Tese vigarista da polarização levou a imprensa a tolerar um Flávio golpista
Reinaldo AzevedoEstupidez que equipara democratas e fascistoides serviu de álibi para condescender com ataques à democracia e ameaças às instituições

Derrotado no domingo (25), Flávio Bolsonaro foi intimado pela Polícia Federal a entregar os passaportes na segunda, cruzou a fronteira com a Argentina na terça e, já em solo norte-americano na quarta, divulgou uma carta em que se proclamava “presidente eleito”. O PL, seu próprio partido, havia reconhecido a vitória de Lula. Quando a Casa Branca, segundo relatos, fez saber do incômodo, o texto foi reescrito até que o título autoproclamado sumisse. Rir do personagem é fácil agora. Mas era difícil enxergá-lo antes? Por que tanta omissão? A verdade é que a tese intelectualmente vigarista da polarização rende um “Ensaio sobre a cegueira” na imprensa e na análise política.
É preciso lembrar a condescendência com que foram tratados os arroubos autoritários do senador. Em 14 de junho do ano passado, por exemplo, em entrevista à “Folha”, ele avisou que o candidato de seu pai teria de garantir, se vitorioso, o indulto ao próprio Bolsonaro e aos condenados do 8 de janeiro de 2023, ainda que o Supremo o anulasse e fosse preciso recorrer à força contra a Corte. O noticiário tratou do assunto como quem diz “hoje é quarta-feira”.
Em 28 de março, no CPAC (Conferência de Ação Política Conservadora), encontro de reacionários realizado no Texas, Flávio declarou que venceria se as eleições fossem livres e justas.
A frase parece só um truísmo, mas carrega a semente do golpismo. Ao condicionar a lisura do pleito à vitória, Flávio converte de antemão qualquer derrota em prova de fraude, já que só o triunfo atestaria a higidez do sistema. É um argumento que não admite refutação: o resultado deixa de ser um fato e se torna um veredicto contra quem apura os votos caso se frustre a expectativa do candidato. Foi o que se viu depois do segundo turno.
Flávio nem sequer era questionado a sério sobre seu plano de governo. A quantidade de besteiras que dizia era assombrosa, sem falar no seu, digamos, aporte ético: aquele que prometia soltar golpistas e encarcerar adolescentes de 14 anos se definia.
No que respeita à fuga, a exemplo do que ocorre com o irmão Eduardo, ninguém sabe com que recursos Flávio viverá fora do país. Eduardo já está condenado; Flávio foge de duas investigações: uma sobre lavagem de dinheiro, que alcança tanto ele quanto o advogado Willer Tomaz por meio de empresas de apostas e plataformas de pagamento, e outra sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, com os milhões doados por Daniel Vorcaro.
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DE VOLTA À POLARIZAÇÃO
Por que tanta complacência com um candidato fascistoide e sedicioso? A tese da polarização congelou a análise política e a fez esquecer o Brasil. Polos são necessariamente opostos. Sendo o bolsonarismo, que é disruptivo, um deles, seria forçoso que o outro, o lulismo, também o fosse, só que à esquerda. E isso é mentira.
No início, essa tese intelectualmente vigarista serviu de pretexto para tentar excluir da política institucional tanto um como o outro. A ambição era impor uma terceira via, uma direita mais ao gosto do grande capital, visto que os Bolsonaro são grotescos. Não deu certo porque o bolsonarismo fagocitou a direita e porque o PT é o único ente da vida pública que pode ser chamado propriamente de “partido”.
Logo, a crítica à tal “polarização” consistia e consiste, na verdade, em um esforço para tirar o PT do jogo e empurrar o país para uma disputa entre uma direita higienizada e a extrema direita. A manobra até agora falhou.
Uma das grandes derrotadas deste pleito, note-se, foi a imprensa que comprou essa leitura, esgrimindo o pesquisismo que tenta administrar o debate público por meio de sondagens supostamente científicas.
Se o bolsonarismo é patético — e é —, se Flávio é golpista até o último fio de cabelo — e é —, por que os editoriais se encarregam de dizer isso só agora? Por que se permitiu que o óbvio ficasse restrito à voz e à pena de meia dúzia, rapidamente confundida com militância petista? Não que ela seja um mal em si. É que, desse modo, só se chancelava a maliciosa teoria da polarização, como se a verdadeira divisão do país se desse entre o lulismo e o bolsonarismo, e não entre a democracia, representada por Lula, e o golpismo fascistizado, encarnado pelos Bolsonaro.
Por covardia, conivência e interesse objetivo, deixou-se que Flávio corresse sem resistência ativa até a beira do pódio. Levantaram-se contra ele, felizmente, os setores populares e os progressistas. A imprensa, como expressão de um pensamento que se pretende liberal, ou silenciou ou igualou o que é desigual em nome de uma suposta neutralidade. O meio-termo entre a democracia e o fascismo será sempre o fascismo por inteiro, pois não existe democracia pela metade.
Volto ao começo: agora é fácil desqualificar Flávio. Difícil era fazê-lo quando o tomavam por “Bolsonaro vacinado” ou expressão do “bolsonarismo moderado”.
NOVA OPERAÇÃO TARCÍSIO. JÁ?
E, como se esperava, a “Operação Tarcísio” já começou: a tentativa de apresentar o governador paulista, Tarcísio de Freitas, como herdeiro palatável da direita. Talleyrand, o diplomata francês, disse dos Bourbon, ao voltarem ao trono, que não tinham aprendido nada nem esquecido nada. A elite brasileira, sobretudo a parcela cujos interesses se abrigam na imprensa tradicional, parece caber nesse figurino. Essa mistura de obtusidade e reacionarismo tem sido, de algum modo, até útil ao petismo. Lula fura bolhas, desmonta predições e humilha o pesquisismo, que confunde o eleitorado com um salame cortado em fatias.
E em 2030, quando Lula não puder disputar? Vamos ver. Debater uma eleição com quatro anos de antecedência?! Tenho de adaptar a frase de Talleyrand aos nossos “Bourbon”: não aprendem nada e esquecem tudo. Há seis dias, o “presidente eleito” se chamava… Flávio Bolsonaro! E, no entanto, “brilha uma estrela, Lula lá…” E já se escolhe quem ocupará o lugar do petista com quatro anos de antecedência? Penso que algo ainda por definir — novo, pois — começou no segundo turno desta eleição. Mais uma vez, Tarcísio já é tratado como pré-presidente. Hum…
Proponho o desafio: eu e ele caminharmos pelo Pelourinho, no centro histórico de Salvador, e vermos quem será convidado a fazer “selfies”. E olhem que sou candidato apenas a algumas provocações gentis.
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