Saudade de andar no banco de trás da vida

Viajar de carro é um ato de fé. Escrever também. Mas o que não é? (Foto: ChatGPT)
Quando a gente é criança é tão bom andar no banco de trás. Da vida, mas não só. Nas viagens longas, eu gostava de ficar contando os carros que vinham em sentido contrário. Até cansar. Depois, falar em voz alta as placas dos carros e caminhões à frente. Por quê? E desde quando uma criança precisa de um porquê? Aí chegava a vez de ler as frases dos caminhões. Muitas eu não entendia e meu pai tinha que explicar. As picantes ele não explicava. Até que chegava a hora do falta muito? Quantas cidades? Não aguento mais. Que saco.
Tinha também a hora de contemplar as paisagens. Estou pensando na viagem de Curitiba a Maringá. Os Campos Gerais, Vila Velha, as plantações, vacas, cavalos e carneirinhos, um ou outro cafezal que não existe mais, aquele curtume fedido perto de Apucarana, as lombadas de Califórnia, depois Marialva, Mandaguari, Sarandi, a terra vermelha. O outro mundo. No caminho de volta, São Luiz do Purunã era sinal de que faltava pouco. A primeira visão do Parque Barigui era um sonho. De volta ao Paraíso brevemente perdido.
Coxinha estragada
E tinha vezes em que era preciso fazer uma paradinha num cantinho escondido, porque a bexiga não aguentava. Ou então porque comi uma coxinha estragada no Imbaú. Botava os bofes para fora. Nos postos, gostava do cheiro de diesel. De borracha. Gostava de ver aqueles homens cuja vida era ir e vir, ir e vir, ir e vir. Também gostava de parar para comprar mel em favo e, mais raramente, algum artesanato. Às vezes a gente se deparava com um acidente. Não olha!, dizia a mãe se o acidente era muito feio. Mas sempre dava um jeitinho de olhar. Curiosidade mórbida que me acompanha até hoje.
Por falar nisso, hoje ao volante (do carro e da vida) a estrada é mais assustadora do que um exame de sangue com resultados fora do padrão. Muito mais. Nas curvas, emparelhado com um caminhão-tanque, faço o Sinal da Cruz. Suo frio e disfarço rindo ou cantando. Ainda gosto de ver abismos e descampados. O horizonte láááá longe. As montanhas também. Mas ao meu lado a mulher não deixa. Olha pra frente!, ordena ela. Cuidado! – e eu tenho, pô. Cada chegada é aquele alívio e uma promessa de nunca mais abandonar o Paraíso. Até a próxima vez. Viajar de carro é um ato de fé. Escrever também. Mas o que não é?

Paulo Polzonoff Jr.
Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.
Ver nota original ↗
¿Querés un resumen rápido de esta noticia, hecho por nuestra IA?
