Quem é Márcio Poncio, pastor investigado pela PF cuja família aparece ligada a dívida de quase R$ 3 bilhões
Conhecido pela atuação como pastor evangélico, pelos negócios no mercado de cigarros e pela exposição da família nas redes sociais, Márcio Poncio voltou ao centro de uma investigação da Polícia Federal (PF). O empresário foi alvo de novas buscas na quinta-feira (29/10) durante uma operação contra suspeitas de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio no Rio de Janeiro. O episódio coincide com a divulgação de um levantamento que aponta quase R$ 3 bilhões em dívidas tributárias associadas a empresas e integrantes da família.
A nona fase da Operação Unha e Carne teve como alvo endereços na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste da capital. Foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão, incluindo diligências em salas comerciais ligadas ao pastor. Durante a ação, agentes apreenderam joias avaliadas em aproximadamente R$ 900 mil, cheques de alto valor, aparelhos eletrônicos e documentos.
Poncio já havia sido preso em julho, durante outra etapa da investigação, quando a PF apurava suspeitas de envolvimento de empresários e operadores financeiros com a chamada máfia do cigarro e o jogo do bicho. Posteriormente, sua prisão preventiva foi convertida em domiciliar por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF).
Dos negócios com cigarros à fama nas redes sociais
Antes de ganhar notoriedade como líder religioso e integrante de uma família de influenciadores, Márcio Poncio construiu sua trajetória empresarial no setor de tabaco. A atividade lhe rendeu o apelido de pastor do cigarro, associado à atuação em empresas ligadas à fabricação e à distribuição desses produtos.
Ele também se tornou conhecido por sua participação na Igreja da Nuvem e pela presença frequente nas redes sociais ao lado dos familiares.
Pai da influenciadora e deputada estadual Sarah Poncio, integrante da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), e do cantor Saulo Poncio, Márcio passou a ter sua vida pessoal acompanhada por um público que se interessava pela rotina e pelos relacionamentos da família.
A trajetória também incluiu uma passagem pela política. Em 2022, disputou uma vaga de deputado federal pelo Rio, mas não foi eleito. Mais tarde, manifestou interesse em concorrer à Prefeitura de Três Rios, no Centro-Sul Fluminense, em uma eleição suplementar, candidatura que não chegou a se concretizar.
Família aparece vinculada a quase R$ 3 bilhões em dívidas
Além das investigações criminais, os negócios associados à família são alvo de cobranças tributárias bilionárias.
Um levantamento do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP), divulgado nesta sexta-feira (30), aponta R$ 2.929.182.175,11 em débitos relacionados a empresas e integrantes do grupo familiar. Os dados correspondem ao segundo trimestre de 2025 e abrangem tributos federais, multas e juros.
As cobranças estão concentradas principalmente em empresas ligadas ao setor de cigarros, incluindo a Clean Indústria e Comércio de Cigarros, a Distribuidora Gudang Brasil e a New Ficet Indústria e Comércio de Cigarros.
O levantamento considera obrigações tributárias compartilhadas entre pessoas físicas e jurídicas. Isso significa que os débitos atribuídos individualmente aos integrantes da família não podem ser somados, uma vez que parte das cobranças corresponde às mesmas obrigações.
Em abril, uma apuração do Estadão já havia identificado o montante bilionário. Na ocasião, também foram divulgados registros que relacionavam Sarah Poncio e sua mãe, Simone Poncio, a parte das cobranças.
A família contesta a responsabilização. Sarah afirmou, por meio de sua assessoria, que os débitos decorrem de processos antigos envolvendo empresas das quais não teria participado como sócia ou administradora. Márcio também sustentou ter sido indevidamente incluído em cobranças relacionadas a atividades empresariais anteriores.
As alegações não permitem concluir, sem análise das decisões judiciais correspondentes, que todas as dívidas tenham sido definitivamente afastadas.
Polícia Federal investiga rede de imóveis e empresas
A investigação criminal que voltou a colocar Márcio Poncio no noticiário tem como foco a possível utilização de estruturas empresariais e patrimoniais para ocultar a origem e a titularidade de bens e valores.
Segundo a Polícia Federal, os investigadores identificaram indícios de uma rede composta por imóveis de alto padrão, aeronaves executivas, veículos de luxo e empresas registradas em nome de familiares, colaboradores e terceiros.
A corporação também apura movimentações em dinheiro vivo, operações financeiras de difícil rastreamento e a possível utilização de entidades religiosas e empresas patrimoniais para dissimular a propriedade de determinados ativos.
Outro alvo da operação de quinta-feira foi Bernardo Coutinho Loyola, sobrinho do contraventor Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, apontado pelos investigadores como uma das figuras centrais do esquema sob apuração.
As investigações são um desdobramento de operações iniciadas para apurar possíveis relações entre integrantes do crime organizado, operadores financeiros e agentes públicos.
Na etapa mais recente, o material apreendido deverá ajudar a Polícia Federal a aprofundar a análise das movimentações e estruturas patrimoniais identificadas.
Imóveis milionários também aparecem em levantamento
O relatório sobre as dívidas fiscais também examinou registros de imóveis associados ao grupo empresarial.
Entre os bens identificados estão uma propriedade em Mangaratiba, na Costa Verde, adquirida por R$ 9 milhões, e um apartamento na Avenida Lúcio Costa, na Barra da Tijuca, com valor de aquisição de R$ 22 milhões.
Segundo o levantamento, os imóveis analisados somam aproximadamente R$ 49,2 milhões em valores de aquisição. Parte dos registros apresenta restrições ou medidas administrativas relacionadas a cobranças tributárias.
Essas informações, entretanto, não significam que todos os imóveis pertençam pessoalmente a Márcio Poncio ou que tenham sido adquiridos com recursos de origem ilícita. A situação de cada propriedade depende de seus registros e dos procedimentos em andamento.
Investigações e cobranças seguem caminhos diferentes
Apesar de envolverem integrantes do mesmo grupo familiar, as dívidas tributárias e as suspeitas investigadas pela Polícia Federal devem ser analisadas separadamente.
A inscrição de débitos na dívida ativa da União permite a cobrança pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), mas não representa, por si só, comprovação de crime. Da mesma forma, a existência de uma investigação policial não equivale a uma condenação.
O valor de quase R$ 3 bilhões corresponde ao levantamento referente ao segundo trimestre de 2025, sem confirmação de que represente exatamente o saldo exigível atualmente.
Quanto à investigação criminal, a defesa de Márcio Poncio informou, após a operação de quinta-feira, que não havia tido acesso à decisão judicial e desconhecia os fundamentos das novas medidas.
O caso segue sob investigação, enquanto os questionamentos sobre a responsabilidade pelas dívidas fiscais continuam sujeitos aos respectivos procedimentos administrativos e judiciais.
- Alerj
- Barra da Tijuca
- Dívida Ativa da União
- Dívida Bilionária
- Família Poncio
- investigação policial
- Lavagem de dinheiro
- Máfia do Cigarro
- Márcio Poncio
- Operação Unha e Carne
- Pastor Márcio Poncio
- PGFN
- Polícia Federal
- Receita Federal
- Rio de Janeiro
- Sarah Poncio
Carioca, jornalista e flamenguista. Nessa ordem (às vezes não).
Ver nota original ↗
¿Querés un resumen rápido de esta noticia, hecho por nuestra IA?
