Campo Grande News
O navio na garrafa
Dois de novembro tem cheiro de vela derretida e água sanitária. As famílias chegam cedo, com balde, escovinha, pano de chão e o crisântemo comprado no portão por um preço que, em qualquer outro dia do ano, daria boletim de ocorrência. Esfrega-se o mármore. Arranca-se o mato, limpa-se a lápide. Troca-se a flor de plástico desbotada por outra, também de plástico, porém nova. Há quem leve cadeira de praia e garrafa térmica. Há quem converse com a lápide em voz baixa, inclinado, como se o morto tivesse ficado meio surdo depois de velho e ninguém tivesse tido coragem de avisar. Há ainda quem debulhe um terço, fazendo daquilo um elo entre mundos. Gosto de olhar essa coreografia com olhos de estrangeiro, porque ela confessa, sem querer, algo que nenhum de nós diria em voz alta: tratamos o túmulo como endereço. Vamos lá uma vez por ano, como quem visita o parente que mora longe, deixamos a casa em ordem e voltamos para a vida com a consciência varrida. Pronto. Cumprimos. Acontece que os nossos mortos não moram lá. Moram, quando muito, de favor. Meu avô, por exemplo, nunca se mudou para o cemitério. Ele foi meu segundo pai, e sei exatamente onde mora hoje, porque de vez em quando eu o flagro nas minhas próprias mãos. Era um homem sistemático, desses que sabem o lugar de cada coisa e esperam que cada coisa saiba o seu, e ao mesmo tempo um brincalhão, combinação mais rara do que parece. Os sistemáticos costumam desconfiar do riso; os brincalhões costumam perder as chaves. Ele não perdia nem uma coisa nem outra. Suas mãos eram uma extensão da imaginação, e a prova eram os navios: casco, mastro e velame montados dentro de garrafas de vidro, sem que nenhuma se quebrasse. Para quem nunca viu o ofício, o segredo é que o navio entra em pedaços, de mastros recolhidos, pelo gargalo estreito, e só se ergue lá dentro, puxado por um fio. Aquilo era uma arte, e, como toda arte, era sobretudo paciência disfarçada de mágica. E falava com os bichos. Não naquele dialeto de diminutivos que usamos com cachorro e, às vezes, com subordinados. Falava como se fala com amigo, de igual para igual, e esperava resposta. O mais assíduo desses amigos era o Loro, um papagaio companheiro de estrada e de ombro, que tinha sobre os outros bichos a vantagem desleal de responder em português. Foi com ele que aprendi, ainda menino, que bicho fala. O Loro, claro, falava. A lição era sobre os outros, os que não pronunciam palavra nenhuma. Levei anos para entender que aquilo não era só brincadeira, ou melhor, que era brincadeira e verdade ao mesmo tempo, a forma mais séria de verdade que conheço. O bicho fala pela orelha que gira, pelo rabo que para no meio do abano, pela pelagem que se arrepia, pelo silêncio súbito antes do trovão. Quem quer ouvir precisa calar e ler o contexto. A vida inteira, para ele, era um laboratório de curiosidade, e a criança ao lado era convidada, nunca plateia. Hoje, depois de muitos anos de salas de reunião, desconfio que a parte mais útil do que sei sobre gente aprendi ali, antes de qualquer livro, e olha que não foram poucos os livros. Gente também fala pela orelha que gira, pelo nariz que coça. Toda reunião se diz primeiro no corpo e só depois na ata, e quem só lê a ata chega atrasado à própria reunião. Quando penso nele, penso em Hefesto, o ferreiro dos deuses gregos: coxo, suado, desajeitado entre imortais de perfil esculpido, e o único capaz de fazer com as mãos aquilo que os outros só sabiam desejar. Mas a passagem de que mais gosto não está na forja. Está no primeiro canto da Ilíada. Zeus e Hera brigam no banquete, e o Olimpo inteiro prende a respiração, porque briga de casal divino costuma terminar em tempestade para os mortais. É então que Hefesto se levanta, toma a jarra e sai servindo néctar a todos os deuses, da esquerda para a direita, com seu passo torto. Os imortais, ao vê-lo atarefado e mancando pelo salão, caem num riso que Homero chama de inextinguível. A briga se dissolve, e o banquete segue até o pôr do sol. Repare no detalhe que quase ninguém repara: os deuses riem dele. Hefesto apaga o incêndio oferecendo o próprio passo torto como piada. Homero não diz que ele fez de propósito. Eu desconfio que fez. Porque é exatamente isso que me pego fazendo. Anos atrás, quando fui diretor de inovação numa instituição de ensino, herdei um problema que qualquer pessoa que já trabalhou numa universidade reconhece de olhos fechados: reuniões longas, prolixas, intermináveis. Eu poderia ter escrito um regulamento. Arrumei um cronômetro. E passamos a fazer as reuniões em pé. À mesa, que agora já nem era mesa, estavam professores clássicos, na acepção mais tradicional, e mais respeitável, do termo: gente que aprendeu a pensar sentada e sem pressa. Odiaram. No começo, o cronômetro foi recebido como ofensa pessoal, e eu, o seu dono, como principal suspeito. Até que, sem que ninguém anunciasse, aquilo virou jogo. Os mesmos que reclamavam passaram a vigiar o próprio tempo e, com especial prazer, o tempo dos outros. A reunião começou a fluir. E, para espanto de todos, inclusive meu, ficou divertida. Não inventei esse jeito. Recebi pronto, embrulhado em infância. Desmontar o problema como quem desmonta um brinquedo, procurar onde ele range, deixá-lo falar como o bicho, aceitar o papel de quem incomoda até que o incômodo vire riso: tudo isso estava nas mãos de um homem que punha navios dentro de garrafas sem quebrar o vidro. Recebi também a outra metade, a sistemática: a palavra dada. Para ele, prometer era assinar com o corpo. Aprendi a prometer menos do que poderia e a cumprir o que prometi, e quando a promessa ameaça escapar, sinto o desconforto de quem tem alguém olhando por cima do ombro. Agora a parte que não cabe na coroa de flores. Não escolhi nada disso. Ninguém me perguntou se eu queria herdar a mente brincalhona ou o peso da palavra empenhada. Vieram como vem o formato das mãos e o jeito de rir. E, se as heranças boas chegaram assim, sem pedir licença, não há por que acreditar que as outras tenham batido à porta. Todos carregamos mortos que votam em silêncio nas nossas decisões. Uns repetem a desculpa que o pai nunca pediu. Outros contam moedas com a escassez da mãe, mesmo de conta cheia. Há quem ainda ouça a voz do professor que humilhava sempre que corrige a própria letra. Herança não vem com nota fiscal. Ninguém devolve o que não serviu. Há, ainda, uma desconfiança mais fina, dessas que a gente prefere não trazer para a mesa. O avô que carrego talvez seja mais limpo do que o avô que existiu. A memória também tem balde e escovinha. Ela esfrega, arranca o mato da junta e troca a flor desbotada por outra, nova, que tampouco é de verdade. Faço com ele, todos os dias, o que as famílias fazem com o mármore uma vez por ano. E é bem possível que seja justamente esse polimento que me permita continuar a ouvi-lo. Talvez carregar um morto seja isso: um navio montado por dentro, que entrou deitado pelo gargalo estreito da infância e só ergueu os mastros muito tempo depois, puxado por um fio que a gente nem sabia que estava segurando. Os mortos não precisam de túmulo limpo. Precisam de quem os continue, e nós os continuamos, queiramos ou não, inclusive naquilo que juramos nunca repetir. A pergunta honesta deste Dia de Finados não é se os nossos mortos ainda estão vivos. Estão. É quais deles estão governando. Nesta segunda-feira, milhares de mãos vão esfregar mármore pelo país. Antes de reparar a lápide, talvez valha reparar nas mãos. E me responda, agora que estamos só nós dois à mesa: da última vez que você decidiu alguma coisa importante, quem estava decidindo? (*) Gillianno Mazzetto é palestrante, autor de cinco livros, com formação em Harvard e na UC Berkeley.
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