O Diário de SP
30/10/2026 13:00

MundoDemocratas dos EUA cobram explicações sobre possível ajuda do governo Trump na saída de Flávio Bolsonaro do Brasil

Um grupo de 25 deputados democratas dos Estados Unidos enviou uma carta ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, para questionar o possível envolvimento do governo de Donald Trump na saída do senador Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil. O documento também cobra explicações sobre a emissão de vistos para o parlamentar e seus familiares.

A correspondência foi encaminhada ao Departamento de Estado na noite de quinta-feira (29) e obtida pela repórter da TV Globo Raquel Krahenbuhl. Segundo o jornal americano Politico, a iniciativa é liderada pelas deputadas Sydney Kamlager-Dove e Dina Titus e conta com a participação de integrantes do Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes.

Os parlamentares querem saber se o governo Trump ajudou Flávio a deixar o Brasil e entrar nos Estados Unidos, mesmo diante de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que restringia suas viagens internacionais e determinava a entrega de seus passaportes.

A carta também questiona se as autoridades americanas tinham conhecimento das investigações criminais envolvendo o senador e se houve participação de funcionários do governo na organização da viagem. Entre os pontos levantados estão possíveis auxílios com reservas de voos, transporte, documentos e procedimentos de imigração.

Os democratas mencionam reportagens da imprensa americana que apontaram uma possível participação do governo Trump na saída do senador, incluindo o suposto pagamento de um voo em jatinho particular utilizado por Flávio e seus familiares.

Outro questionamento envolve a concessão dos vistos. O grupo quer saber qual foi a justificativa legal para a aprovação dos documentos, quais critérios foram considerados e se as investigações em andamento no Brasil foram levadas em conta.

Ao todo, o documento apresenta 15 perguntas ao Departamento de Estado. Os deputados solicitaram respostas por escrito até 13 de novembro de 2026 e também pediram uma reunião informativa com assessores do Congresso dentro do mesmo prazo.

Leia a íntegra da carta enviada pelos democratas

Escrevemos para solicitar esclarecimentos imediatos sobre o papel do Departamento de Estado, caso tenha havido algum, na facilitação da saída do senador brasileiro Flávio Bolsonaro do Brasil e de sua entrada nos Estados Unidos, após uma decisão da Suprema Corte brasileira que restringiu suas viagens internacionais.

Segundo uma reportagem publicada pelo The New York Times em 27 de outubro de 2026, o senador Bolsonaro teria deixado o Brasil com destino aos Estados Unidos após perder a eleição presidencial brasileira e descumprir uma ordem judicial que determinava a entrega de seus passaportes. A ordem teria sido emitida no âmbito de uma investigação criminal envolvendo o senador por suposta lavagem de dinheiro e outras irregularidades financeiras relacionadas.

É particularmente preocupante que, segundo relatos, um alto funcionário do Departamento de Estado tenha afirmado que os Estados Unidos concederiam vistos ao senador Bolsonaro e a membros de sua família e permitiriam sua entrada no país. Outras reportagens levantaram dúvidas sobre se autoridades americanas tinham conhecimento dos preparativos para sua saída ou participaram deles.

Esses acontecimentos levantam questões importantes sobre o processo decisório do Departamento, seu conhecimento da ordem judicial brasileira e se algum funcionário do governo americano prestou assistência antes ou depois da emissão dessa ordem.

A questão central é simples: o Departamento de Estado, a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil ou qualquer outra agência do governo americano ajudou o senador Bolsonaro a viajar para os Estados Unidos ou a entrar no país, apesar da suposta restrição judicial brasileira à sua saída? Caso tenha havido esse tipo de assistência, o Congresso precisa entender o que foi fornecido, quem autorizou, quando ocorreu e quais informações estavam disponíveis para as autoridades americanas naquele momento.

Diante disso, solicitamos respostas por escrito às seguintes perguntas:

  1. Quando o Departamento de Estado, a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília ou qualquer outra missão diplomática americana tomou conhecimento pela primeira vez de que a Suprema Corte brasileira havia ordenado que o senador Bolsonaro entregasse seus passaportes e restringido sua possibilidade de deixar o Brasil?
  2. Algum funcionário do governo americano recebeu, examinou ou discutiu uma cópia da decisão judicial antes de o senador Bolsonaro supostamente deixar o Brasil?
  3. Antes de autorizar ou facilitar qualquer visto ou preparativo de viagem, o Departamento verificou se o senador Bolsonaro tinha autorização legal para deixar o Brasil?
  4. O Departamento tinha conhecimento de que o senador Bolsonaro supostamente não cumpriu o prazo estabelecido pela Justiça para entregar seus passaportes? Em caso afirmativo, quando o Departamento tomou conhecimento desse descumprimento e que medidas, se alguma, foram adotadas em seguida?
  5. O Departamento de Estado emitiu, aprovou, acelerou a tramitação, renovou ou de alguma outra forma facilitou a concessão de um visto ao senador Bolsonaro ou a algum membro de sua família durante esse período eleitoral?
  6. Segundo relatos, um alto funcionário do Departamento de Estado afirmou que o órgão concederia vistos ao senador Bolsonaro e a sua família e permitiria que entrassem nos Estados Unidos. Quem autorizou essa decisão?
  7. Os vistos foram aprovados ou outros procedimentos relacionados à imigração foram realizados antes de o Departamento tomar conhecimento da decisão judicial brasileira? Em caso afirmativo, o Departamento reconsiderou, suspendeu ou reavaliou esses procedimentos após tomar conhecimento da ordem?
  8. Algum funcionário do Departamento de Estado, da Embaixada dos Estados Unidos, da Casa Branca ou outro representante do governo americano se comunicou, direta ou indiretamente, com o senador Bolsonaro, seus familiares, advogados, assessores políticos ou intermediários a respeito de sua viagem aos Estados Unidos?
  9. Algum funcionário do governo americano ajudou com reservas de voos, documentos de viagem, transporte, acesso a aeroportos, agendamentos consulares, planejamento da entrada no país ou outros preparativos logísticos relacionados à suposta saída ou chegada do senador Bolsonaro?
  10. O Departamento coordenou ações com o Departamento de Segurança Interna, a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos, o Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos ou qualquer outra agência federal em relação à chegada prevista do senador Bolsonaro? Em caso afirmativo, descreva a natureza e o momento dessa coordenação.
  11. O Departamento consultou o Departamento de Justiça ou qualquer outra agência federal a respeito das implicações de facilitar a entrada de uma figura política estrangeira que, segundo relatos, deixou seu país em violação a uma ordem judicial?
  12. O Departamento de Estado considerou as possíveis consequências diplomáticas para as relações entre os Estados Unidos e o Brasil, incluindo a possibilidade de que a assistência ao senador Bolsonaro fosse interpretada como interferência nos processos judiciais ou nos assuntos políticos internos do Brasil?
  13. O Departamento de Estado recebeu alguma solicitação das autoridades brasileiras sobre a localização do senador Bolsonaro, sua situação de viagem ou uma possível entrada nos Estados Unidos? Em caso afirmativo, como o Departamento respondeu?
  14. Qual foi a base legal para a emissão ou aprovação de vistos para o senador Bolsonaro e sua família? Quais categorias de visto e critérios de elegibilidade foram considerados, e o Departamento levou em conta as investigações criminais em andamento envolvendo o senador Bolsonaro ao tomar essa decisão?
  15. Algum funcionário do governo americano na Argentina ou no Equador coordenou com o senador Bolsonaro o itinerário de sua viagem?

Diante das importantes questões levantadas por essas reportagens, solicitamos uma resposta por escrito às perguntas acima até 13 de novembro de 2026. Solicitamos também que o Departamento disponibilize funcionários competentes para uma reunião informativa com assessores do Congresso dentro desse prazo.

O povo americano e o Congresso têm um interesse legítimo de fiscalização em compreender se recursos diplomáticos e de imigração dos Estados Unidos foram utilizados para facilitar a viagem de uma figura política estrangeira nessas circunstâncias.

A transparência é particularmente importante quando os acontecimentos relatados envolvem um processo judicial estrangeiro, relações bilaterais sensíveis e a aplicação consistente das políticas americanas de imigração e diplomacia.

Manifestação da defesa: o material enviado não apresenta uma nota ou posicionamento da defesa de Flávio Bolsonaro sobre os questionamentos feitos pelos deputados.

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