eleitoral. O que poderia mobilizá-los, fazê-los sair de casa no domingo para votar em alguém?
Aumentar o número de eleitores dispostos a participar poderia ser uma forma de vencer sem depender da derrota do outro. Mas, historicamente, a queda da abstenção parece ter sido favorecida pelo medo da vitória do adversário. O desafio está em descobrir o que faria um ausente voltar a votar sem que fosse preciso aterrorizá-lo com essa possibilidade. Quem conseguir isso talvez descubra que o espelho, sem objeto, deixa de refletir. E talvez descubramos, então, que liderar um país é muito mais do que reunir gente suficiente para impedir que o outro vença uma eleição.
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