O Tempo
30/10/2026 09:30

Binance sofre ataque hacker de US$ 6,3 bi em criptomoedas

A plataforma de criptomoedas Binance informou na quinta-feira (29/10) que a quantia roubada por hackers foi de quase US$ 6,3 bilhões (R$ 33 bilhões), o que o tornaria o maior ataque da história em criptomoedas. Até então, o recorde era de US$ 1,5 bilhão subtraídos em fevereiro do ano passado da plataforma Bybit.

A empresa já havia anunciado o congelamento de US$ 2,54 bilhões na noite de quinta após detectar o ataque, que posteriormente subiu para US$ 3 bilhões congelados.

Posteriormente, a Binance informou em seu perfil em espanhol para a América Latina que "o impacto total estimado está em cerca de US$ 6,3 bilhões". "Trabalhamos com parceiros de blockchain para congelar os ativos afetados, com cerca de US$ 3 bilhões já congelados on-chain até agora", comunicou.

A empresa não mencionou a situação dos US$ 3,3 bilhões restantes e disse que espera retomar os serviços de saque em até 44 horas .

"Este foi um ataque complexo, e estamos fazendo tudo o que podemos, em coordenação com as autoridades, para solucioná-lo", declarou a empresa em post no X.

A Binance mantém um fundo de ativos seguros para os usuários, uma reserva de US$ 1 bilhão em bitcoin destinada a proteger os ativos dos clientes em caso de falhas de segurança, segundo seu site. Teng, co-CEO da empresa, disse que esse fundo "e recursos da empresa" cobririam as perdas.

Leia também: Além do Bitcoin: bancos ampliam cardápio de criptomoedas para clientes com avanço da regulação

Os preços das criptomoedas caíram após a notícia. Cerca de metade dos ativos roubados foi rapidamente congelada por emissores de stablecoins, como Tether, Circle e a World Liberty Financial, liderada pelos filhos de Donald Trump.

A empresa disse que uma investigação inicial apontou que o ataque teria ocorrido após a invasão a um laptop pertencente a um "engenheiro de DevOps", o que permitiu ao invasor acessar um "contêiner de serviço" e executar transações de saque não autorizadas.

"Nossa equipe de segurança está rastreando todo o percurso do ataque por meio do computador comprometido, que pode ter sido o ponto de entrada do incidente", afirmou a Binance. Mais tarde, a empresa acrescentou ter descoberto outros pontos de invasão.

"Não encontramos evidências de qualquer vazamento de chaves privadas de carteiras", afirmou a plataforma de criptomoedas.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos e o FBI foram procuradas pela agência de notícias Reuters, mas não responderam aos pedidos de comentário.

Empresas dos EUA acusam Coreia do Norte; Binance não confirma

As empresas norte-americanas de pesquisa em blockchain TRM Labs e Chainalysis apontaram semelhanças no modo de ataque a roubos feitos pelo TraderTraitor, um grupo de hackers vinculado à Coreia do Norte.

A TRM disse ter "alta confiança" do autor do furto e citou "informações robustas dentro e fora da blockchain". "Várias características do ataque coincidem com roubos anteriores vinculados à Coreia do Norte", afirmou a empresa, que disse que a maior parte do roubo ocorreu em cerca de 20 minutos nessa quinta-feira.

A TRM afirmou que os invasores conseguiram ordenar que carteiras usadas pela Binance transferissem seus recursos para carteiras controladas pelos hackers, repetindo o padrão de um roubo ocorrido em 2025 na corretora de criptomoedas Bybit, que o FBI atribuiu à Coreia do Norte.

Analistas acreditam que o TraderTraitor faça parte do Grupo Lazarus, que ganhou notoriedade em 2014, quando foi acusado de hackear a Sony Pictures em represália contra o filme "A Entrevista", que satirizava o líder norte-coreano Kim Jong-un.

A Binance afirmou que ainda não é possível identificar o autor do ataque. "Nossa investigação não atribuiu a responsabilidade a nenhum indivíduo", afirmou Teng no X.

Há anos, a Coreia do Norte utiliza unidades cibernéticas ligadas ao Estado para espionagem, roubo financeiro e obtenção de receitas, segundo autoridades dos Estados Unidos e da Coreia do Sul, além de especialistas em segurança cibernética.

A Coreia do Norte nega a acusação sistematicamente. Sua missão em Genebra e sua embaixada na China não responderam de imediato aos pedidos de comentário da Reuters. 

Criptomoedas em queda

O bitcoin atingiu a mínima em seis semanas, a US$ 76.368, e o ether caiu mais de 3%, para a mínima em dois meses, de US$ 2.178, antes de os mercados se estabilizarem.

O BNB, token lançado originalmente como Binance Coin e que pode ser usado para pagar taxas da Binance, recuava 5% nas últimas 24 horas, para US$ 709,70, segundo a CoinGecko, enquanto a confiança abalada pressionava as ações de corretoras de criptomoedas listadas em bolsa.

As ações da corretora de criptomoedas Coinbase Global, que afirmou não ter sido afetada, caíram 4,8%, enquanto as da compradora de bitcoins Strategy recuaram quase 6% nas negociações estendidas nos Estados Unidos.

"É o maior ataque hacker da história", afirmou Aravind Srinivasan, da formadora de mercado GSR, enquanto os preços das criptomoedas registravam queda generalizada.

Analistas projetam queda

Mark Karpeles, ex-presidente da extinta corretora de bitcoins Mt. Gox, com sede em Tóquio, que entrou em colapso há 12 anos após o roubo de US$ 500 milhões em bitcoins, afirmou que os invasores provavelmente tiveram acesso às chaves privadas de pelo menos duas carteiras da Binance.

"A Binance aparentemente distribuiu seus ativos por vários sistemas, garantindo que um ataque hacker possa afetar apenas parte deles, mas, ainda assim, uma única invasão representa uma grande perda", afirmou.

Além da possível perda de ativos, a falha de segurança provavelmente terá repercussões mais amplas para o setor de criptomoedas, que já vinha sob pressão devido aos juros mais altos nos Estados Unidos e à demanda mais fraca de compradores de fundos negociados em bolsa, disseram analistas.

"Isso pode reduzir ainda mais o apetite por risco e levar os investidores a reavaliar a segurança dos ativos mantidos em corretoras centralizadas", afirmou Tim Sun, pesquisador sênior do HashKey Group, sediado em Hong Kong.

"As implicações mais amplas para o crédito e para o setor dependerão das perdas finais, das contrapartes afetadas, da recuperação dos ativos e, sobretudo, de o incidente provocar ou não perturbações mais abrangentes ou perda de confiança em todo o ecossistema de ativos digitais", afirmou Cristiano Ventricelli, vice-presidente de ativos digitais da Moody's Ratings.

Valor do ataque supera fundo de ativos seguros da Binance

A Binance, que permite aos usuários comprar, vender e negociar ativos digitais, tem 335 milhões de usuários registrados em todo o mundo e mantinha cerca de US$ 162,8 bilhões em ativos sob custódia, segundo seu relatório anual de 2025.

A emissora de stablecoins Tether afirmou ter congelado quase US$ 1,57 bilhão em ativos relacionados ao incidente, enquanto a Circle congelou mais de US$ 800 milhões.

A World Liberty Financial disse ter trabalhado com a custodiante BitGo para congelar recursos, e Yi He, cofundadora da Binance, afirmou que US$ 27 milhões em stablecoins e cerca de US$ 2 milhões em tokens da World Liberty haviam sido congelados. A empresa de criptomoedas Ripple também congelou aproximadamente US$ 200 milhões em recursos, disse Yi.

Relembre outros casos

O incidente se soma a uma série de roubos de criptomoedas. No ano passado, invasores roubaram US$ 2,9 bilhões em criptomoedas em quase 150 ataques, segundo pesquisadores da TRM Labs.

Em setembro, a Bitget afirmou que cerca de US$ 350 milhões em criptomoedas haviam sido roubados de sua plataforma, ressaltando a vulnerabilidade do setor aos hackers.

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