Gazeta do Povo
30/10/2026 13:56

Parque de cânions fica sem investidores mesmo com “boom” do turismo de natureza

Entre os paredões da Serra Geral, uma abertura natural na rocha dá nome a um dos parques estaduais mais singulares de Santa Catarina. O Parque Estadual da Serra Furada, entre Grão-Pará e Orleans, reúne cânions, Mata Atlântica, trilhas e paisagens de montanha em uma região que ganha força com vinícolas, gastronomia, pousadas e turismo de inverno.

O cenário coloca a unidade em sintonia com um dos segmentos mais valorizados do turismo brasileiro do último ano: 175 unidades de conservação federais abertas à visitação receberam 28,5 milhões de visitas em 2025, o maior número desde o início da série histórica, em 2000. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), esse movimento acrescentou R$ 20,3 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

Após 46 anos, a Serra Furada segue na contramão desse avanço. O parque não possui estrutura turística planejada para receber um fluxo maior de visitantes, não tem estatística consolidada de público, depende de recursos de compensação ambiental para investimentos e ainda busca um modelo de operação para qualificar a visitação.

A dificuldade aparece na tentativa de levar o atrativo a outro patamar. Em 2023, o estado lançou uma licitação para entregar à iniciativa privada, por 30 anos, a operação dos serviços turísticos do parque, com previsão de centro de visitantes, restaurante, mirantes, melhorias nas trilhas e atividades de aventura.

Nenhuma empresa ou consórcio apresentou proposta. A concorrência foi declarada deserta; não há contrato vigente e o Instituto do Meio Ambiente (IMA) informou que a concessão está descartada.

O órgão afirma estudar alternativas como permissão e autorização de serviços, mas não divulgou cronograma nem detalhou como pretende financiar a estrutura necessária. A pergunta que fica é por que um patrimônio natural com potencial para fortalecer o turismo regional ainda não encontrou um caminho viável para sair da condição de atrativo pontual e se consolidar como destino.

Paisagem não basta para atrair investidor

Parte da resposta está no que existe em volta do parque. Criada em 1980, a unidade tem 1.330 hectares nas escarpas da Serra Geral e leva o nome de uma formação rochosa atravessada por uma abertura natural.

Chegar até ela exige trilha, agendamento prévio e condutor credenciado. “É um produto de turismo de natureza, e não de massa”, explica o professor e pesquisador em políticas públicas do turismo da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) Marcos Arnhold Júnior.

Eleconsidera que a ausência de propostas não deve ser lida como falta de potencial. Segundo ele, o investidor olha para a oferta regional, o fluxo provável de visitantes, o acesso, a estrutura existente e o prazo para recuperar o dinheiro aplicado.

"Quando o parque está isolado, ou em uma região que tem pousadas e outros equipamentos, mas ainda não possui um roteiro capaz de manter o visitante por três, quatro ou cinco dias, a atração de investidores se torna mais difícil", avaliou.

Esse cálculo pesa mais quando o próprio estado não sabe quantas pessoas visitam o parque. O IMA informou que a entrada de visitantes sem agendamento ou cadastro impede a formação de uma estatística oficial desde a abertura ao público, em 2021.

A empresa interessada teria de estimar a demanda no escuro. O problema, segundo o pesquisador, é que no estágio atual uma empresa pode não enxergar público suficiente para cobrir investimentos, custos de operação e as restrições próprias de uma unidade de proteção integral.

Sem orçamento próprio, parque tem estrutura enxuta

O parque conta com dois servidores, quatro terceirizados e 14 condutores de visitantes com cadastro ativo. Segundo o IMA, não há recursos específicos no orçamento estadual para infraestrutura. Quando há dinheiro, vem de compensação ambiental.

O órgão apontou que existem processos em andamento para implantar estruturas de recepção de visitantes, mas não detalhou objetos, valores, prazos nem fontes de recursos. A mudança de modelo é o que está de fato em discussão, e ela aproxima Santa Catarina de um caminho que o governo federal já usa em escala.

Em 2025, o ICMBio publicou 19 editais de delegação de serviços de apoio à visitação nas modalidades autorização e permissão, superando a meta de 18 prevista no Plano Plurianual, de acordo com o relatório de gestão do instituto. Os editais cobriram condução de visitantes, venda de alimentos e transporte em parques como Emas, Jericoacoara e Serra da Capivara.

São contratos menores e mais rápidos, que não exigem um único operador para todo o parque. As grandes concessões, porém, continuam no radar de outros estados.

Formação rochosa que dá nome ao Parque Estadual da Serra Furada, em Santa Catarina

Monumento natural do Parque Estadual da Serra Furada, atrativo central da unidade de conservação entre Grão-Pará e Orleans. (Foto: Prefeitura de Grão-Pará/Divulgação)

Goiás, por exemplo, tem sessão pública marcada para 17 de novembro para conceder um pacote de parques estaduais, segundo o rol de projetos do BNDES. Arnhold Júnior vê a diferença entre um modelo e outro como condição para qualquer saída catarinense.

"Não basta lançar um edital para que uma empresa cuide do parque. Ela também precisa ter condições de gerar recursos para sustentar a operação, seja qual for o modelo adotado pelo governo", afirmou.

A Secretaria de Estado do Turismo foi procurada para informar se o Parque Estadual da Serra Furada integra as estratégias de promoção do turismo de natureza e quais ações ou investimentos são previstos para estruturar a visitação na região. Até a publicação desta reportagem, porém, não houve resposta.

Parque Serra Furada precisa entrar no roteiro regional

A viabilidade do parque depende de a região crescer junto com ele, acredita o pesquisador. Isso envolve sinalização turística, hospedagem, gastronomia, comércio, qualificação dos serviços e roteiros que segurem o visitante por mais de um dia em Grão-Pará, Orleans e nos municípios vizinhos.

A serra catarinense já caminha nessa direção, com vinícolas, pousadas e uma oferta impulsionada pelo turismo de inverno e pela vindima. O desafio, na avaliação de Arnhold Júnior, é fazer a Serra Furada deixar de ser uma parada pontual e virar parte indispensável desse circuito.

Antes de equipamentos mais complexos, como tirolesa e arvorismo, a prioridade seria o básico: controle de acesso, dados confiáveis sobre o público, manutenção de trilhas, segurança, sinalização e recepção. Segundo o pesquisador, também há espaço para experiências compatíveis com as regras de uso, como turismo acadêmico, observação de espécies e educação ambiental.

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