Flamengo projeta déficit de R$ 40 milhões: o que isso significa para as finanças do clube? Bandeira de Mello avalia
O Flamengo precisou recalcular suas contas para 2026. Depois de iniciar o ano com a expectativa de um superávit de R$ 180 milhões, o clube passou a projetar um déficit de aproximadamente R$ 40 milhões, uma mudança de R$ 220 milhões em relação ao planejamento original. A revisão levantou questionamentos sobre a situação financeira rubro-negra e sobre os mecanismos que impedem decisões administrativas capazes de comprometer o patrimônio da instituição. Mas, para o ex-presidente Eduardo Bandeira de Mello, que comandou o clube entre 2013 e 2018, o cenário não representa necessariamente uma situação de gestão temerária.
Em entrevista exclusiva ao DIÁRIO DO RIO, o atual deputado federal avaliou as mudanças no orçamento, comentou a atuação dos órgãos de fiscalização e explicou a origem da chamada Lei de Responsabilidade Fiscal Rubro-Negra, incorporada ao Estatuto durante sua administração. A reforma, aprovada em 2015, estabeleceu regras para a condução das finanças do clube e abriu a possibilidade de responsabilização pessoal de dirigentes por prejuízos decorrentes de condutas irregulares.
O novo orçamento foi aprovado na quarta-feira (28/10) pelo Conselho de Administração, com 41 votos favoráveis, seis contrários e duas abstenções. A revisão ocorreu após investimentos acima do previsto e receitas que não se concretizaram, especialmente com negociações de jogadores e acordos comerciais. A diretoria comandada por Luiz Eduardo Baptista, o Bap, já sinalizou que pretende adotar uma postura mais conservadora para 2027.
Apesar da diferença expressiva entre as projeções, Bandeira de Mello considera que ajustes fazem parte da administração financeira de uma instituição do porte do Flamengo.
"O objetivo do orçamento não é cravar exatamente o que vai acontecer. O orçamento do Flamengo foi feito em cima de uma perspectiva mais otimista com relação a receitas e despesas. E a revisão orçamentária existe exatamente para isso." afirmou.
O ex-presidente também afastou a interpretação de que a necessidade de corrigir as contas seja, por si só, uma evidência de administração irresponsável.
"Eu não acredito que essa revisão caracterize gestão temerária. Acho que efetivamente foi uma situação projetada que não se confirmou e que tem que ser corrigida exatamente nesse processo de revisão orçamentária."
Por que o Flamengo precisou rever as contas?
O principal impacto financeiro veio do departamento de futebol. A contratação de Lucas Paquetá, por aproximadamente R$ 315 milhões, foi uma das operações que elevaram os investimentos do clube acima do planejamento inicial.
Ao mesmo tempo, receitas esperadas não se concretizaram. Entre elas estão a negociação de Gonzalo Plata com o Dínamo de Moscou, posteriormente cancelada, e a comercialização dos direitos de nome do Maracanã, que não avançou como previsto.
Os resultados esportivos também afetaram as projeções. A eliminação na semifinal da Libertadores e a saída antecipada da Copa do Brasil impediram o recebimento de premiações consideradas no planejamento financeiro.
A revisão reduziu em R$ 94 milhões a previsão de arrecadação com vendas de atletas e incorporou R$ 234 milhões em contratações acima do valor inicialmente orçado.
Para Bandeira de Mello, a administração precisa trabalhar com estimativas realistas, mas não pode ignorar que o futebol envolve receitas sujeitas a oscilações.
"É claro que os compromissos financeiros assumidos devem ser assumidos de maneira responsável, em cima de previsões passíveis de se concretizar. Mas frustrações acontecem, é do jogo."
O ex-presidente também destacou que a reorganização das finanças rubro-negras ao longo dos últimos anos permite ao clube realizar correções no planejamento sem que isso represente, necessariamente, uma crise financeira.
"Felizmente, o Flamengo tem condições, graças a tudo que se conseguiu no passado de responsabilidade e de adequação das contas do clube à sua realidade. Tudo o que se conseguiu no passado agora nos permite fazer uma revisão orçamentária como essa. Ainda bem que ela está sendo feita."
Estatuto prevê até responsabilidade com patrimônio pessoal
A discussão sobre as contas do Flamengo envolve uma regra que ganhou força durante a presidência de Bandeira de Mello. Em 7 de abril de 2015, o clube aprovou mudanças estatutárias que estabeleceram deveres mais rigorosos aos administradores e mecanismos para evitar práticas capazes de prejudicar suas finanças.
Um dos dispositivos centrais está no artigo 69, parágrafo segundo, do Estatuto Social publicado pelo Flamengo. O texto prevê que presidentes e vice-presidentes dos poderes do clube respondam por prejuízos e atos lesivos ao patrimônio ou à imagem da instituição quando houver culpa no desempenho de suas funções. Também contempla situações de abuso da personalidade jurídica, como desvio de finalidade e confusão patrimonial.
A regra admite, nas hipóteses previstas, que a responsabilização alcance os bens particulares dos dirigentes, inclusive depois do término de seus mandatos.
Isso não significa, porém, que qualquer prejuízo financeiro deva ser pago pelo presidente. Para que haja responsabilização pessoal, é necessário demonstrar os requisitos jurídicos aplicáveis, incluindo a conduta irregular, o dano e sua relação com a atuação do administrador.
O Estatuto também estabelece sanções internas. O artigo 37 prevê, em determinadas situações, perda de mandato e inelegibilidade por períodos de cinco a quinze anos para membros eleitos que descumpram deveres administrativos e regras de responsabilidade financeira.
Já o artigo 145 estabelece restrições à realização de determinadas operações e à assunção de obrigações que possam comprometer o equilíbrio das contas. O artigo 146, por sua vez, prevê hipóteses de suspensão da autonomia da diretoria para celebrar contratos e assumir compromissos, exigindo a atuação dos órgãos competentes de fiscalização e aprovação.
Esses dispositivos fazem parte de um sistema de prevenção e controle, mas não transformam automaticamente todo resultado financeiro negativo em infração estatutária.
Bandeira explica por que criou regras mais rígidas
Ao recordar a reforma de 2015, Bandeira de Mello explicou que a iniciativa surgiu da necessidade de impedir a repetição de problemas financeiros enfrentados pelo Flamengo em administrações anteriores.
Segundo ele, o objetivo era estabelecer padrões de responsabilidade que evitassem decisões prejudiciais ao clube e consolidassem uma nova forma de administrar seus recursos.
"Durante a nossa gestão, nós aprovamos aquela Lei de Responsabilidade Fiscal Rubro-Negra, que era exatamente para proteger o clube de desmandos, delinquências gerenciais e evitar problemas que o clube já vinha enfrentando nas administrações anteriores."
O ex-presidente explicou que a mudança também foi motivada pelas discussões sobre a criação do Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro (Profut), que estabeleceu contrapartidas administrativas e financeiras para os clubes participantes.
Na época, o Flamengo procurou antecipar as exigências em discussão no Congresso Nacional, incorporando ao próprio Estatuto regras de controle e responsabilidade.
Quando o programa federal foi aprovado, segundo Bandeira, o clube já havia realizado as adaptações necessárias por meio de sua legislação interna.
A preocupação também encontra respaldo na legislação nacional. A Lei Geral do Esporte, de 2023, estabelece mecanismos de apuração de atos de gestão irregular ou temerária e prevê a possibilidade de medidas judiciais para ressarcimento de prejuízos causados ao patrimônio de organizações esportivas.
Conselhos do Flamengo estão cumprindo seu papel, avalia ex-presidente
Na entrevista, Bandeira também foi questionado sobre a responsabilidade dos conselhos do Flamengo diante da revisão orçamentária.
A readequação das contas de 2026 recebeu pareceres favoráveis do Conselho Fiscal e da Comissão Permanente de Finanças antes de passar pela votação do Conselho de Administração.
Para o ex-presidente, a atuação dessas instâncias é essencial para acompanhar as diferenças entre o planejamento e os resultados efetivamente alcançados.
"Eu acho que nós estamos exatamente cumprindo o papel dos conselhos. O ideal seria que tudo ocorresse de acordo com o planejado, até que as previsões fossem ultrapassadas pela realidade, como já aconteceu no passado. Mas, quando não acontece, o que precisa ser feito é fazer a correção, e é o que está sendo feito."
Bandeira considera que os mecanismos previstos no Estatuto são suficientemente rigorosos para coibir condutas administrativas irresponsáveis.
A fiscalização orçamentária, entretanto, não elimina a possibilidade de responsabilização caso sejam identificadas irregularidades. A aprovação de uma revisão financeira e a eventual apuração de atos específicos são procedimentos diferentes, que dependem das circunstâncias de cada caso.
E como ficam as finanças do Flamengo em 2027?
Diante das mudanças nas projeções, a atual administração pretende reduzir o ritmo de investimentos em contratações na próxima temporada. Entre as medidas anunciadas está a prioridade para jogadores livres no mercado, evitando operações que exijam desembolsos elevados pela aquisição de direitos econômicos.
A diretoria também trabalha com a expectativa de aumentar a receita com a venda de atletas, buscando recompor parte dos recursos que não entraram em 2026.
Apesar do déficit projetado, o Flamengo sustenta que seu endividamento permanece em patamar administrável. Em comunicado oficial, o clube informou que a receita recorrente deverá crescer 20% em relação a 2025 e que a relação entre dívida e geração recorrente de caixa está em 1,2 vez, abaixo das 1,8 vez registradas em dezembro de 2024.
Os números indicam que a previsão de resultado negativo no exercício não significa, isoladamente, falta de liquidez ou incapacidade de cumprir compromissos. A avaliação da situação financeira exige considerar também o volume de dívidas, os vencimentos, a geração de caixa e a continuidade das receitas.
Em setembro deste ano, o Flamengo também aprovou uma nova reforma estatutária voltada à profissionalização da gestão, com maior separação entre funções executivas e de governança e novas regras de planejamento financeiro.
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Carioca, jornalista e flamenguista. Nessa ordem (às vezes não).
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