Vorcaro nega fraude no BRB e diz que rombo foi causado pelas investigações
Em depoimento à PF (Polícia Federal), o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, negou ter cometido fraude na venda de carteiras de crédito ao BRB (Banco de Brasília) e afirmou que a crise enfrentada pelo banco público foi provocado pela liquidação do Master e pelas investigações sobre o caso.
“O banco vive de credibilidade. Depois da liquidação e da minha prisão, foi sacado R$ 9 bilhões do BRB. A crise do BRB não foi causada por mim, não, foi causada pela situação que ocorreu, de liquidação do Master, que era parceiro”, declarou na oitiva realizada em 15 de setembro.
Ao longo do depoimento, Vorcaro negou a comercialização de créditos inexistentes com o BRB. Questionado pela delegada sobre laudos que apontariam irregularidades nas operações, Vorcaro disse que nem o BRB nem clientes dos bancos perderam dinheiro, o que afastaria a acusação de fraude.
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O banqueiro reconheceu que houve “problemas” com carteiras de crédito relacionadas à empresa Tirreno. Segundo ele, porém, as operações deixaram de ocorrer em maio e a situação já havia sido resolvida meses antes de o caso vir à tona, em novembro de 2025.
“Quando fiquei sabendo do problema com a carteira, eu peguei ativos do banco e ativos próprios meus e substituí, em boa-fé com o BRB. E hoje tem mais ativos lá do que ele pagou. Essa é a realidade. Será que tem alguém com coragem na Polícia Federal para poder entender isso?”, afirmou.
Em outro momento, Vorcaro disse que as investigações partiram de uma interpretação equivocada de informações do Banco Central e afirmou ser vítima de perseguição. Para ele, foi criada uma “fantasia” sobre uma suposta fraude de R$ 12 bilhões para justificar sua prisão.
“Um agente que me persegue há 6 anos cria uma fantasia de que eu criei uma fraude de R$ 12 bi pra me prender. Não é a primeira vez que pedem minha prisão. E hoje tá todo mundo tentando provar que isso tá certo. Ninguém tem a coragem de olhar o negócio como ele é. Fraude não teve. Não teve fraude. Não tem cliente que perdeu dinheiro, o BRB não perdeu dinheiro”, afirmou.
O banqueiro também afirmou que está preso injustamente, pediu arquivamento do processo e disse que espera que uma perícia independente confirme sua versão sobre as operações.
“Eu tô preso injustamente por conta disso. Eu não fiz fraude nenhuma com BRB, eu não lesei nada o BRB”, disse. “Arquive esse processo, porque não tem prova nehuma. Não tem prejuízo. Faça uma perícia com uma empresa de fora, não brasileira. Vamos contratar uma perícia de fora para ver os ativos que foram vendidos. Porque se não tiver tido prejuízo, o que eu fiz? Eu vendi ativos do BRB que não deram lucro. Só isso”, completou.
No depoimento, o banqueiro também confronta a PF, sinaliza que não há profissionais na instituição com “coragem” para entender a realidade dos fatos e cita a pressão nacional sobre o caso.
“Eu entendo que esse caso virou uma pressão nacional, eu entendo isso tudo. Tem uma pressão de todos e eu entendo que os senhores sofrem essa pressão também. Mas vai passar a espuma de mídia, passar tudo, e vai ficar na história quem tem coragem de ver a verdade”, disse.
O banqueiro afirmou também que ainda “ainda acredita na Justiça” e que, um dia, integrantes do Banco Central, da Polícia Federal e de outras instituições envolvidas no caso vão “assumir a sua responsabilidade”.
“E estou pronto para assumir a minha [responsabilidade], estou pronto para falar a verdade, mas a verdade precisa ser de todo mundo e de gente com coragem. E a verdade é que não existiu essa fraude”, disse.
Paulo Henrique Costa
Sobre os imóveis avaliados em cerca de R$ 146 milhões, que teriam sido usados como compensação na negociação entre BRB e Master, Vorcaro afirmou que eles seriam disponibilizados a Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília, para moradia, caso a fusão entre os bancos fosse concretizada.
Segundo o ex-banqueiro, o então presidente do BRB teria sido convidado para assumir um cargo de gestão na instituição resultante da operação e precisaria se mudar para São Paulo com a família. Vorcaro disse que os imóveis em Brasília e São Paulo não eram um presente, mas seriam cedidos em regime de comodato, sem transferência de propriedade.
Ele afirmou ainda que Costa poderia comprar os imóveis futuramente, dentro de um programa de bônus previsto para os gestores do banco. “Eu não prometi imóvel para ele. Prometi imóvel para ele morar, como parte do benefício de ser gestor do banco”, declarou.
Em seu próprio depoimento, Paulo Henrique Costa afirmou que o BRB “não tinha a menor ideia” de que estaria havendo fraude nas operações que fazia com o Master.
Indiciamento
Conforme mostrou a CNN, a PF indiciou o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB (Banco de Brasília) Paulo Henrique Costa e outras 13 pessoas no inquérito que apura fraudes envolvendo operações entre o Banco Master e o BRB.
Os indiciamentos constam de um relatório parcial de mais de 700 páginas encaminhado nesta quarta-feira (28) ao STF (Supremo Tribunal Federal). A PF também pediu a prorrogação da investigação por mais 60 dias para concluir perícias e diligências complementares.
Segundo as investigações, o BRB comprou cerca de R$ 17,5 bilhões em ativos e carteiras de crédito do Banco Master entre julho de 2024 e outubro de 2025. Segundo a PF, ao menos R$ 12,2 bilhões desse montante correspondem a créditos comercializados sem comprovação de existência, parte central do esquema fraudulento investigado.
Para os investigadores, foram usados créditos fictícios para sustentar operações bilionárias e manter o fluxo de recursos em direção ao Master.
O relatório aponta que o esquema se desenvolveu em frentes interligadas, que incluíam a compra, recompra e substituição de créditos, operações relacionadas aos aumentos de capital do BRB e a tentativa de aquisição do Banco Master pelo banco público de Brasília.
Vorcaro foi indiciado por gestão fraudulenta, indução a erro, falsidade em informações ou documentos, organização criminosa e lavagem de dinheiro. O relatório da Polícia Federal o descreve como o “principal centro de comando, coordenação e decisão” da estrutura criminosa investigada.
Já Paulo Henrique Costa foi indiciado por gestão fraudulenta e organização criminosa. A PF diz que o ex-presidente do BRB atuava como principal articulador das operações dentro do banco e usava as atribuições do cargo para garantir a continuidade dos negócios estruturados por Vorcaro.
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