Após investida de Moraes contra Flávio, oposição busca unidade para liderar Senado

Em publicação no X, Rogério Marinho afirmou que espera que “qualquer golpe judiciário ou chicana administrativa” não prospere. (Foto: Ton Molina/Agência Senado)
A ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para Flávio Bolsonaro (PL) entregar passaportes, sete minutos após o anúncio oficial da derrota presidencial do senador, reforçou a urgência para a oposição se unir na briga pela Presidência do Senado em 2027.
A conquista do comando da Casa da Federação é decisiva para iniciar a resistência efetiva contra a perseguição do STF à direita, claramente percebida desde 2019, e conter os excessos da Corte, sobretudo de Moraes. Caso não deixe o posto, ele será aclamado chefe do Judiciário em julho.
Os deputados Maurício Marcon (PL-RS) e Carlos Jordy (PL-RJ) sustentam que a retenção dos passaportes evidencia a perseguição política e serviria para transformar Flávio em moeda de troca contra o impeachment de Moraes. A perspectiva de o ministro ser cassado havia ganhado força especialmente antes das eleições.
A movimentação acelerada de Moraes como relator de inquéritos contra Flávio, chegando a ignorar o Ministério Público, alimenta a leitura de busca desesperada de autopreservação, que poderia negociar alívio a condenados pelo 8 de Janeiro em troca de uma acomodação no Senado.
Maioria da oposição ainda precisa se consagrar como comando do Senado
O PL terá 28 senadores em 2027. A bancada poderosa, a maior de um partido no Senado em décadas, é, contudo, insuficiente para controlar sozinha a Casa. O desafio da direita é, desde já, converter afinidades eleitorais com a centro-direita em compromissos firmes para a eleição da Mesa.
A pauta do impeachment de ministros do STF guiou a escolha da maioria dos eleitores por senadores do PL e outros partidos, sobretudo do Sul e Sudeste. Com isso, a primeira missão dos eleitos com essa promessa é eleger o presidente do Senado, único capaz de pautar o afastamento de magistrados.
O atual presidente, Davi Alcolumbre (União-AP), candidato a seguir no cargo, é a barreira para o impeachment. Não há acordo possível. Ao menos 49 senadores na próxima legislatura apoiam o afastamento de ministros. Faltariam, em tese, só mais cinco para os 54 votos para condenação.
Antes dessa conta, porém, está a Presidência do Senado. Rogério Marinho (PL-RN) e Tereza Cristina (PP-MS) disputam o espaço oposicionista. Entre os dois turnos da eleição presidencial, Marinho iniciou tentativa de diálogo institucional com o STF, na perspectiva de vitória de Flávio. O tom mudou.
Parlamentares buscam a unidade para conter a força dos acordos de bastidor
Reeleito, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encontrou Alcolumbre e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Eles são a aposta do petista para comandar o Congresso em 2027. A aliança fortalece a estratégia de manter o domínio da pauta parlamentar, contra o avanço da direita.
O repentino apoio oficial das cúpulas de União Brasil e PP a Alcolumbre foi visto pela oposição como fruto de pressão de Moraes, que já tinha mediado a reaproximação do presidente do Senado com Lula. A articulação do Centrão e do Palácio do Planalto pressiona parlamentares, como Tereza Cristina (PP).
Nesse cenário em movimento, à oposição interessa antecipar a escolha de um nome e cobrar compromissos públicos. Marcon já defende a declaração dos votos de cada senador para o novo comando do Senado, uma forma de elevar o custo político de apoiar Alcolumbre perante o eleitor conservador.
Há uma ironia histórica: em 2019, senadores mostraram suas cédulas na eleição que levou Alcolumbre à presidência pela primeira vez, após a retirada do então todo-poderoso Renan Calheiros (MDB-AL). A mesma exposição que o favoreceu na vitória histórica poderá agora ser usada contra ele.

Sílvio Ribas
Jornalista de política e economia com foco na cobertura do Congresso Nacional. Passou pelos jornais Diário do Comércio (MG), Gazeta Mercantil, Estado de Minas, Brasil Econômico, Correio Braziliense e A Tarde (BA). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.
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